Ao cair da noite, com a luz da lua crescente a acentuar as silhuetas das copas das grandes árvores do Jardim Botânico de Lisboa, o cenário parece quase surreal, ali junto à movimentada Rua da Escola Politécnica, no cimo do monte Olivete.

Assim que se abre o portão do jardim, é convocado o despertar dos sentidos – a audição e o olfato, acima de todos, pois são os aromas das árvores e plantas, o perfume das flores e o pontual chilrear dos pássaros residentes que irão embalar a Visita Noturna que o Jardim Botânico de Lisboa passa a oferecer de forma inédita quinzenalmente – até 28 de junho (17 e 31 de maio e 14 e 28 de junho) – a grupos de no mínimo 5 pessoas, mediante inscrição prévia e com o cumprimentos de todas as atuais regras da DGS (uso de máscara e distanciamento físico).

São os melros os primeiros a saudar os visitantes, saltando entre os galhos das árvores e mesmo atrevendo-se a aproximar-se das alamedas. São os diminutos morcegos-anão que volteiam contra o céu ainda azulado.

«Há 27 espécies de morcegos no país, sendo que 9 estão em perigo de extinção, o que é preocupante pois têm uma função ecológica muito importante porque se alimentam de insetos. Se não fossem os morcegos, a vida seria impossível com a proliferação dos insetos no planeta!», explica Raquel Barata coordenadora do Núcleo Educativo e de Exposições do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa.

O verde no meio da cidade

«A ideia desta visita noturna é trazer as pessoas para um ambiente de campo no meio da cidade, aguçando os sentidos e a atenção dos visitantes e, com sorte, avistando alguns dos habitantes do jardim, como os gaios, as pequeninas carriças, as trepadeiras, os pintassilgos…», enumera Raquel Barata dizendo que estas aves são da ordem passeriformes, a mais numerosa da classe das aves.

A penumbra cai sobre os quatro hectares de área verde que inicialmente pertenceu ao Colégio Jesuíta da Cotovia, nos séculos XVII e XVIII, depois ao Real Colégio dos Nobres (numa iniciativa do primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, então Conde de Oeiras e depois Marquês de Pombal, em 1776) e à Escola Politécnica, ali instalada a partir de 1873. O Jardim Botânico viria a ser classificado como Monumento Nacional, em 2010.

Foi sob a liderança do 4.º Conde de Ficalho, o botânico e literato Francisco Manuel de Mello Breyner,  e de Andrade Corvo, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal na década de 1870, que teve início a plantação do Jardim Botânico de Lisboa e contam-se mais de 1.500 espécies diferentes provenientes dos quatro cantos do mundo, num trabalho incansável do jardineiro-paisagista alemão Edmund Goeze, do seu sucessor, o botânico francês Jules Daveau, responsável pelo “Arboreto”, as árvores de grande porte, e também do jardineiro-chefe Henri Cayeux, responsável pelo embelezamento do jardim em 1892, com a introdução e criação de plantas ornamentais como a rara Bella Portuguesa, um híbrido da Rosa gigantea Collett ex Crep., uma trepadeira vigorosa e resistente de grande porte, com flores cor de rosa pálido e salmão com um ligeiro perfume a chá e diâmetro de até 15 centímetros.

Já o mais icónico exemplar do Jardim Botânico de Lisboa é o enorme Dragoeiro ou árvore-dragão (Dracaena draco L.,) árvore endêmica da Madeira, Canárias e Cabo Verde, cuja origem remete à mitologia grega – segundo uma das versões do mito ‘Os Doze Trabalhos de Hércules’, o dragoeiro teria nascido do sangue derramado por Ládon, o dragão de cem cabeças que vigiava a entrada do Jardim das Hespérides, onde se encontravam as maçãs de ouro, e este jardim era situado pelos antigos no atual arquipélago das Canárias.

A outra característica fantástica do dragoeiro é a particularidade de a seiva oxidar por exposição ao ar e formar uma resina vermelha que tem por nome sangue-de-dragão (uma cor inesperada num vegetal) que foi no passado comercializado na Europa como corante e com fins medicinais a preços bastante elevados.

Espécies temperadas e tropicais

Aproveitando o declive do terreno, os botânicos e jardineiros oficiais Edmund Goeze e Jules Daveau distribuíram as espécies de árvores de acordo com suas características originais – as oriundas de climas secos e quentes foram plantadas no cimo do monte e as espécies sub-tropicais, que necessitam de mais água, foram colocadas no fundo do vale, criando assim um microclima que sustenta até hoje esta diversidade de espécies em conjunto, especialmente as espécies tropicais originárias da Nova Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul.

No primeiro declive, num canteiro rodeado por pedras sobressai, exuberante pelo seu perfume, um arbusto do gênero Datura com porte arbóreo. «A flor está virada para baixo, como um sino, e tem uma razão específica para ser assim – é para atrair os morcegos que ali vão sugar o néctar e carregam no seu pelo o pólen», explica Raquel Barata.

Mais adiante estão alinhados os castanheiros-da-índia, que não são castanheiros e não são da Índia, mas sim uma árvore frondosa de folha caduca originária do leste da Europa, e muito comum nas avenidas de algumas capitais europeias como Paris, Praga e Lisboa. As castanhas têm propriedades inseticidas, pois afastam as traças, sendo também usadas pelas aves para proteger os seus ninhos.

Um enorme tronco caído recorda a grande tempestade de há sete anos – um exemplar de Metrosideros excelsa, árvore ornamental de grande porte, original da Nova Zelândia – e permanece como uma escultura natural que se destaca, apesar de ter como vizinha a maior árvore do jardim – um ciprestre do México, cujo tronco pode atingir 14 metros. Há ainda exemplares de Ácer do Canadá, uma sequoia com 100 anos, uma saponária e até uma árvore australiana, Bunia-bunia, com suas pinhas que chegam a pesar 10 quilos cada uma.

O arvoredo contra o céu noturno e pirilampos nas alamedas

«A magia de visitar o jardim à noite é poder ver as copas das diversas espécies de árvores de grande porte em contraste com o céu e também as diferentes espécies de palmeiras que pontuam todo o jardim», diz Raquel Barata conduzindo o caminho para o túnel dos bambus.

«O bambu na verdade é um cereal e chega a atingir 100 anos de vida. Reproduz-se apenas uma vez, através de uma flor cujo pólen se dissemina para longe, criando assim uma diversidade da espécie. Por exemplo, se uma floresta de bambu florescer inteira ao mesmo tempo é uma clara indicação da sua morte e os pandas, que consomem bambu como principal alimento, são os primeiros a mudar de floresta».

É a meio deste percurso que a magia subitamente acontece quando dezenas de pirilampos brilham por todos os lados do caminho. «Os pirilampos são um dos sinais da saúde e biodiversidade do jardim. Os líquenes e musgos são outros indicadores do baixo nível de poluição, mesmo sendo o jardim implantado no meio de cidade», diz Raquel Barata, destacando que o Jardim Botânico de Lisboa é uma bolha de biodiversidade, um ‘hot spot’ na capital portuguesa, que guarda coleções de plantas em vias de extinção e um banco de sementes representativa de 25% da flora silvestre do país e sementes do próprio jardim também, cujo primeiro catálogo foi publicado em 1878.

Exemplo disto é um exemplar de um pinheiro – Pinus torreyana – em vias de extinção, mas que aqui apresenta uma exuberância sem igual. Ou uma árvore Ginko biloba macho cujo pólen é disseminado pelo vento, um recurso de proliferação que data do tempo dos dinossauros, quando não existiam flores porque não havia insetos.

As cicadáceas são outro ex-líbris do Jardim, autênticos fósseis vivos, representantes de floras antigas que, hoje, são de grande raridade, com certas espécies encontradas apenas em jardins botânicos. A mais emblemática, porém, é a Árvore-do-Imperador que, segundo consta, foi oferecida pelo Imperador Pedro II do Brasil ao Conde de Ficalho, sendo que só há seis exemplares vivos em jardins botânicos no mundo.

A terminar a visita, uma homenagem faz-se presente junto à escadaria que liga as duas zonas do Arboreto – um busto de Bernardino António Gomes, médico, cientista, químico e botânico, que isolou a cinchonina da árvore da quina, desenvolvendo-se daí o quinino para tratamento da malária.

Inscrição prévia aqui

Magical Garden – Jardim Botânico Tropical em Belém

Milhares de lâmpadas LED, mais de 300 lanternas, hologramas e esculturas de luz compõem o espetáculo interativo ‘Magical Garden’, criado pelo atelier português OCUBO e patente nas noites de quintas e sextas-feira, com entrada às 21h00 e 21h30, até 3 de junho, no Jardim Botânico Tropical, em Belém, nomeado monumento nacional em 2007. Num percurso de cerca de 1 quilómetro, viaja-se pelo mundo num trajeto que destaca as espécies botânicas do jardim e os ambientes tropicais longínquos como o do Egito, da Índia, da China, do Japão e das florestas de clima quente, além de ambientes temáticos com as imagens de dinossauros e animais selvagens. A completar esta experiência imersiva há também um espetáculo de videomapping projetado na fachada do Palácio dos Condes da Calheta, a mostrar as espécies do herbário. Reserva de bilheteshttps://www.magicalgarden.pt/

Festival Jardins Abertos 2021

O Festival Jardins Abertos anuncia a sua 7.ª edição em Lisboa com visitas livres a jardins públicos e privados da cidade, visitas guiadas, percursos orientados, oficinas para famílias, exposições, conversas e também visitas virtuais ao longo de dois fins de semana consecutivos, nos dias 22/23 e 29/30 de maio. Este ano, haverá ainda uma visita especial a dois jardins secretos que vão ser abertos pela primeira vez no contexto do festival. Misteriosas e envoltas em secretismo, as visitas a estes jardins funcionarão com inscrição prévia e as suas localizações serão relevadas apenas horas antes da visita. Depois do sucesso em 2020, a iniciativa Varandas Verdes regressa para transformar as fachadas de prédios da cidade de Lisboa em verdadeiros jardins nas quatro manhãs do festival. Está aberto um open call para comunidades de vizinhos que partilhem entre si o interesse pela jardinagem e que queiram florir as suas varandas de forma totalmente gratuita, graças ao apoio da Planta Livre. Desde 2017, o Festival Jardins Abertos vem oferecendo um número cada vez maior de jardins privados e públicos a visitar na sua programação, atraindo assim um número exponencial de público, graças à colaboração entre profissionais da jardinagem, paisagismo, cultura e sustentabilidade e também ao apoio da Câmara Municipal de Lisboa e ao Alto Patrocínio da Presidência da República. Em contexto de pandemia Covid-19, o modelo de visita dos jardins e de participação nas atividades irão respeitar todas as normas e orientações da Direção-Geral de Saúde, em vigor à data da realização do festival.  Programação: https://www.jardinsabertos.com/


*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos- CCOceanos – série de palestras a abordar temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.

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2 Comentários

  1. Nysse Arruda : mais uma reportagem que encanta, pela sensibilidade da sua alma. Marisa Cardoso, parabéns também! Fico extremamente feliz ao ler, finalmente, algo que toca os sentidos, com arte, conhecimento e amor.

  2. Bela reportagem! Parabéns por divulgar uma iniciativa inédita como as visistas noturnas ao Jardim Botânico de Lisboa e também indicar outras opções de passeios ‘verdes’. Lisboa merece ser conhecida nestes espaços de luz e cor.

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