Ao contrário do meu pai, que – apesar de nunca ter tido um acidente – era capaz de ir de Lisboa a Sintra quase sem mexer na caixa de velocidades, a minha mãe foi sempre uma condutora exímia.

Coisa invulgar na época, tirou a carta ainda antes de eu nascer, grávida do meu irmão – e, segundo dizia, com a barriga a bater no volante e as pernas inchadíssimas; mas não foi por pena daquela futura mãe a rebentar pelas costuras (o bebé nasceu com quase 4 kg!) que o examinador a passou sem hesitações, pois ela tinha um jeitão para guiar fosse que carro fosse e até se vangloriava de, no seu tempo, ter passado à primeira apenas com as dez lições obrigatórias.

Claro que, na Lisboa dos anos cinquenta, o trânsito era menos denso, o que tornaria o exame menos exigente; e, ao que parece, no que tocava ao Código da Estrada, as perguntas faziam-se já dentro do automóvel, apenas uns minutinhos antes de se dar à chave e arrancar, com a ajuda de uns cartões que lembravam os do Bingo (mas com sinais de trânsito em vez de números), o que, pensando bem, dava um ar de jogo a uma prova que, muitos anos mais tarde, numa sala com meia centena de candidatos sentados em carteiras como na escola, me pareceu a mim coisa mais séria.

Nem vale a pena dizer que saí ao pai na tarefa de levar um automóvel de um lugar para outro (um nadinha mais compenetrada, mas sem grande sentido de orientação e sem retirar prazer da condução). Por isso, sempre invejei a souplesse com que a minha mãe parecia deslizar pelas ruas alfacinhas e – mesmo antes de se inventar a direcção assistida – estacionava num espaço apertadíssimo entre dois carros, o que até lhe valeu certa vez uma entusiástica salva de palmas de uns marialvas que não arredavam pé enquanto ela não terminasse a manobra, mortinhos por vê-la bater à frente ou atrás. Em vão. Acabaram por render-se ao seu talento inato e aplaudir a proeza.

Porém, mesmo os melhores automobilistas têm de vez em quando um dia não… E, numa tarde de Verão demasiado quente, uma aceleradela mal medida provocou uma situação que bem podia ter redundado em colisão. Ora, o condutor da carrinha pão-de-forma que se vira obrigado a travar a fundo, mal viu que quem vinha ao volante do Cortina era uma senhora, atirou estas frases em tom irritado pela janela aberta:

– Eu vi logo! Eu nem percebo porque é que os maridos as deixam tirar a carta… É que o lugar das senhoras é em casa, e não ao volante de um carro. E era em casa que a senhora devia estar agora mesmo, a cozinhar e a coser meias!

A resposta, porém, não tardou:

– Não preciso. É a sua mulher quem me faz esses serviços.

E, sem temer represálias, meteu a primeira, desviou-se da carrinha parada no meio do cruzamento (e do condutor aparvalhado) e seguiu por ali fora com a desenvoltura habitual.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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