Cristiano, meu amor,

O mundo fala da tua marquise, mas eu só tenho olhos para ti. Agora que te instalaste, é tão bom saber que posso ir da minha casa à tua a pé. Até me imagino a passar com o parque ao lado: eu no chão e tu no topo.

Cá em baixo, sou uma igual aos outros. Tu ficas no teu último andar, lá de cima, como um deus, e nós bebemos da lassidão dos dias, vamos à bica do café, como é costume, com a noção estratosférica de agora sermos teus vizinhos.

As notícias perseguem-te como os tropeteiros no Verão, os paparazzi têm fantasias sexuais contigo, e tu lá apareces nas fotografias, no sushi mais caro de Lisboa, no teu hotel, numa fotografia em tronco nu e Tejo atrás, mas nunca ninguém te viu a andar na rua. Parece que os teus pés de ouro não são para estar no chão.

Tu és de outra estirpe. Pisas a relva à réptil, és um tiranossauro de torso erguido, maior do que o maior argentinossauro do mundo, chegas ao céu como um tirano, manténs os pés no chão como um mortal. Basta respirar para te amar até ao fim.

Ronaldo, meu Brad Pitt com quadríceps, quero dizer-te que te uso para ter o cérebro a andar. Penso em ti quando uma frase parece sair-me ao lado. Penso em ti quando a preguiça de ler dá meio passo. Penso em ti quando sinto culpa por não estar a trabalhar. Nunca ninguém te disse isto: eu penso em ti quando a sintaxe enguiça. E googlo “Ronaldo body” quando preciso de saber que há beleza sem ferrugem. Vejo o teu perfil de estátua enquanto sonho pôr-lhe a mão. Não percebo se és homem, máquina ou animal e suspiro por ti como um humano.

A quantidade de vezes que te vejo no Youtube faz-me achar que, no fundo, talvez devesses lançar-me uma providência cautelar, mas os teus quadríceps em calções curtos ensinam-me a ser mais e melhor. E eu não tenho culpa disso, sou vítima da verdade: há 1 milhão e 9 mil e 436 pernas em Lisboa, mas nenhum par é tão bonito quanto o teu. Ficas tão belo de boxers.

Para ti, é mais fácil fintar dez do que para mim comer mirtilos. Camarões mortos no meu prato estão tão indefesos quanto os centrais à tua frente. Tu com os pés ganhas uma batalha de rap ao Eminem. Danças melhor com uma bola do que o Michael Jackson sem ela. Metes as chuteiras e és mais mágico do que o Harry Potter, wingardium leviosa para a bola, avada kedavra para os rivais. E é por isso que, sempre que falam de inspiração para escrever, penso em ti adolescente a atar halteres aos tornozelos: concreto, duro, sério, real como a vida.

Ronaldo, meu amor, somos exactamente iguais, o que nos distingue é a cabeça. A minha tem mais cabelo, a tua marca mais golos.

Einstein da bola, Mozart do esférico, Pamela Anderson da relva, foguetão das redes, há quem não goste de ti e eu entendo, porque nem toda a gente tem bom gosto. Eu leio na Internet que almoças duas vezes por dia e, no meio de tanto almoço, pergunto-me como é que nenhum é comigo. Podíamos ir a um peixe grelhado com espargos. Eu levo a minha melhor camisa, tu podes ir de tronco nu.

E até te dou boleia. Esquece o Lamborghini, o Ferrari, o Porsche, o Fiat Uno, e deixa-me cantar-te um Zambujinho, ipsis verbis como ele inventou para ti:

Vem dar uma voltinha na minha lambreta
E deixa-me levar-te até Vizela

Aqui ou lá, seríamos felizes os dois. Como posso eu não amar-te, se és bíceps que são força, cabeça que é corpo musculado – ou corpo de estátua de David que é cabeça? Dizem que já não há números para descrever Ronaldo e os pobres escritores enfileiram-se querendo frases dignas dos teus pés metidos em chuteiras.

Pois é, meu amor. Lisboa está tão feliz por te ter cá, por teres uma marquise como nós – deus igual aos seus humanos. Endividamo-nos à séria para morar aqui e tu pagaste sete milhões por uma casa, quando a casa é que te devia pagar para te ter lá.

Quem nos dera que fôssemos vizinhos. Que ficasses no teu apartamento a olhar para o Tejo. Que treinasses em Alcochete, de leão ao peito, sendo o rei da relva. Que perdesses à rasca um jogo em casa. Que fosses a Vizela e levasses uma abada. É que a minha equipa és tu, mas o meu clube é outro.

Farias então 359 quilómetros, irritado por teres perdido o jogo, e eu iria esperar por ti para um consolo. Vestiria a minha melhor camisa só para te ver chegar – e tu tão deus, com o fato de treino do Sporting. Daríamos um passeio a pé pelo Campo Grande e iríamos parar para uma salada na esplanada do McDonald’s. De um lado, o cheiro a batatas fritas; do outro, o trânsito infernal da capital de Portugal. E dentro de nós apenas romantismo. E, assim, pelo menos um dia, ias ser lisboeta como nós e esta terra cheia de colinas ia ser o Monte Olimpo.

Ronaldo, vem fazer de Lisboa o Monte Olimpo.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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4 Comentários

  1. Ana Bárbara Pedrosa:
    Vou ter de pensar muito no seu ídolo para encontrar as palavras certas para o quanto gostei desta crónica! A sua franqueza quase que chega ao porno… cuidado com os puritanos que estão a nascer como cogumelos. Também não admira: é na podridão que eles se dão…
    Mas voltemos à sua paixão assolapada, quase tanto como os ódios que ele provoca…
    Sabe? Isto é assunto religioso: há os Cristianos e os Infiéis.
    Temos de mandar vir os cruzados, de novo…
    Grande abraço de parabéns. Apaixonei-me pela sua escrita!!!

  2. Excelente crónica !!!
    Transcrevo o meu comentário sobre a dita “marquise”, já feito há três semanas, também neste jornal:
    “Na mitologia grega, os deuses do Olimpo eram assim chamados por viverem no alto do Monte Olimpo, Então, deixemos o nosso “Deus” e a sua Afrodite, do alto da sua montanha, desfrutar a sua marquise, pergula ou o nome que queiram chamar, para melhor poderem sentir a sua grandeza e a nossa pequenez. “

  3. Adorei a crónica… fez-me rir e fez-me trabalhar a imaginação com alguma leviandade e leveza!

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