Os sons dos motores e das buzinas da Avenida de Berna são abafados à medida que entramos no pequeno coração verde desta zona da cidade, o jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. O ruído citadino dá lugar ao som do vento atravessando as folhagens e as copas altas das árvores, o chilrear dos pássaros mistura-se com o grasnar dos patos, as gargalhadas das crianças com as vozes dos adultos que aqui param para descansar, estar a sós ou conviver. O que muitos não sabem é que alguns dos espaços que diariamente são lugares de encontro ou de passeio são também teto de construções subterrâneas, como o parque de estacionamento.

Ao todo, cerca de um terço da área do jardim da Gulbenkian é, no fundo, cobertura verde – como agora se chama. Não é preciso estar alto. Aqui, está ao nível do chão. A da Gulbenkian foi a primeira a surgir em Portugal, na década de 1960. Mas seguiram-se outras como a cobertura na ETAR de Alcântara e o Jardim das Oliveiras no Centro Cultural de Belém. São de vários tipos, mas podem definir-se de forma geral como vegetação artificialmente instalada sobre um edifício, como alternativa aos telhados tradicionais.

Com o agudizar das alterações climáticas, cujos efeitos se acentuam em grandes cidades como Lisboa, através da formação de ilhas de calor, do aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera, do decréscimo da biodiversidade e fenómenos de precipitação extrema, bem como o aumento populacional, as coberturas verdes aparecem como uma possibilidade de um aproveitamento mais sustentável dos prédios. E são um contributo para a resiliência urbana.

Paulo Palha, Presidente da Associação Nacional de Coberturas Verdes. Foto: DR

“A cobertura verde não substitui nunca o parque e o jardim de proximidade, mas existindo edifícios, existem coberturas e podem ser verdes”

Paulo Palha

“A cobertura verde não substitui nunca o parque e o jardim de proximidade, mas existindo edifícios, existem coberturas e podem ser verdes”, diz Paulo Palha, engenheiro agrónomo, Presidente da Associação Nacional de Coberturas Verdes e CEO da empresa Neoturf.

Lisboetas propõem tetos verdes no Orçamento Participativo

Este ano, o aumento do número de propostas apresentadas ao Orçamento Participativo para instalação de coberturas verdes em edifícios da cidade é sintoma de uma maior preocupação com um urbanismo sustentável.

Das cinco apresentadas, uma foi aprovada para ir a votação: a #150, que propunha que todos os novos edifícios e edifícios renovados em Lisboa (incluindo mobiliário urbano apropriado, como paragens de autocarro) passem a ter uma cobertura verde. A proposta que passou à segunda fase do OP foi feita por Rui Martins, um dos organizadores da Associação do Grupo de Vizinhos no Facebook. É a proposta #150 “Telhados Verdes que, segundo o próprio, “visava intervir em edifícios públicos e privados tendo como objectivos a redução das facturas de energia eléctrica, a diminuição das emissões de gases de efeito de estufa e um incremento geral da qualidade de vida das comunidades locais”.

O proponente explica que a proposta defende “na construção nova ou renovada por particulares, a alteração dos códigos municipais por forma a que estes edifícios tenham sempre coberturas (“telhados”) verdes. De igual forma, e com ainda maior abrangência, defende que sobre outras estruturas de mobiliário urbano (tais como paragens de autocarro, quiosques, postes de iluminação, etc) sejam construídos pequenos jardins com plantas de baixa manutenção e consumo de água”.

E não se fica por aqui. Pretende também que haja um plano de instalação deste tipo de telhados em edifícios que são património do município. “Especialmente nestes últimos que sejam colocados sistemas de geração de energias alternativas (painéis fotovoltaicos, painéis térmicos e aerogeradores) que aumentem a autonomia energética dos edifícios e que, juntamente com sistemas de captação de águas pluviais possam autonomizar a manutenção destas áreas verdes, manter pequenas hortas mantidas por habitantes ou trabalhadores dessas construções com os benefícios na redução de stress e da preservação de espécies (pássaros silvestres e abelhas), criando pequenos ecosistemas que além da contribuição visual para a riqueza da cidade, para a autonomia energética e alimentar, serão também pequenos centros de lazer e locais activos de combate às “vagas de calor” que, todos os anos, causam a morte a centenas de lisboetas”, explica Rui.

O autor da proposta lembra que a última grande vaga de calor foi em 2018 e provocou a morte a mais de 1500 portugueses. E que os “telhados verdes” serão, “de facto, barreiras térmicas para os habitantes e trabalhadores (que assim não terão que depender tanto do ar condicionado) e reduzirão significativamente a temperatura dos bairros em que se encontrarem inseridos”.

Mais 2 milhões de metros de verde na cidade

Já em 2016, um estudo tentou avaliar quais os ganhos potenciais de área verde da cidade se fosse um hábito fazer coberturas verdes. Usando dados de sensoriamento remoto, investigadores do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa (CICS NOVA) e do Centro Interdisciplinar de Pesquisas Marinhas e Ambientais (CIIMAR), evidenciaram que Lisboa ganharia 2.184.291 m 2 de área verde total.

Cobertura vegetal atual ao nível do solo e vegetação potencial nos telhados considerando o cenário Telhado Verde Plano e Inclinado e Sombreado a Ensolarado, a partir do estudo mencionado

Isto considerando apenas o “Cenário de Telhado Verde Plano”, ou seja, telhados que existem sem telhas vermelhas, com área disponível igual ou maior que 100 m2 e inclinação menor ou igual a 11°.

Mais hortas, menos picos de calor

Para os habitantes de um edifício com cobertura verde somam-se vantagens:

  • menor dispêndio de energia
  • menos ruído
  • ganho de um espaço para relaxar
  • usufruir, dependendo do tipo de cobertura, de um espaço para cultivo ou apicultura.

Mas nem todos os edifícios podem receber coberturas verdes e em certos casos a sua aplicação é complexa. “A temperatura e a humidade relativa, bem combinadas, geram uma sensação de conforto térmico impecável. As coberturas verdes são uma variável determinante para este conforto térmico. Aumentam a humidade relativa e diminuem a temperatura”, explica José António Tenedório, um dos autores do referido estudo.

Outros benefícios que advêm das coberturas verdes são a promoção da biodiversidade, a mitigação dos efeitos do calor em zonas mais sensíveis e, sublinha Paulo Palha, a capacidade de retenção de águas pluviais. “Em Lisboa, com os problemas de picos de precipitação que provocam inundações, quando tivermos uma escala interessante de coberturas verdes vamos ter muita água retida”, aponta. 

Nem todos os edifícios estão aptos a receber coberturas verdes. Cada um terá de ser analisado por especialistas para avaliar a pertinência geográfica (em função, por exemplo, do número de horas de sol), a capacidade de carga e a forma de escoamento das águas. Ou seja, e como nota Paulo Palha, todas as coberturas verdes são diferentes: “os edifícios são diferentes, a zona climática, mesmo que na mesma cidade, também é diferente, o tipo de vegetação pode ser diverso e podemos querer diferentes usos da cobertura”.

Os exemplos que já existem em Lisboa

Paula Côrte-Real, arquiteta paisagista na Gulbekian. Foto: DR

O Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian é exemplo da diversidade de coberturas verdes, como já contámos numa reportagem, aqui. A cobertura da Galeria do Grande Auditório tem uma espessura de terra muito pequena onde só existe relva e algumas ervas. “Aí é simples de implementar: uma laje forte, mas não muito, ótima impermeabilização sempre, sistema de rega e altura suficiente para ter uma caixa de pavimento drenante com uma boa camada de brita, sarrisca, areia”, explica Paula Côrte-Real, arquiteta paisagista e responsável pelo Serviço Educativo do Jardim da Fundação.

Já na zona da entrada, que atravessamos em direção ao Edifício Sede, e cujo jardim está construído sobre o parque de estacionamento subterrâneo, o caso é diferente. Ali foi necessária uma laje bastante mais grossa e resistente para suportar mais peso. E as raízes das árvores que vemos estão agarradas a uma grelha metálica que permite que estas se mantenham estáveis e cresçam num lugar onde existe pouca terra e não podem crescer em profundidade.

A cobertura verde criada por Nuno Prates no Saldanha. Foto: D.R.

Há cerca de dois meses, contámos o exemplo de Nuno Prates, que plantou uma espécie de selva urbana e tropical no seu telhado, num apartamento junto do Saldanha. A plantação das espécies que pintam o topo do seu apartamento começou há 20 anos, ainda a discussão sobre coberturas verdes em Lisboa ia no adro. O jardineiro conta como construiu este jardim – e outros, no solo, que estão a ajudar a mudar as regras de criação de jardins pelos cidadãos na cidade.

O que já se faz lá fora 

As diversas possibilidades de uso das coberturas verdes, assim como os seus benefícios, têm sido explorados em diversas cidades do mundo e a sua promoção é, inclusive, um objetivo prioritário da União Europeia. A proposta recentemente aprovada para Lisboa refere coberturas que tenham equipamento de geração de energia, captação de águas pluviais e, à semelhança do que já se faz lá fora, roof top farming e apicultura.  

Copenhaga, na Dinamarca, e Toronto, no Canadá, foram as primeiras cidades no mundo a implementar legislação relacionada com coberturas verdes. Nesta última, a legislação resultou em 1.2 milhões de m 2 verdes e na poupança de energia de mais de 1.5 milhões de kWh por ano para os proprietários desses edifícios. 

Também em várias cidades da Suíça e em Beirute, no Líbano, as coberturas verdes são obrigatórias em todos os novos edifícios e na Cidade do México todas as pessoas que instalem coberturas verdes recebem benefícios fiscais na ordem dos 10%.

Uma cobeetura verde num arranha céus. Foto: Unsplash

Em Nova Iorque, nos Estados Unidos, também foram implementadas leis de incentivo através do abatimento de impostos, tendo aumentado em mais de 85 mil metros quadrados a área verde. Ou seja, 10% das novas construções da cidade.

E em 2019, em Utrecht, na Holanda, 316 paragens de autocarro passaram a ter coberturas verdes para proteger abelhas e outros insetos e melhorar a qualidade do ar – essa é uma das propostas apresentadas ao Orçamento Participativo, em Lisboa. Mais perto, em Barcelona, foi lançado, em 2020, o Segundo Concurso de Telhados Verdes para incentivar à sua implementação na cidade. 

Os telhados verdes em Barcelona. Foto: El Periódico

Em Paris, uma das mais importantes políticas camarárias diz respeito ao “verdejamento” da cidade. O Parisculteurs envolve uma série de projetos nos telhados dos prédios, particulares ou do Estado. A própria Hermés, marca de luxo, construiu um jardim no telhado da sua sede, e fez um perfume “Un Jardin sur le toits” a homenageá-lo e a dar conta da tendência.

O Jardim da Hermes, no telhado da sede. Foto: Hérmes

“Estejamos a falar de coberturas verdes, hortas urbanas ou jardins, onde há clorofila há melhor qualidade de vida”

José Tenedório

Em 2021, Lisboa junta-se à concretização de políticas públicas que promovem a instalação de coberturas verdes nos edifícios da cidade, em linha com os objetivos do plano Lisboa Capital Verde. “Do ponto de vista dos espaços públicos, Lisboa só tem a ganhar com o aumento da superfície verde. Independentemente de estarmos a falar de coberturas verdes, hortas urbanas, jardins ou alinhamentos arbóreos, onde há clorofila há melhor qualidade de vida”, diz José Tenedório. 

Um trabalho para as gerações futuras

Nem tudo são flores, no entanto. O próprio arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, que foi o autor do Plano Verde de Lisboa e do projeto do Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, que assinou com o arquiteto António Viana Barreto, demonstrava alguma apreensão em relação aos possíveis usos das coberturas verdes.

Além de os seus benefícios só serem visíveis a médio-longo prazo, devido aos elevados custos de instalação e de manutenção, é importante que sejam introduzidas nas cidades como um complemento e não como um substituto das zonas verdes clássicas no solo.

“É fundamental ter uma estrutura verde contínua em contacto com o solo. As coberturas verdes têm um papel muito específico e limitado e não substituem os espaços verdes no solo em contacto uns com os outros”, explica Paula Côrte-Real.

“Os objetivos de 2050 são construídos hoje”

Paula Côrte Real

Uma das limitações prende-se precisamente com a continuidade. O tipo de Corredores Verdes que foram aplicados na construção do Jardim da Fundação fica comprometido com a construção de coberturas verdes em altura. Quanto maior for a continuidade, maior a eficiência.

Assim, quando enquadradas num plano ecológico mais vasto dentro do Urbanismo Sustentável, as coberturas verdes podem ser um benéfico complemento e uma forma de reabilitar de forma mais eficiente o edificado. De resto, e tal como tudo o que respeita à sustentabilidade, o investimento é de longo prazo, estando a mira no futuro. “Os objetivos de 2050 são construídos hoje”, afirma Paulo Palha. É uma mão que se estende, sobretudo, às novas gerações.


*Rita Velez Madeira está a estagiar na Mensagem ao abrigo do protocolo com a Universidade Nova de Lisboa, FCSH, Ciências da Comunicação, no projeto Correspondente de Bairro. Nasceu em Évora, aprendeu a fazer casa nas viagens de comboio entre as duas cidades, com vontade de escutar e contar histórias, de viver nesse lugar de fronteira que há entre nós e o Outro. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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