Quando entrei naquele café de bairro, cheirou-me logo a polémica. De dentro do balcão, no meio de idas à cozinha, para pôr o fiambre ou o queijo nos croissants, o homem atirava bocas para um colega que servia às escassas mesas.

Este ria, com um esgar sardónico, enquanto se passeava pela sala, visivelmente com ar de quem estava do lado dos vencedores da partida de futebol da véspera, que estava a dar que falar. E cujo resultado não agradara ao clube do colega do balcão, que continuava a clamar: “Foi uma roubalheira!”. Da sala, o outro, impante, cavalgava o sucesso: “Então tu querias que fosse penalti!? Estais é mal habituados!”

A clientela sorria perante o pingue-pongue de argumentos, que era visível que o homem do balcão vivia com ardor e que o colega se limitava a encaixar com graçolas que, cada vez mais, irritavam o outro.

Entre senhoras apressadas e cavalheiros com vontade de despachar a meia de leite, o som ambiente mantinha-se no mesmo registo. Talvez alguns dos clientes tivessem opinião sobre o tema em discussão, mas ninguém dava ares de querer imiscuir-se.

Foi então que entrou o senhor engenheiro. De trás do balcão, menos sorridente do que era habitual, mas tão solícito como era de regra, o homem disse: “Bom dia, senhor engenheiro! O costume?”. E para o lado, para uma senhora de cabelo apanhado por um lenço: “Tira aí uma bica curta em chávena aquecida, aqui para o senhor engenheiro”. E, enquanto ia buscar o queque habitual à vitrina, acrescentou, acolhedor: “Tem ali o Correio da Manhã, se quiser, senhor engenheiro!”, disse, apontando para o extremo do balcão.

O senhor engenheiro estava com pressa. Resistiu à oferta de leitura erudita. Mas não resistiu à conversa cruzada. Enquanto escorropichava a bica, saiu-lhe: “Aquilo ontem, vendo bem, não foi penalti!”.

O de dentro do balcão, feita súbita trincheira, urrou: “Não foi penalti?! Essa agora! Foi um roubo, uma vigarice, uma falta descarada, que ficou por marcar! O que querem é dar o campeonato àqueles tipos! Isto é tudo mas é um bando de gatunos!”

O senhor engenheiro não pareceu ter apreciado demasiado a reação exaltada que, agora, lhe era dedicada. O empregado da sala, deliciado, explorava, cada vez mais irónico, o apoio (“Estou farto de lhe dizer, mas ele não aprende!”).

Com a cara fechada, o senhor engenheiro limpava já as migalhas do queque no casaco quando, imprudente, adiantou, salomónico, para fechar a conversa: “Cada um olha as coisas como lhe parece. Para mim, não foi penalti! Bom dia!” e, moedas postas sobre o balcão, foi saindo.

Foi então que ouviu, já a sair da porta, gritado, bem alto, de trás da trincheira, com a ousadia da raiva: “Ó senhor engenheiro, vá mas é ao oculista!”

Terá regressado àquele café, o senhor engenheiro?

O homem do balcão pode ter perdido o jogo, pode mesmo ter perdido um cliente, mas não perdeu a oportunidade de deixar bem claro que as hierarquias sociais não existem para o que se passa dentro das quatro linhas. Porque, no futebol, somos todos iguais.


Francisco Seixas da Costa

Nasceu em Vila Real, em 1948. Aos sete anos, veio a Lisboa, de Foguete. Viu a seleção perder no Jamor contra a Suécia. Em 1968, mudou-se para cá. Depois, por quatro décadas, flanou diplomaticamente entre oito países. Em 2013, aposentou-se. Mais ou menos.

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1 Comentário

  1. Felizmente nunca assisti a discussões deste tipo mas acho graça. Se calhar se estivesse no “teatro das operações” escondia-me debaixo de uma mesa a tremer como varas verdes

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