Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

É história antiga, a do lagarto da Penha. Mas antes de o bicho entrar em cena diga-se que a Penha, a de França, deve o seu nome a António Simões, santeiro e dourador lisboeta que escapou à justa de morrer em Alcácer-Quibir. Salvou-o da morte certa Nossa Senhora da Penha, cujo santo nome António invocou nos areais africanos, quando estava à rasca.

Mal chegado a Lisboa, e a sugestão de um padre jesuíta, espetou um estandarte com a figura da Senhora num terreno arrabaldino chamado Cabeça de Alperche, que desde a época muçulmana, pelo menos, era lugar de olivais e vinhedos, pomares e hortas. Mais tarde, António mandou edificar aí um templo que deveria albergar a imagem até então alojada na Ermida da Vitória, na Caldeiraria, actual Baixa.

A primeira pedra foi colocada em 1597 e, dois anos depois, por causa da peste que na altura castigava muito a cidade, o povo de Lisboa oriental, a mando do presidente da autarquia D. Gileanes da Costa, decidiu sair em procissão, todo alinhadinho em busca do auxílio protector da Virgem da Penha, padroeira dos mareantes.

Começava assim a Procissão do Ferrolho, devendo esse nome à circunstância de os fiéis mais fiéis, desde madrugada alta, irem batendo às portas das casas das pessoas em repouso, chamando-as para dar forma e espessura ao cortejo processional. A procissão fazia-se todos os anos a 5 de Agosto, mas a tradição foi interrompida em 1833 e nunca mais voltou. Continuam, porém, as solenes festas em honra de Nossa Senhora da Penha de França.      

A lenda do lagarto é também antiga, desconhecendo-se quando começou ao certo. Sabe-se apenas que em 1739 já existia uma capela “do lagarto” numa das bandas da igreja. A história do bicho começa quando um peregrino que por ali andava já muito fatigado se deitou a adormecer por entre as ervas frescas da Penha. Apareceu-lhe então à frente, vindo não se sabe donde, um enorme lagarto “do tamanho de um jacaré”, quase tão grande como aqueles a quem D. João II lançou dois mil meninos judeus, dizimados horrivelmente em 1493 nas ilhas de São Tomé.

Aflitíssimo com a aparição da fera rastejante, o peregrino chamou logo pela Virgem, que lesta e fulgurantemente surgiu em resplendor de luz, afugentando o monstro, que foi morto, embalsamado e colocado numa das paredes da igreja, tal qual o crocodilo imenso que, dependurado do tecto, deslumbra o Patio de los Naranjos da catedral de Sevilha. Noutra versão da história, perfilhada por Norberto Araújo e que vingou com o tempo, o romeiro adormecido estava prestes a ser mordido por uma cobra, tendo sido o lagarto a afugentá-la, como hoje nos mostra, na esquina com a Calçada do Poço dos Mouros, uma bela e brilhante pintura mural de Leonor Brilha.

Veio então o dia infausto. Só na Penha ficaram soterradas trezentas almas nos escombros do terramoto. Ainda antes desta tragédia já o lagarto embalsamado dava mostras de cansaço, com a pele carcomida, o ventre esventrado, a carcaça degradada. Fez-se cópia de madeira, que arderia em 1755, mas outra se construiu, e ainda lá está, negríssima, acompanhada da cobra jacente, à vista de devotos e demais turistas.

O mesmo sucede com o painel de azulejos comemorativo da estada da imagem da Senhora da Penha na Quinta do Alperche, para onde foi levada por um sargento de nome António Dias Panão, após o tremor da terra. Decorre tudo isto à sombra de um grande depósito de água da EPAL, hoje desactivado, que encima uma correnteza de casas que outrora albergaram romeiros vindos de várias partes do país para adoração à Senhora da Penha.

Na esquina com a Calçada do Poço dos Mouros, uma bela e brilhante pintura mural de Leonor Brilha mostra a segunda versão da história do lagarto, em que ele salva o romeiro.

O painel que comemora o Lagarto da Penha. Foto: Líbia Florentino

Em Cabanas, junto a Palmela, havia particular devoção à Virgem lisbonense, mistério que deu lugar ao Círio das Palmeloas: em Outubro de cada ano, vinham em romaria até à Penha muitos peregrinos da margem sul, gratos pelo fim de uma peste que assolara aquelas bandas. É espantosa a quantidade de História que se concentra em tão escassos metros.

A direcção nacional da PSP, onde ali a vemos, está no local que foi sede da Legião Portuguesa, sendo muito intensa a presença militar na zona desde os tempos das invasões francesas. Com a extinção das ordens religiosas, o edifício conventual passou para a alçada do Ministério da Guerra, que aí mandou instalar uma hospedaria militar, um recolhimento para viúvas de oficiais, sucessivos quartéis de artilharia, além do Serviço de Transmissões e dos enternecedores Pombais Militares.

A Penha está a mudar, contudo, e nem sempre bem. Mas, em tempos de pandemia, basta de falar de tristezas. Por hoje, fica o lagarto: tem peçonha, mas não mata.

O autor escreve sem o novo acordo ortográfico


António Araújo

Nasceu em Lisboa, em 1966. Jurista e historiador, fez a licenciatura e o mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e o doutoramento em História Contemporânea na Universidade Católica Portuguesa. Exerceu funções como consultor político dos Presidentes Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa e é administrador executivo da Fundação Francisco Manuel dos Santos e diretor de publicações. Colabora regularmente com a imprensa escrita, e é editor do blogue Malomil. Foi um dos fundadores do blogue Lisboa SOS e é membro do Fórum Cidadania Lx. 

Entre na conversa

2 Comentários

  1. Prezado Dr. António Araújo
    Cumprimento-o agradecendo a bela narrativa histórica do “Lagarto da Penha” e expresso na sua pessoa os cumprimentos a toda a equipa por esta nobre iniciativa a que desejo melhores êxitos. Sou nado e criado em Lisboa, e desde meados dos anos 40 tenho deambulado de Alfama (Sé), Mouraria, Pena e agora Penha de França, e seguirei com todo o interesse esta vossa iniciativa. Desculpe-me a liberdade de sugerir breves histórias sobre os nossos “Corvos” e “Gaivotas”.
    Que o êxito seja o vosso destino
    Melhores cumprimentos
    FAB

  2. Gostei.
    Se contém imprecisões…
    Desconheço.
    Peço desculpa pela minha ignorância.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.