Desde que entrei no mundo do Fado que me fui tristemente habituando a ouvir estes dois termos quando algumas pessoas se querem referir à música tradicional de Lisboa.

Confesso que o meu encanitamento não vem de agora. Sempre me fez alguma espécie este tipo de terminologia típica do meio fadista, mas hoje provoca em mim uma reação alérgica, quase dermatológica. Chato, não é? Pois sou.

Os portugueses adoram diminutivos. Somos até famosos por isso, por encolher as coisas. Se este peculiar gosto fosse um filme, seria o “Querida, encolhi os miúdos”, claro. Ficaram, portanto, miudinhos. É o cafezinho, com o copinho de água ao lado, a meia dosezinha de bacalhau…como se meia dose não fosse já pouco, melhor, poucochinho!

Em alguns casos, este nosso gosto por coisas pequeninas é apenas prova de carinho ou afeto. Mas no caso que aqui me traz hoje a esta cronicazinha… será “fadinho” um termo carinhoso? Será que dizer “faduncho” é uma prova de estima por esta tradição musical secular?

Não e não.

“Ó Chico, canta lá um fadinho!”

“Ó Zé, vamos ouvir uns fadunchos à tasca!”

Há até quem use o termo “fadão” para descrever um grande tema, um daqueles fados de fazer arrepiar o pelo e encarquilhar a unha, ou de fazer chorar as pedras (que, no caso do Fado, é um elogio). Ora o contrário disto seria o quê? Pois claro, uma coisa menor, ou no mínimo mais ligeira. Vou tentar dar algum contexto à coisa.

Sempre houve entre os portugueses uma atitude ligeiramente condescendente em relação ao Fado. Porquê? Talvez pela sua origem humilde, saído do bas-fond lisboeta para os salões da nobreza e, desde Amália, para os grandes palcos do mundo. Talvez porque o próprio meio fadista nunca tenha verdadeiramente rechaçado este tratamento menorizante, saindo por vezes da boca dos próprios intervenientes o uso desta terminologia.

Talvez até porque subsiste ainda, em certos meios, um preconceito social e político em relação ao Fado, nascido do pós-25 de Abril, por ter sido utilizado com motivos propagandistas pelo antigo regime. Tudo isto faz com que alguns compatriotas teimem em tratar o Fado como coisa menor, kitsch, ou não mais que uma curiosidade popular.

Olhemos à nossa volta. Atravessando a fronteira, na vizinha Espanha, o Flamenco goza agora de um reconhecimento nacional e internacional invejável. Também ali se presenciou a um período de nojo em relação à exuberante música e dança andaluza, após a queda do regime franquista, que com os mesmos fins de Salazar, a utilizou para promover a grandeza de Espanha além-fronteiras.

No entanto, a relação social e institucional que os espanhóis têm com o Flamenco é bem mais saudável. Não apenas o apoiam e promovem a nível nacional, com dezenas de rádios a tocá-lo quase exclusivamente, atuações regulares nos canais de televisão, etc., como também, por meio do Instituto Cervantes (o equivalente ao nosso Instituto Camões), desenvolvem e financiam inúmeras ações de divulgação e internacionalização dos seus artistas, levando-os aos mais importantes palcos do mundo, mas também às escolas, apostando – e bem! – na valorização da cultura e da língua junto das novas gerações.

Além disto os nossos vizinhos sabem bem que a cultura é também um veículo privilegiado de promoção turística, com altíssimo e comprovado retorno económico, algo que por cá ainda não é totalmente compreendido.

Mas não terão também nuestros hermanos algum sentimento preconceituoso para com o Flamenco? Sim, claro que existe. Principalmente fora das regiões onde este tem mais relevância, o solarengo sul. Ainda assim respeitam-no e reconhecem o seu inestimável valor cultural e a importância que desempenha na projeção de Espanha no mundo.

Ora, será que os espanhóis também utilizam para com o Flamenco um léxico semelhante ao que nós atribuímos ao nosso Fado? Pois…não.

Na realidade, existe o termo “flamenquito”, mas este designa um tipo específico de música, uma derivação do Flamenco que resulta de uma fusão com a Pop, para o tornar mais “comercial”. Sim, também em Espanha se vive há anos o fenómeno da “popização” do Flamenco, como por aqui se faz com o Fado. Já em tempos escrevera Fernando de Carvalho, num tema celebrizado por António Calvário e recentemente reeditado magistralmente por Carminho:

Oh pá
Pop agora p’ro fado
É pop-ular
Topa pá o xarope do pop
Pop à toada logo com o pop
Oh pá
Estão-se nas pop-tintas
Os pop-elintras
São mais popistas que o fado
Pop-ularizado, pop-esticado
Pop-star e pop-ulista
Pop fadista, sem rei nem pop

Portanto, em Espanha, como em Portugal, alguns artistas têm vindo a procurar maior popularidade por meio de uma “modernização” do mais tradicional e “jondo” Flamenco, de forma a cativar as novas gerações, maioritariamente mais propensas à linguagem Pop, de refrão orelhudo e mensagem simples e direta. Mas, lá está, a isso deram-lhe um nome específico, Flamenquito (em português seria Flamenquinho), sem que por tal tenha, necessariamente, uma carga negativa ou pejorativa.

Façamos então o seguinte exercício e saibamos aprender com os bons exemplos: podemos, carinhosamente, atribuir ao chamado “novo Fado” (deixo a discussão deste suposto conceito para outras núpcias), esta vertente mais pop e comercial da canção de Lisboa, o nome de “Fadinho”, retirando ao termo a notória condescendência de que falei acima? Deixemos os fados serem apenas fados, pode ser? Boa!

Então e o “Faduncho”?

Também aqui proponho que se dê “o seu a seu dono” e se deixe o termo “faduncho” ao famoso e divertido personagem, genialmente criado e brilhantemente interpretado pelo nosso querido Marco Horácio. O “Rouxinol Faduncho” é a prova de que o palavrão em causa tem, inquestionavelmente, uma carga jocosa e, quando dito “a sério”, depreciativa. Na pessoa do Marco tem graça. Muita graça!

Leia as outras crónicas de Rodrigo Costa Félix, aqui.


Rodrigo Costa Félix

É lisboeta, fadista com trinta anos de carreira, letrista, produtor, agente e coproprietário do restaurante Fado ao Carmo. Tem quatro discos editados, vários prémios e distinções – nacionais e internacionais – e uma vida inteira dedicada à promoção e divulgação da “canção de Lisboa”.

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2 Comentários

  1. Beijos e beijinhos, muitos parabéns meu querido por mais esta ótima crónica. Viva o FADO

  2. É verdade, Rodrigo, isso do fadinho e do faduncho “encanita” grandemente, é produto de analfabetismo, como tudo o que não presta. Assusto-me com as pessoas que gostam de ir ouvir uns fadinhos e beber uns copinhos e não fazem a mínima ideia do que é que estão a ouvir, às vezes nem fazem ideia do que é que estão a beber, fujo deles. É por causa dessa gente que não vou mais vezes ao fado, frequentei muitas casas onde o fado só acontecia depois da porta fechar. E do poder político não se pode esperar nenhuma ajuda na dignificação e divulgação do fado, essa gente, qualquer que seja a sua filiação partidária, é cada vez mais inculta e burgessa (é com grande tristeza que o digo). Brindemos então ao Fado e a quem nele vive e trabalha: os fadistas, os músicos, os compositores e os letristas. Aprendamos e ensinemos a separar o trigo do joio.

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