Qualquer cidade é um problema de pessoas vs. espaço, sei-o porque nos últimos dez anos meti tanta gente em minha casa que deixaram de caber. A gente ocupa muito espaço: em média, um metro e sessenta para as mulheres e um metro e setenta e qualquer coisa para os homens, o que corresponde, na medida que interessa, a vinte centímetros de altura.

Há assim pessoas que insistem em não caber. Recusavam-se a ir para os armários da cozinha, onde achavam que deviam ir as panelas, os pratos, os copos. No quarto couberam umas centenas e depois, embirradas, nem mais uma. Na sala também lhes faltava recanto, porque as salas servem de salvaguarda para as televisões de oitenta e cinco polegadas.

Pensei construir um abrigo de madeira no terraço, dando-lhes a vista da Serra da Amoreira (nas noites de Verão, com o calor de Lisboa, as luzinhas suavam-se para mim), mas eu em carpintaria não garanto o isolamento. Pingava-lhes em cima, estragavam-se as pessoas.

Farto do aperto, desalojei-as, incluindo da lareira, limpei-lhes as capas e o pó, metia-as lombada contra lombada em 187 sacos de 15L – e rumei ao sopé do Palácio das Necessidades, onde esperavam vários metros lineares de prateleiras. Para trás ficou Campo de Ourique, cuja arriba fóssil informa ter sido fundo de mar. Pena que ao presidente da junta tenham escapado vinte milhões de anos sem resolver o problema do congestionamento: no Mioceno, as ruas enchiam-se de moluscos, hoje, são jazida de carros.

No novo apartamento, tendo arcado os sacos para o terceiro andar sem elevador, arrumei os livros a eito, por vingança, já que as pessoas não só ocupam o espaço que ocupam como pesam mais do que deviam pesar. A média de setenta e cinco quilos para os homens e sessenta para as mulheres, o que corresponde, para o que interessa, a duzentos gramas por livro.

Fran Lebowitz diz que os livros são a coisa mais parecida com o ser humano. Arrumá-los em prateleiras seguindo a ordem de quem está mais à mão é o tratamento menos parecido com o ser humano que se pode dar à coisa mais parecida com o ser humano.

Uma semana depois de ter resolvido o dilema de pessoas vs. espaço, pus-me à janela, que é como os lisboetas sós olham a cidade. Dizem que Lisboa anoitece como um veleiro sem velas, aqui o povo arrefece, mas eu sei que em Alcântara o canto da ponte, mais lamento do que canto, se cala de madrugada. Lisboa anoitece como um veleiro sem fala.

Do outro lado da rua, na ribanceira que leva ao posto de vigia do tempo da Restauração, vi uma janelinha cheia de luz intermitente. Tapada por um pano sujo onde se lava as mãos, brilhava das cores que fazem os sítios pequenos ficarem do tamanho de praias, montanhas, rios, cristinas ferreiras e festivais de música. Alguém via televisão num contentor da Ibermódulo. Percebi logo que não era D. João IV.

A Ibermódulo venceu o Tetris da cidade. Os seus contentores jogam em qualquer aperto, até num desnível onde ainda ontem se vigiavam os espanhóis e hoje se constrói um prédio disforme cor de tijolo que veio comer um chalé abandonado.

No dia seguinte acordei com um assobio antigo do tipo «O meu pai é Manel-Cuco, minha mãe, mãe, mãe, minha mãe Cuca-Maria». De janela aberta, um homem lavava a cara à frente dum espelho. Tinha costas de quem mistura argamassa em baldes de dez litros, de espalha-cimento – era o escolhido para erguer as casas dos outros.

Daí em diante, esqueci os livros porque o trolha fazia à minha vista a rotina Ibermódulo-obra, obra-Ibermódulo. Instalava lajes de mármore, berrava com os colegas, assistia na operação da grua, por vezes de noite queixava-se ao telemóvel, e via sempre televisão. Às sete da manhã, enquadrado pela janela frente ao espelho, fazia a barba de tronco nu antes de instalar lajes de mármore, berrar com os colegas e assistir na operação da grua.

Como prefiro que as pessoas não sejam ferramentas que se guardam num contentor, li-lhe as tatuagens das costas qual contracapa. De cima para baixo, um Cristo empunhava duas pistolas; três crianças de nome Joana, Anna e Michael sorriam em caras mal fotocopiadas; e havia também uma garrafa de mergulho, um focinho de cão e um pintassilgo de asas abertas.

Deus é o Senhor e o Senhor é Cristo, abri eu a sinopse. Jesus expulsou a tiros de Glock os vendilhões do templo, onde até se negociavam vacinas de contrabando. Os vendilhões debandaram virando as mesas, rolaram moedas pelo chão, as pombas fugiram das caixas partidas. Depois Cristo descansou nas espaldas do trolha, a cabeça tombada sem dar a outra face, os braços cruzados e as duas pistolas fumegantes.

«Deus é meu guarda-costas», dizia o trolha na prisão de Monsanto. Também ele tratara dos vendilhões: uma manhã, nas escadas da casa da primeira ex-mulher, expulsara o novo namorado à pancada. A filha Joana tinha um pai, o pai era ele: e o pai andava por todo o sítio – na ansiedade da ex-mulher, que temia que ele regressasse, e na alegria da filha, que ainda não compreendia a ansiedade da mãe.

Em novo, fora contratado por uma empresa de construção submarina para consertar plataformas petrolíferas. «Soldar um parafuso a quarenta metros de profundidade é de bicho sério.» Tão sério que durante os mergulhos nem pensava na droga e nas companhias de Chelas. «Mas o azoto e as horas na câmara é que me lixaram o juízo, não foram as drogas.» Dizia que ganhava mais do que ganhava, mas ganhava muito: umas quantas centenas por mergulho.

Regressado a Lisboa, abusou do dinheiro na segunda mulher, em quem foi a tempo de pôr dois outros filhos antes de se esbanjar. Anna e Michael não se pareciam com vendilhões nem achavam que Deus fosse guarda-costas. À custa do azoto e da solidão hiperbárica, quais percevejos no cérebro do pai, apanhavam deste nas costas, nas pernas. Tampouco era como apanhar de Deus, somente de um homem emagrecido pela droga que não lhes cantava, no embalo, «o meu pai é Manel-Cuco».

A casa da estrada de Chelas, a dar para o pátio onde vivia um Pitbull, degradara-se desde que ele dali saíra aos treze anos. A mãe-velha construíra na sala um casulo de móveis sem préstimo, roupa descosida, folhas de jornal, bibelots e plásticos. Por mais que fizesse casulo, não tinha idade para crisálida. «Se voltas a dar no azoto, ponho-te fora», dizia ao trolha seu filho. Já ele, com pouco dentro das costelas exceto o coração e a vontade de respirar, sentia-se pequeno como um Ibermódulo.

A renda era cuidar do pintassilgo que chamava por fêmea na gaiola da cozinha. «O raio do canário não se calava», disse mais tarde aos colegas da obra na rua da Costa, «nem de noite esquecia as gajas». Uma manhã, pegou no pássaro com cuidado, não o fosse magoar, e deu-o de comer ao Pitbull. Jurava que a mãe descobrira por tê-lo ouvido cantar na barriga do cão.

Agora o homem não tem três filhos nem duas mulheres nem uma mãe. Tem um Ibermódulo e várias tatuagens. Deus continua o Senhor e o Senhor continua Cristo. Jesus descansa nas suas costas, pronto a usar as Glock noutros vendilhões, novos templos.

Depois de lhe ter feito a sinopse, percebi que se sentira observado. Acabou de fazer a barba, vestiu uma T-shirt e virou-se para mim. A distância entre as janelas do contentor e de minha casa é uma rua. Acenei-lhe adeus. Ele levou as mãos à boca e berrou: «Mete-te na tua vida, ó filho da puta!»

Tu desculpa-me, Fran L., mas a coisa mais parecida com um ser humano é uma pessoa. E nesta cidade qualquer pessoa cabe em qualquer sítio. 


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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1 Comentário

  1. Simplesmente adorei!
    Definitivamente, passei a fã!
    Parabéns! Continue a escrever!

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