Um cadeado encerra as portas de uma vida. A de Joaquim Pinto, o barbeiro que dedicou cinquenta dos seus quase oitenta anos a um negócio que tratou como um filho e, como tal, ostenta o seu nome. É dele uma das 32 lojas por detrás da porta encerrada e que, com o mesmo passado ou não, agora dividem um futuro incerto.

A 3 de julho, uma decisão judicial pôs um ponto final às atividades do Apolo 70, conhecido como o centro comercial mais antigo de Portugal, um dos primeiros a funcionar na Europa e que, desde 1971, viveu dias de apogeu em Lisboa. Um brilho esmaecido com o passar dos anos, até o triste e constrangedor apagar das luzes.

O Pinto’s Cabeleireiro espelha essa trajetória. Pela porta agora trancada por um cadeado, passaram nomes importantes e decisivos da história de Portugal. Sentaram-se nas cadeiras de pele castanha do senhor Joaquim celebridades da televisão e do desporto, além de figuras influentes da sociedade, do jornalismo e da política.

“Sabe, tive como clientes quatro primeiros-ministros e dois presidentes da república”, contabiliza o senhor Pinto, de pé diante da porta encerrada, na vã esperança de que o pesadelo termine. “Podemos conversar noutro sítio?”, sugere o barbeiro, os olhos humedecidos sob a máscara. “Fui feliz aqui. Dói-me ver tudo isto assim.”

O barbeiro do poder

Num café mais afastado recorda um início de profissão que foi menos glamoroso. “Comecei na profissão na tropa”, conta o antigo soldado Pinto, barbeiro e clarim do Batalhão de Cavalaria. Armado da corneta, da tesoura e da navalha, era o responsável pelos toques de alvorada, de rancho e de recolher, e também pelos retoques nos cabelos e nas barbas dos colegas de farda.

Joaquim Pinto e o clarim em ação: início profissional na tropa. Foto: Arquivo Pessoal.

Nascido em São Martinho dos Mouros, Resende, o jovem Joaquim Pinto chegou a Lisboa em meados dos anos 1960. O primeiro “salão” foi nas austeras dependências do quartel que então funcionava bem perto do Apolo 70, onde hoje é o campus da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, na avenida de Berna.

A carreira como barbeiro civil começou após o regresso da Guiné, onde esteve durante a Guerra Colonial. “Quando cheguei do Ultramar, tirei um curso na Associação Portuguesa de Barbearias e passei a trabalhar na profissão”, conta.

Na altura, as portas do Apolo 70 já estavam abertas, mas Joaquim Pinto só iria lá entrar anos depois, em 1975.

Antes, foi barbeiro em barbearias em Carnide, Penha de França, Reboleira e também no Hotel Flórida, no Marquês de Pombal. Numa delas – discreto, prefere não revelar qual – o patrão fez-lhe uma proposta sui generis. “Disse-me que como cortava o cabelo melhor do que ele, eu passaria a ser o patrão e ele o empregado.” E assim foi.

A discrição tornar-se-ia uma das marcas registadas do barbeiro, uma habilidade que lhe seria tão valiosa como a perícia com as tesouras e navalhas

A discrição tornar-se-ia uma das marcas registadas do barbeiro, uma habilidade que lhe seria tão valiosa como a perícia com as tesouras e navalhas na sua nova morada, já com o nome estampado na placa. A capacidade de ser um bom e fiel ouvinte garantiu-lhe a simpatia e confiança de uma clientela habituada ao poder.

Os primeiros clientes famosos do Pinto’s Cabeleireiros compunham o casting de artistas e jornalistas da vizinha RTP, que até 2004 funcionou a poucos metros da Apolo 70, na Avenida 5 de Outubro. Foi assim que Joaquim Pinto se habituou a ver à noite, no ecrã, os cabelos que havia cortado à tarde na sua barbearia.

Cavaco Silva, um dos dois presidentes e quatro primeiros-ministros a sentar na cadeira da barbearia. Foto: Arquivo Pessoal.

Foi, no entanto, a clientela no círculo político que lhe valeu a alcunha do “Barbeiro do Poder”, título do livro que conta a sua história, publicado em 2018, por Paulo António Monteiro.

O primeiro poderoso a sentar-se na poltrona da barbearia foi Sá Carneiro, o social democrata de bom cabelo e toque galã, cujo corte, que tinha sido executado por Joaquim Pinto se tornou tema de debate no Parlamento.

“O Magalhães Pinto gostou tanto do corte que foi perguntar à secretária do Sá Carneiro, a dona Conceição, onde ele havia cortado o cabelo. E foi a própria dona Conceição que ligou para marcar um horário para o deputado”, conta o barbeiro.

“O Magalhães Pinto gostou tanto do corte que foi perguntar à secretária do Sá Carneiro, a dona Conceição, onde ele havia cortado o cabelo.”

Depois, vieram Eurico de Melo, Mota Pinto, Pacheco Pereira, Miguel Cadilhe, Lucas Pires, Laborinho Lúcio, Isaltino Morais, Faria de Oliveira, Arlindo de Carvalho, Ferreira do Amaral…  e o telefone não voltaria a parar de tocar.  

Sempre com Conceição Monteiro do outro lado da linha, ao mesmo tempo secretária do PSD na Assembleia da República e do anexo da barbearia em São Bento, era ela a encarregada de encaixar na ocupada agenda de deputados, presidentes de partidos, ministros e primeiros-ministros um horário na também concorrida agenda de Joaquim Pinto.

Mas não se pense que eram apenas homens de direita: aqui também cortaram o cabelo Jorge Sampaio, o Major Tomé, Marcelo Curto, Vitor Alves, Francisco Seixas da Costa, e, claro, Mário Soares.

O último a cortar a barba a Soares

Mário Soares foi cliente do Pinto até poucos dias antes da morte do político, em 2017. Foto: Arquivo Pessoal.

Dos nomes que passaram pelo salão na Apolo 70, o barbeiro reserva especial estima a dois: Mário Soares e Cavaco Silva. De lados opostos, partilhavam pelo menos o corte de cabelo. Cavaco Silva começou a frequentar o salão do Apolo 70 quando ainda era funcionário do Banco de Portugal e continuou como ministro das Finanças e depois como primeiro-ministro. A única diferença era que Soares ia de mês a mês e Cavaco de três em três semanas. Não raras vezes tinha de ser a habilidade do barbeiro a evitar encontros que não seriam muito desejados – até quando um era Presidente e o outro primeiro-ministro.

“Fui o último a cortar a barbinha do senhor Mário Soares”, recorda-se, emocionado, sobre a visita dedicada ao antigo cliente, poucos dias antes da morte do político, em 2017, em sua casa, no Campo Grande.

“Não vou mentir que algumas vezes ouvi em primeira mão o nome de pessoas que seriam nomeadas no governo.”

Joaquim Silva diz que o segredo da boa convivência entre clientelas de ideologias políticas diferentes reside na mesma regra de ouro que costuma manter a paz nas reuniões de amigos em torno de uma mesa de bar. “Sempre evitei falar sobre futebol, religião e, obviamente, sobre política”, diz.

“Quando entra na barbearia, o político torna-se um cidadão como outro qualquer, que gosta de falar de amenidades, da família, dos amigos”, prossegue. “O segredo do trabalho do barbeiro é saber abrir a gaveta quando o cliente chega e imediatamente fechá-la quando ele sai”, garante.

Um despejo que não vai acabar com uma longa carreira

A proximidade com o poder, porém, não evitou que Joaquim Pinto tivesse o mesmo destino dos 31 outros estabelecimentos do Apolo 70, que foram obrigados a fechar as portas com o litígio judicial que opõe a administradora do condomínio e a proprietária do imóvel. O caso é confuso e a dona acusa a primeira de não liquidar as rendas pagas pelos lojistas desde 2014.

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Ele próprio revela: “O senhor professor Cavaco Silva ligou-me assim que soube do ocorrido, para prestar solidariedade.” A solidariedade do poderoso cliente não bastou para reverter a situação e o barbeiro teve que contar com os próprios meios para não fechar de vez e voltar a funcionar, o mais breve possível.

E as gavetas da barbearia do senhor Pinto guardaram informações importantes. “Não vou mentir que algumas vezes ouvi em primeira mão o nome de pessoas que seriam nomeadas para o governo”, diz. “Nunca as revelei, entretanto, pois para mim o barbeiro-confidente é o que sabe ouvir muito e depois calar.”

Dois dias depois do despejo, o barbeiro já procurava por um novo sítio. Chegou a se interessar por uma sala na 5 de Outubro, mas não achou justas as condições do arrendamento. “Algumas pessoas tendem a se aproveitar quando nos veem em desespero”, avalia.

Um dos problemas na busca por um novo espaço é encontrar um que comporte, além do salão, o Museu da Barbearia, que funcionava num anexo no subsolo da Apolo 70. O espaço dedicado à memória da profissão, inaugurado em 2014, é fruto de anos de dedicação de Joaquim Pinto, que somou ao próprio acervo milhares de outros itens garimpados em antiquários e lojas de velharias.

O futuro do museu é um motivo a mais para a melancolia que tomou o barbeiro após o fecho das portas da Apolo 70. Até encontrar um lugar para abrigar as cerca de duas mil peças, o certo é que o mesmo esteja desativado por um tempo indeterminado.

Um prejuízo pago com as lágrimas

Uma semana após a notícia do despejo, Joaquim Pinto, assim como os demais comerciantes que tinham comércio na Apolo 70, foram autorizados a voltar ao centro comercial para retirarem os pertences. A decisão judicial prevê um prazo de 30 dias para a retirada, sob o risco de o material remanescente ser considerado “abandono”.

O barbeiro em frente ao centro comercial com os objetos da barbearia e do museu em sacos e caixas, expostos em via pública.

Na companhia da esposa e de alguns funcionários, Joaquim Pinto passou cinco horas no interior da Apolo 70. Os outros comerciantes que testemunharam o ocorrido na parte interna do centro comercial, relataram que o barbeiro por diversas vezes interrompeu a recolha, impedido pelo pranto.

No passeio em frente ao edifício, ao lado da esposa Aurora, Joaquim Pinto não escondia o constrangimento em ver uma parte importante de sua vida acomodada em sacos e caixas, exposta em via pública. “Nunca pensei em viver uma situação desta”, resume.

Agora, somos nós que pagaremos por isso. Pagaremos com dinheiro e com lágrimas.”

“Lamento profundamente o que aconteceu”, desabafa Joaquim Pinto, novamente diante da porta do Apolo 70, o cadeado a encerrar sonhos e revolta, no único momento da entrevista em que se permitiu falar sobre o assunto, ainda assim, com a fala entrecortada por breves pausas para recuperar o fôlego e evitar a comoção.

“A proprietária do imóvel tem toda razão em cobrar o que lhe devem, mas não é justo os lojistas que sempre pagaram as rendas serem os prejudicados, enquanto quem nos desgraçou a vida anda na rua, tranquilamente. Agora, somos nós que pagaremos por isso. Pagaremos com dinheiro e com lágrimas.” Como convém a uma lenda.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Boa crónica, de uma episódio triste, mas humano, muito humano.

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