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Estou aqui, estou a ir para Alhandra. Julgo que o leitor já lá foi, hoje, por outros caminhos. Aqui, na Mensagem, a minha camarada, nossa freguesa, Catarina Reis, fala do Baptista Pereira, o nadador. Que gente, a nossa! É isto que é a modernidade do jornalismo local. Usamos as mais modernas tecnologias, teclamos um risquinho, sai-nos uma foto, voltamos ao texto e é como falar de janela para janela: “Ó vizinho, então o Gineto lá faz cem anos! Quem viu aquele miúdo, dando braçadas no Tejo, a acarretar moliço preso por uma corda…”

Ah, ainda não leram a Catarina Reis? Ide lá. Eu espero.

Entretanto, o meu pai, dez anos, princípio da década de 1920, vadiava na Circunvalação, Porto. O pai dele tinha andado por Angola, sem sucesso, e a mãe geria uma adega, a Caninhas Verdes, onde acabava o Porto e começavam Matosinhos, as redes que precisavam de secar dos pescadores e estes que precisavam de refrescar a garganta. O meu pai tinha um amigo cigano, dos ciganos que estacionavam tendas e cavalos no que é hoje o Parque da Cidade (Porto), no fim da Circunvalação.

É isto que é a atualidade do jornalismo local, começa-se por titular Mensagem, de Lisboa, 2021, e a páginas tantas estamos a apanhar sol com um ciganito na praia de Matosinhos, 1920. Nas traseiras da Caninhas Verdes era o casarão murado de Manuel Pinto de Azevedo, riquíssimo republicano, pai da indústria têxtil do norte – entre outras, a fábrica dos carrinhos da Senhora da Hora era dele. Durante décadas, o filho, Manuel Pinto de Azevedo Júnior, viria a ser o patrão de O Primeiro de Janeiro, jornal honesto e moderno na medida do possível, pois aqueles foram os anos do salazarismo.

O meu pai contou-me que jogou com o Júnior, embora não tenha privado muito, até porque, além de rico, o outro era cinco anos mais velho. Amigo do meu pai era o cigano, companheiros de fisga nas ribeiras da Riguinha e de Carcavelos, que iam desaguar à praia de Matosinhos e agora são águas encanadas.

A Caninhas Verdes deve ter dado para o torto, talvez confinamentos por causa da gripe espanhola, e aos 14 anos o meu pai abandonou a Escolha Industrial e já trabalhava numa mercearia. Cortava fitas de marmelada que escondia na camisa e ia engolindo consoante a distração do patrão.

Em 1929, o meu pai e um irmão mais novo, 17 e 16 anos, sozinhos, partiram para Luanda, tentando o que o pai deles não conseguira. No dia em que atracaram (mentira, Luanda ainda não tinha porto, o paquete João Belo fundeou na baía), arranjaram emprego e só voltaram a ver-se meses depois. O meu pai inscreveu-se numa prova ciclista de Luanda, apareceu de pasteleira pesada e sem clube. Ia em primeiro, mas numa curva assaltaram-no e partiram-lhe os raios de uma das rodas. Estava sem amigos, percebeu que a infância e a adolescência já lá iam.

Soeiro Pereira Gomes tinha 21 anos em 1930, quando também partiu para Luanda experimentar, voltou aos 22. Num ano, terá chegado a falar com o meu pai? Não sei, e não é muito importante. A principal tangente que o meu pai falhou como personagem literária foi naquele dia em que chegou à baía de Luanda, tentou perceber a ilha, ficou curioso com os dongos, olhou a Fortaleza e viu tantos negros – e eu não estava lá.

Gostava de lhe ter apresentado um sape-sape, perguntado pelos cheiros de que estranhou e gostaria de ter olhado os olhos dele quando se despediu do irmão: “Cuida-te, Afonso.” E as mãos, passei anos a olhar para as mãos dele, nas minhas férias escolares, pelo cacimbo, e ele conduzia o camião Bedford pelo mato fora – mas trocava tudo por ter olhado as mãos dele, naquele dia da chegada, 1929.

Soeiro Pereira Gomes voltou para Portugal, casou com uma bela mulher, foi viver para Alhandra, com um bom emprego. Sabe-se que não precisou de ler o Capitães da Areia, de Jorge Amado. Em Alhandra ele soube olhar os miúdos de Alhandra. Os que saltavam para o Tejo, refugiavam-se da tareia dos pais nos mouchões, nadavam até à Outra Banda para roubar fruta, abandonavam a escola porque não tinham sapatos, enchiam um bote de moliço, faziam telhas nos telhais das margens e ouviam o Ti Alberto valador de valas para contrariar o rio: “Andava a gente na pesca do bacalhau, mirradinhos de frio…” Telhas de telhais, valador de valas… Aprendiam substantivos.

Eu julgo que Soeiro Pereira Gomes não precisou de falar com o meu pai para conhecer a infância do meu pai. Eu é que precisei de ler Esteiros para saber do meu pai. Gaitinhas tinha conhecido o Arturinho, o filho do rico Sr. Castro que fumava charuto e dizia “tempo é dinheiro”. Charuto, dinheiro, imagens pobres, não me comoveram… Gaitinhas, o pai partira, a mãe tísica morria, foi obrigado a deixar a escola, em que tinham andado juntos, ele e o Arturinho. Um dia, atrás do portão da casa do amigo, “corado de vergonha, espreitava o jardim em que não mais brincaria.” Era Alhandra, Tejo, o que ficou escrito. Nunca passei na Circunvalação, onde Porto acaba e começa Matosinhos, nem depois do casarão dos Pinto de Azevedo ter sido derrubado, sem me lembrar do meu pai.

Muito menos falou comigo, Soeiro Pereira Gomes. Em Esteiros, pôs a ganapada a ver uma fita de cinema. “O Sagui, não desfitava o cowboy. Este descia a rua, em cuja esquina estava o outro, de revólver em punho. Mais um passo e era a morte certa… Sagui, angustiado, soltou um berro: Cuidado, Macaco, que o gajo está na esquina!” Logo a seguir, “Macaco”, o popular ator Tim McCoy, avisado pelo Sagui, abatia o bandido.

Eu tinha um ano quando Soeiro Pereira Gomes morreu e ainda precisei de mais seis para frequentar o Cine-Colonial, no meu bairro em Luanda. Mas garanto, com dezenas de testemunhas se for preciso, que ouvi e muitas vezes, nos filmes de cowboys: “Cuidado, rapaz, olha no trás!” E o índio era abatido.  

Os supostos protagonistas coletivos do neo-realismo soam a falso, mas os garotos de Soeiro Pereira Gomes são enormes. O escritor pode ser mal lido quando dedica o livro aos “homens que nunca foram meninos”. Nunca houve tanto menino como nas crianças de Alhandra que foram descritas pelo escritor comunista. Gineto que não sabia ler nem escrever contava da sua infância, sem o saber dizer, a razão que o levava a atirar-se ao Tejo e se servir do rio às braçadas: “Porque ele estava ali.” Não procurem, ele não disse. Disse.

Pedro, o pai de Gaitinhas, desistiu, partiu, mas plantou uma árvore para o filho. Depois, a árvore definhava, cada ano que passava. Esteiros: “Os galhos das árvores que o temporal quebrou querem revivescer. E os homens também.” Boas intenções…

Soeiro Pereira Gomes morreu aos 40 anos, em 1949, porque escolheu militar na clandestinidade contra a ditadura, apesar dos riscos – eis um facto. Joaquim Baptista Pereira, o Quim de Alhandra, inspirador de Gineto de Esteiros, nadou todo o Canal da Mancha, em 1954 – outro facto de 34 quilómetros. Soeiro Pereira Gomes gostaria de saber que Baptista Pereira nadou os últimos quilómetros “mirradinho de frio”, sem as pernas baterem porque geladas. Ter sido lido pela vida de um analfabeto é o risco de um escritor que ama os homens.

Jerónimo de Sousa vai este domingo a Alhandra celebrar o centenário de Baptista Pereira. Não conheço entre os políticos portugueses quem tenha melhor cara para saudar o nosso querido vizinho.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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2 Comentários

  1. Obrigado FF! Grande estória! Grande narrativa! Grande Texto!
    Há poucos assim! Obrigado

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