O rinoceronte já muito desgastado, da Torre de Belém. Foto: D.R.

Há um em Cracóvia, ou melhor dois, ou mesmo três. Em pleno centro histórico da cidade, que por lá chamam Stare Miasto, surgem dois rinocerontes, mais o seu inimigo lendário, o elefante, em baixos-relevos na frontaria de uma casa na Rua Grodzka. Mas, quem reparar melhor, notará que na mesma casa há um outro rinoceronte, um terceiro exemplar, ademais não idêntico, mas agora na fachada que dá para a Rua Poselska (facto tanto mais singular quanto, não longe dali, existe um rinoceronte antiquíssimo, mas este de verdadeiro, de pele e osso, no Museu de História Natural).

A casa que faz esquina entre o 38 da Rua Grodzka e o 19 da Rua Poselska chama-se Kamienica Pod Elefanty, por lá ter existido, no século XVII, uma farmácia denominada «Elefante de Ouro», propriedade de um italiano, Bonifacy Cantelli. Mais tarde, o edifício foi alvo de várias remodelações e, em 1850, vítima de um grande incêndio, mas a decoração exterior – o elefante e os rinocerontes – conserva-se até aos nossos dias, como é fácil constatar ao viajante que passe pela Cidade Velha de Cracóvia. 

A casa, ao que parece, remonta ao século XV, mas, como é evidente, os rinocerontes e o elefante da fachada não podem estar lá desde essa altura; talvez sejam do século XVI (ou do XVII), pois só então os paquidermes indianos fizeram a sua aparição na Europa, entrando pelo Tejo adentro e desaguando depois numa famosa xilogravura de Albrecht Dürer em que os baixos-relevos cracovianos claramente se inspiram.

Depois, os rinocerontes viajaram até ao Novo Mundo e, como nos informa o informado Juan Pimentel (El Rinoceronte y el Megatério. Un ensayo de morfología histórica, Editorial Abada, 2020), o primeiro exemplar aí avistado encontra-se na Colômbia. Mais precisamente, em Tunja, província de Boyacá, na casa-museu de Juan de Vargas, que chegou ao país em 1564, na companhia de seu pai, don Diego de Vargas, cavaleiro espanhol e capitán de la conquista.

Juan foi notário de el-rei de Espanha, de 1585 até à morte, em 1620, e a casa que edificou em Tunja é uma belíssima moradia colonial em estilo mudéjar, com pátio sevilhano para gozar o fresco. Tem um tecto deslumbrante, pintado em 1590, à maneira maneirista, e aí emerge a figuração de um rinoceronte que é extraída, sem sombra de dúvidas, da xilogravura famosa de Albrecht Dürer – ou das muitas cópias feitas por outros e até das várias edições piratas que se fizeram na altura, por volta de 1515 em diante.

Mas, como se não bastasse, em Tunja há um outro rinoceronte vindo das Índias. Talvez até mais antigo do que o da casa de Juan de Vargas, o bicho surge na Casa de Gonzalo Suárez Rendón, também chamada «Casa del Fundador», pois em 1539 Rendón foi o fundador da província de Boyacá, e daí aquele pomposo nome.  A moradia foi erguida entre 1540 e 1570, sendo, portanto, mais antiga (ou, pelo menos, contemporânea) da casa de Juan de Vargas. Nela há também tectos pintados e, num desses tectos, encontra-se um rinoceronte, a espreitar para nós, ainda que mais tosco – e menos Dürer, digamos – do que o da mansão do escrivão Juan de Vargas.

Em qualquer caso, é espantoso que, no espaço de poucas décadas, apareçam rinocerontes vindos do Oriente em lugares tão diversos como a Polónia e a Colômbia, a mais de 10 mil quilómetros de distância um do outro – e com um Atlântico de permeio, fazendo lembrar o belíssimo poema da Meireles, Cecília:

Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,

senti a tua mão na minha;

Agora, tendo a tua mão na minha,

sinto entre nós dois o Atlântico.

Simplesmente, aquilo que pode parecer um oceano de afastamento, capaz de apartar na distância a Polónia de Cracóvia e a Tunja colombiana, é também, singularmente, um poderoso ou portentoso traço de união, para usar a expressão de Torga.

Se temos rinocerontes indianos na Polónia e na Colômbia, tal deve-se, sem réstia de dúvida e possibilidade de sofisma, ao Atlântico imenso, que se fez estrada naval entre o norte da Europa e o trópico, com Lisboa pelo meio. E é aqui, em Lisboa, em Belém, a bordejar a fortaleza-torre, que existe a primeira representação escultória de um rinoceronte feita na Europa. Por isso, no dia em que estiverdes perto da Torre, tentai avistar o bicho recortado na pedra, já que nele há muito, muitíssimo, da História deste Mundo que é o nosso, por inteiro.   

Menos falado, coitado, é outro rinoceronte em terras lusas. Surgiu pouco depois, no Mosteiro de Alcobaça, numa gárgula situada no canto Norte-Poente do Sobreclaustro do Silêncio, edificado por ordem de D. Manuel no início do século XVI. Causa espanto que esta escultura não seja mencionada na obra de referência de T. H. Clarke sobre os rinocerontes na arte ocidental (cf. The Rhinoceros from Dürer to Stubbs1515-1799, Sothebys, 1986). Como causa espanto – e é muito intrigante – outro facto misterioso: o rinoceronte entrou no estuário do Tejo, trazido na nau Nossa Senhora da Ajuda, em 20 e Maio de 1515.

O rinocertonte do Mosteiro de Alcobaça. Foto: Malomil

Valentim Fernandes (Morávia, c. 1450-Lisboa, 1518 ou 1519), também conhecido como Valentim Fernandes Alemão ou Valentim Fernandes da Morávia, impressor e tradutor germânico residente em Lisboa, terá enviado a Dürer uma descrição do animal. Foi a partir dessa descrição e de um desenho enviado de Lisboa para Nuremberga, de um remetente desconhecido, que Dürer fez a sua gravura celebérrima, em que o rinoceronte parece estar envolto numa armadura ou couraça bélica, de resto muito parecida com outro desenho que o alemão fez pela mesma altura, c. 1515/16, de uma viseira de um capacete de prata destinado ao Imperador Maximiliano I (o desenho do capacete está hoje no Museu Albertina, em Viena, podendo ser consultado na Net, e as semelhanças com o dorso do rinoceronte são flagrantes).

Acontece, porém – e eis aqui o mistério –, que o desenho de Dürer não foi a primeira representação de um rinoceronte indiano (Rhinocerus unicornis) na Europa. A primazia, nesse campo paquidérmico, cabe ao médico e humanista florentino Giovanni Giacomo Penni, que escreveu um poema de louvor ao animal, em vinte e um versos de ottava rima, publicado em Roma em 13 de Julho de 1515. É um facto deveras intrigante.

O rinoceronte chegou a Lisboa em 20 de Maio e, pasme-se, a 13 de Julho já o diligente Penni não só tinha recebido a notícia da sua chegada, provavelmente com uma descrição do animal, como tinha escrito o poema e publicado um livro, Forma e natura e costumi de lo Rinocerothe.

Parece ser demasiado rápido, mesmo para os padrões internéticos do nosso tempo, quanto mais para os daquela época, mais lenta e pausada e, por isso, mais feliz. Diz-se que Penni terá sido informado da chegada do bicho por carta de um dos muitos mercadores de Florença que então residiam em Lisboa, mas, em qualquer caso, tudo parece ter-se processado com rapidez inaudita. Segundo T. H. Clarke, tal só atesta o interesse sensacional que a revelação daquela alimária couraçada e bizarra teve na Europa dos alvores do século XVI. De todo o modo, estranha-se. Mas não se duvida.

Como não se duvida que, ao contrário do que por vezes se diz, a representação de Dürer é particularmente fidedigna. Alguns vieram impugnar, criticando-o, o segundo corno existente no dorso do rinoceronte de Dürer, dizendo ser mais uma fantasia belicista do gravador alemão. Mas, quem ler uma minuciosa descrição feita por Markus Bühler no blogue Bestiarium , concluirá que, de facto, os rinocerontes indianos têm uma protuberância no dorso, por vezes imperceptível. Mas que lá está, está. E Albrecht Dürer captou-a, com olhar de lince.

Com isto, quase não falámos do rino da Torre, ainda que tenhamos falado dele o tempo todo, num caminho que foi da Polónia à Colômbia, da Alemanha à bela Itália, passando pelo estuário do Tejo.


António Araújo

Nasceu em Lisboa, em 1966. Jurista e historiador, fez a licenciatura e o mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e o doutoramento em História Contemporânea na Universidade Católica Portuguesa. Exerceu funções como consultor político dos Presidentes Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa e é administrador executivo da Fundação Francisco Manuel dos Santos e diretor de publicações. Colabora regularmente com a imprensa escrita, e é editor do blogue Malomil. Foi um dos fundadores do blogue Lisboa SOS e é membro do Fórum Cidadania Lx. 

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1 Comentário

  1. António Araújo é hoje, com Pacheco Pereira – embora muito diferentes nos seus temas -, o melhor comentador português. Mostra cultura, erudição e escreve num português escorreito como raramente se vê na imprensa portuguesa

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