Conheci o Zé há muito tempo, com amigos em comum num café no Areeiro. Passaram 13 anos e ainda me lembro de pensar “Ele não tem vergonha de falar assim?”. Estava a beber uma Coca-Cola enquanto roubava as vogais a todas as palavras. De cada vez que abria a boca, ouvia-se o sotaque comido de Lisboa.

Não juntámos logo a vida. Durante uns anos, ele era só o rapaz que se vestia à hippie, não sabia fazer a barba e punha tequila no Ucal para eu me rir. Acho que nunca me ri tanto como com o Zé, e como era fácil estarmos em sintonia, comunicarmos com os olhos. Ainda antes de a piada estar feita, já olhávamos um para o outro. Um dizia “Eu sei” e o outro sabia o quê.

A partir daí, parecia que não nos íamos largar. Como um casal, íamos ao Leroy Merlin aos sábados, fazíamos até compras um para o outro. Não era bonito, mas eu gostava de olhar para ele, de ver como sorria sem motivo, qual cão excitado pelos movimentos da vida.

Quem me via perguntava por ele. Quem o via perguntava por mim. Éramos convidados os dois pelos amigos e foi juntos que vimos a madrugada de Lisboa. Eram três da manhã e nós no Cais do Sodré à espera do autocarro, ele com duas cervejas, eu com sono. E parecia tão trágico ter o Tejo aos pés, uma pequena brisa de Verão e o Cristo Rei ao fundo.

Eu ainda estava a conhecer Lisboa, para mim era tudo novidade, e ainda sentia aquele lampejo chamado juventude. Como cada dia era uma descoberta, parecia que a vida era uma coisa a acontecer – e ia passar-se sempre. A cada coisa nova, teria o Zé ao lado. Quando eu começava uma piada, nem precisava de acabá-la.

O Campo Grande a um domingo era o Zé a sorrir de bollycao na mão. A ponte 25 de Abril éramos nós em cima da minha mota, quase a morrer pelo vento, rumo à praia e ao escaldão. O Martim Moniz encheu-se de clandestinos chineses onde fomos felizes com noodles e raviolis. A Graça depois do sol era Lisboa metida em quatro olhos.

Ainda ontem éramos jovens e hoje estamos nos 30. Nenhum de nós sabe como aconteceu, mas a verdade é feita de cimento. Um dia, olhámos um para o outro e nenhum de nós sentiu nada. Deixámos de ser amigos porque o amor sem sexo também morre. Como num corte a bisturi, começámos a evitar-nos para não tropeçarmos nos destroços.

Quando nos cruzávamos, cumprimentávamo-nos com um sorriso que era meio vergonha, meio embaraço, e metíamos na voz um tom de quem finge perante o outro que não sabe que já não há nada para regar. O problema era que, como num amor desfeito, já estávamos nas teias um do outro, conhecíamos as mães, os irmãos, os tios, e todos eles nos fugiam como se tivéssemos lepra.

Quando dois amigos se largam, há uma vergonha que constrange. Ninguém fala do assunto. Ninguém percebe porquê. O silêncio de ferro à volta é mais incompreensível do que o do divórcio e os dois entendem que quebraram um laço que não devia ter sido quebrado.

Já éramos pó voado e ainda me perguntavam “Então, como anda o Zé?” e eu punha um sorriso que era uma defesa e dizia, em falsa voz, “Anda bem, anda bem”. Ele, suponho, fazia o mesmo.

Um dia, cruzámo-nos no metro, não tivemos outro remédio senão sentarmo-nos ao lado um do outro. Trocámos banalidades que eram um insulto à intimidade que tínhamos tido, contámos novidades que só mostravam que a vida do outro já não era a vida de um. E, duas estações depois, refugiámo-nos nos telemóveis. Ainda espreitei o dele, mesmo a tempo de o apanhar a mudar o nome do contacto “Meu amor” para “Marisa”. Não me explicou porquê, e eu fiquei sem saber o que tinha feito a Marisa ao meu amigo. Já estávamos naquela fase em que assumir uma derrota era ser derrotado.

Despedimo-nos nos Anjos como dois desconhecidos. “Então até à próxima”, que soco. Um virou à direita e outro à esquerda para não nos aguentarmos mais segundos, de costas dadas um ao outro como se não tivéssemos feito a vida juntos. Para trás, tínhamos o passado em bruto. Para a frente, já não havia nada.

Íamos ser amigos para a vida, mas a vida seguiu e estamos cada um para seu lado. Lisboa, que era dele, agora é minha. Já não sinto que ando na terra do Zé, a língua de gravata à volta já não me lembra o sotaque dele, todo comido e entravado. Mas, de vez em quando, de phones nos ouvidos, penso que ele ia gostar daquela música, que ele é que me mostrou aquela música e que comecei a gostar dela só por gostar dele. E uma parte ínfima de mim quer o teletransporte para o passado, apesar de o passado estar morto há muito tempo e de até me causar asco pensar em dar oxigénio a um cadáver. Era só para ouvirmos aquela canção mais uma vez.

Há relações que nascem porque se ouviu Fausto a noite inteira. E, mesmo quando morrem, ainda são um sonho lindo que se lembra.

Sem outro remédio, Lisboa, que agora é minha, volta e meia ainda tem o Zé a cantar Fausto.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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19 Comentários

  1. Muito bom, uma escrita impregnada do que somos, mas que todos teimamos em abandonar…sem pensar…fácil, ligeiro e depois, bem depois deixamos de Ser.

  2. Delicioso!… Fiquei com pena dos dois… Bem, mas concordo que com cadáveres de sonhos afogados, de encontros desencontrados… não se consegue reconstruir aquilo que foi tão bonito… e nem sabemos porquê, mas a vida tem destas coisas… A escrita é tão fluente e macia que dava vontade de ficar aqui e nunca mais acabar de ler… Parabéns!…

  3. Muy buena narración, disfruté mucho el tono y el ritmo. Por el tema de las relaciones contemporáneas me hace acordar de “Mañana tenderemos otros nombres” de Patricio Pron.

    Saludos desde Medellín.

  4. Uma situação que acontece com muitos amigos. Há sempre algo em comum que faz gostar dum Zé, mas a vida dá voltas e o passado foi somente um bom momento entre dois amigos

  5. Brilhante texto sobre as relações humanas, sobre afeto e sentimentos. Adorei!

  6. Ahh o Fausto, sempre em som de fundo na banda sonora da minha vida. Este texto é doce e delicado, terá sido por ela?

  7. Adorei e aposto que tal como eu, muitos sentiram que a sua história estava descrita aqui. Talvez não nestas palavras, não na história, não sei todo, mas nas linhas condutoras que atiram os que outrora dividiram a vida para lados opostos. Parabéns, que texto fantástico!

  8. Obrigado Ana Bárbara por esta estória curta,escorreita,ao mesmo tempo leve e fresca mas densa. Essa situação já aconteceu a quase todos,há sempre um bocado de nós que fica com quem partilhámos vida ou,apenas,momentos e há uma ternura que fica para sempre,que nos acaricia quando nos lembramos.

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