O escritor João Tordo e a "literária" rua Esperança: cenário de um dos seus livros e o mesmo nome de uma das personagens do último romance.

A rua da Esperança é uma artéria que pulsa tranquila a partir da Lapa e cruza a Madragoa em direção à Estrela. É no sentido inverso ao dos carros que o escritor João Tordo surge, o passo apressado, como se não estivesse adiantado da hora para a entrevista, flagrando o jornalista com o novo livro dele sobre a mesa da pastelaria. O mesmo livro no qual uma das personagens leva justamente o nome da rua de Lisboa que o escritor escolheu para apresentar. “Poderia ser uma rua de ficção, mas é de verdade”, diz Tordo, o rosto encoberto pelo vapor que sobe em espiral da chávena de café – esta entrevista foi feita nos tempos entre confinamentos, em que havia café.

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Felicidade (Companhia das Letras) é o título do novo livro, referência a uma das personagens-chave, as trigémeas Felicidade, Esperança e Angélica. É o 14º romance de uma carreira que teve como ponto de viragem o Prémio José Saramago, em 2009.

“Escolhi a Rua da Esperança por Saramago ter vivido aqui vários anos, naquele quarto andar”, aponta Tordo em direção ao número 72, um prédio com uma tasca nas rés-do-chão e a (indefetível) placa de “vende-se” pendurada numa das varandas.

A pacata rua cruza a Madragoa, da Lapa em direção à Estrela, um percurso percorrido por Tordo na infância, na companhia dos pais.

“Há coisa de um ano e meio, estava a mudar-me e vi um apartamento no edifício do Saramago”, conta o escritor, achando piada à hipótese de morar no mesmo prédio onde vivera o nome do prémio que lhe abriu portas. “Por acaso, não era para mim, pois era demasiado caro e um pouquinho pequeno”, revela, a sorrir. Tordo não se mudou para muito longe do Nobel.

O lado “ficcional” da via não se resume ao antigo morador ilustre. A poucos metros da antiga casa de Saramago, uma frondosa árvore empresta a sombra à uma íngreme escadaria, a travessa dos Barbadinhos, que liga a rua da Esperança à calçada Marquês Abrantes. Os degraus foram cenário de um dos livros de João Tordo, Anatomia dos Mártires (D. Quixote), onde um dos personagens despenca degraus abaixo após sofrer uma agressão. 

A cena trágica romanesca contrasta com as biográficas boas lembranças de infância que ele tem da rua. “Os meus pais viviam não muito longe daqui e costumávamos passar sempre, para cima e para baixo, por aqui”, recorda. “Era bem diferente de hoje em dia, não havia os cafés, restaurantes e bares, mas desde sempre foi uma via emblemática de Lisboa”, diz. 

Além das reminiscências literárias e familiares de João Tordo, a rua da Esperança guarda outras referências de Lisboa. Nela viveu Gago Coutinho, famoso pela primeira travessia aérea do Atlântico Sul, na companhia do aviador Sacadura Cabral. A casa do histórico lisboeta está sinalizada por uma placa com o revestimento em bronze, assim como a fachada, a precisar de reparos. No rés do chão, as páginas de jornal fazem as vezes das vidraças da janela.

“Era bem diferente de hoje em dia, não havia os cafés, restaurantes e bares, mas desde sempre foi uma via emblemática de Lisboa.”

João Tordo, escritor

Não longe dali, está o Museu da Marioneta, instalado no prédio do antigo Convento das Bernardas. O equipamento passou a funcionar em 1987 e resgata uma tradição cénica portuguesa que não tinha um espaço dedicado à arte do fantoche desde que o Teatro do Bairro Alto fechou as portas, em 1755. Antes de ser museu, o prédio teve outras funcionalidades, entre elas o Cine-Esperança (em 1924), e uma placa em mármore que lembra de ter sido lá o palco onde atuou por dois anos a fadista Hermínia Silva. 

O giro pela literária rua na companhia de João Tordo poeticamente termina onde a Esperança começa, no largo do Chafariz da Esperança, no cruzamento com a avenida Dom Carlos I. Ganho o autógrafo no meu exemplar antes de o escritor, com a mesma passada rápida com a qual chegou, desaparecer por entre pessoas que se refugiam do frio nas cadeiras de um quiosque, espalhadas pelo passeio, sob o tímido sol de novembro.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. O Teatro do Bairro Alto setecentista encerrou portas, mas aquele que a Cornucópia fundou funcionou durante 40 anos e agora funciona de novo: teatrodobairroalto.pt

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