A fotografia remonta aos princípio do século XX e mostra o primeiro campo de futebol de uma instituição que, nas décadas seguintes, apaixonaria multidões. Na Feiteira, em Benfica, futebolistas de calções longos, bigodes encerados e águia ao peito (pois é do Sport Lisboa e Benfica que se trata – vejam a Banda Desenhada sobre o tema aqui) praticavam a nova modalidade , num recinto com vista para a estrada de ulmeiros que, um dia abriria alas à Avenida Grão-Vasco, e para a Igreja Paroquial. A meio dia de passeio em carruagem, Benfica era um lugar bucólico onde as personagens de Eça de Queirós vinham refrescar-se ou ocultar amores. 

Qualquer que fosse a sua motivação, Dona Maria Gertrudes da Conceição Macedo de Barros, que não era uma figura de romance, mandou construir aqui o belo chalet, vizinho da Igreja, que vemos na referida fotografia. Em homenagem à mãe, chamou-lhe Villa Ana. Vinte anos depois, constrói, ao lado, nova casa à imagem da primeira. E chama-lhe Villa Ventura, desta feita a recordar o pai, Ventura Luís de Macedo. 

Nos anos que se seguiram, este troço final da Estrada de Benfica foi sendo alterado de forma radical: os ulmeiros, o campo de futebol, as carruagens desapareceram, dando lugar a prédios altos e automóveis, cada vez mais automóveis. A freguesia tornou-se uma das mais populosas de Lisboa.

A fachada ilustrada das duas vilas. Ilustração: Nuno Saraiva

Só as duas vilas ali foram permanecendo como um vestido esquecido num roupeiro, a recordar a sombra perdida dos ulmeiros. Até há sensivelmente dois anos, quando uma rede lançada por uma empresa de construção civil as cobriu e iniciou a intervenção há muito temida pelos vizinhos. A Ormandy Portuguesa transformou-a em apartamentos de luxo que, do passado, só guardam a fachada.

Um pedaço de História

O fim destas últimas vilas da Estrada de Benfica não marca apenas o desaparecimento de uma certa arquitetura Belle Époque nesta zona da cidade. Com elas, foi abaixo um bom pedaço da memória de Lisboa e até do país, já que, antes dos residentes começarem a rarear no último quarto de século, esta foi a morada de, entre outros, o primeiro presidente da República pós-25 de Abril, António de Spínola (no tempo em que era aluno do Colégio Militar), os avós paternos do escritor António Lobo Antunes, do escritor Luiz Pacheco (e episodicamente do seu amigo, o poeta António Maria Lisboa). Maria Lamas, por sua vez, ali mesmo ao lado e os Lobo Antunes, quando mudaram depois de lhes sair a taluda duas vezes, não foram para longe – mudaram-se para a vizinha Travessa do Vintém das Escolas, onde ainda está a casa da família. 

Numa entrevista de 2005, Pacheco evocava esses tempos há muito idos: «O Lisboa era um espírito insubmisso. Eu dei-me mais com o Lisboa foi em Benfica, na Villa Anna, no Verão de 1950, antes de ele ir para Paris a primeira vez. Ele foi dormir lá a Benfica uma ou duas vezes. Lembro-me que íamos a pé às tantas da manhã, quando perdíamos o último carro do Arco do Cego para Benfica que era à uma e meia… Então íamos a pé por aí fora. A minha mulher, a Maria Helena e os miúdos estavam em casa dos meus pais em Bucelas, ao pé do moinho e eu ia dormir a Lisboa, em Benfica, por causa do clima húmido de Bucelas que me provocava grandes ataques de asma. Em Benfica era assim: de um lado a Villa Ventura e do outro a Villa Anna, o número 674, que era a casa dos meus avós, onde depois também foi viver, para o andar de cima, o meu tio e padrinho, o coronel Fernando António Gomes.”

Vila em novela de Hélia Correia

O valor simbólico dos dois chalets inspiraria ainda à escritora Hélia Correia (também ela residente em Benfica) a novela Vila Celeste. Publicada em 1985, antevia já a ameaça do camartelo e a solidão da sua derradeira inquilina:

“Recebeu a visita de uns senhores, ho­mens finos, de orelhas perfumadas, que pu­nham sobre a mesa papéis, fotografias, e fa­ziam estalar as lapiseiras como cães de es­pingarda, enquanto iam sorrindo. Teresinha sentia o medo da “Celeste”, o arrepio que lhe abanava as portas. Dava en­tão pancadinhas na parede como no lombo de um muar, a confortá-la. Nem por um só instante se deixara tentar pelos encantamen­tos prometidos. Mas estava muito velha, pensou. E a “Ce­leste”? Assim que ela morresse, caíam-lhe ao assalto, matavam-na também. Seria esse verdadeiro fim, quando as paredes se abates­sem sobre o chão e a memória de tudo fi­casse soterrada; as raízes das plantas e os cadáveres dos bichos, as lajes que Teresinha avermelhara com sucessivas coberturas de ocre, as capoeiras, as tábuas do sobrado, os canapés, os quadros com meninas, até o ce­dro e a palmeira: a vida, os pedaços de vida que por ali se tinham demorado, ou somen­te roçado, de caminho, desapareceriam in­suportavelmente sob um prédio de vinte apartamentos.”

Capa do livro escrito por Hélia Correia

Hélia Correia mudou-se para Benfica no final dos anos 70, onde ainda vive, e logo se deixou fascinar por aquela casa já tão dissonante da arquitetura envolvente. “Nessa época, Benfica já era um bairro perfeitamente urbanizado, cheio de prédios altos e sem beleza alguma. No meio de tudo aquilo, estas vilas interpelavam-me, já melancólicas, já condenadas, um derradeiro vestígio da antiga Estrada de Sintra. Aquele romantismo tocou-me muito e levou-me a imaginar-lhe uma vida. As casas vivem, agonizam e morrem, sabe?”

“Benfica já era um bairro perfeitamente urbanizado, prédios altos e sem beleza alguma. No meio de tudo aquilo, estas vilas interpelavam-me, já melancólicas, já condenadas. Aquele romantismo tocou-me muito.”

Hélia Correia

João Simões trabalha há aproximadamente dez anos na instituição bancária vizinha das duas vilas e conheceu os seus últimos habitantes. Recorda o penúltimo morador que só conheceu de vista e por ter hasteado na janela em forma de óculo do 1º andar uma bandeira do clube desportivo que esta vila viu nascer há mais de 100 anos. “Mas dado o estado de degradação do imóvel, acabou por se ir embora. Apenas ficou a Dona Emília, que estava aqui há mais de 60 anos e que, apesar de ter recebido uma carta de despejo em 2016, ficou até ao limite, a pagar a sua renda de 30 euros. Tinha mais de 80 anos, sofria de alzheimer, não cozinhava (as refeições eram-lhe fornecidas aqui pela paróquia. A casa estava cheia de infiltrações, ameaçava ruína, porque os proprietários a votaram a um deliberado abandono, mas ela passara aqui toda a sua vida adulta e não concebia viver noutro lugar. Ia ficando, a alimentar os gatos das redondezas e com dois vasinhos à janela.”

Dona Emília partiu em 2017 e João Simões nunca mais teve notícias dela. 

Constando do Inventário Municipal de Património de Lisboa, o imóvel só pode ser intervencionado no interior, devendo a fachada ser preservada conforme o original. Mas se o estado de ruína ameaçasse derrocada, a demolição já poderia ser autorizada. Para tentar alertar para essa eventualidade, nasceu em 2009 um movimento de cidadãos que realizou várias iniciativas, entre as quais uma petição pela sua salvaguarda.

As obras de requalificação arrancaram em 2018, com a transformação das vilas Ana e Ventura em modernos apartamentos. Mantendo, no entanto, a fachada original. À porta, uma placa municipal conta-lhes sucintamente  a história, lembrando às gerações futuras um tempo em que Benfica era um lugar de riachos límpidos e frondosos ulmeiros. 

Leia aqui a BD sobre as duas vilas e a sua ligação com o SLB

Se tem ou conhece mais histórias, memórias ou fotos das duas Vilas, envie-nos. Gostávamos de conhecê-las.


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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6 Comentários

  1. Um excelente artigo, parabéns!

    Pena que não mencionem sequer que as obras de preservação a que os proprietários foram intimados pela CML continuem, há anos paradas…
    Nem tão pouco refiram a fonte que pesquisou e entrevistou morosamente para que se soubesse a história da origem da Vila Ana e da Vila Ventura, neste caso o blogue comunitário “Retalhos de Bem-Fica” (http://retalhosdebemfica.blogspot.com/), que foi também quem deu origem ao Movimento de Cidadãos pela Preservação da Vila Ana e da Vila Ventura (que lutou e fez pressão junto da CML para que estas Vilas históricas fossem preservadas)!!!

  2. Agradeço a inclusão do penúltimo parágrafo após a minha mensagem anterior (“Constando do Inventário Municipal de Património de Lisboa, o imóvel só pode ser intervencionado no interior, devendo a fachada ser preservada conforme o original. Mas se o estado de ruína ameaçasse derrocada, a demolição já poderia ser autorizada. Para tentar alertar para essa eventualidade, nasceu em 2009 um movimento de cidadãos que realizou várias iniciativas, entre as quais uma petição pela sua salvaguarda.”).

    Seria benéfico corrigirem também as imprecisões constantes no artigo, i.e.:

    – a D. Emília saiu da Vila Ventura em 2018 (e não 2017); – as obras só foram iniciadas em 2019 (e não 2018);
    – as Vilas nunca foram transformadas em apartamentos, porque as obras estão paradas desde Janeiro de 2020.

    Obrigada!

  3. Estas obras de requalificação que começaram em 2018 estão paradas há mais de 1 ano e não existem ainda modernos apartamentos não….é só passar por lá e ver

  4. Isabel Froes, excelente terem partilhado o seu comentário (já que os dois comentários que aqui deixem ontem não foram autorizados… Vá se lá saber porquê, numa página que apela à partição dos cidadãos!).
    As obras começaram apenas em 2019 (a D. Emília só saíu da Vila Ventura em 2018) e têm de facto estado paradas desde Janeiro de 2020.

  5. Não sei onde foram buscar estas informações ou quem foram os vossos informantes, mas volto a chamar a atenção para as incorrecções de datas (que ainda não foram corrigidas):

    – A D. Emília saíu da Vila Ventura no dia 29 de Maio de 2018 (e não em 2017, como referido no texto), conforme prova abaixo:

    http://retalhosdebemfica.blogspot.com/2018/06/o-dia-em-que-vila-ventura-deixou-de_1.html?m=1

    – As obras nas Vilas só foram iniciadas em Novembro de 2019 (e não em 2018, como referido), como documentado neste link da página de Facebook do Movimento de Cidadãos pela Preservação da Vila Ana e da Vila Ventura:

    https://www.facebook.com/253937745585/posts/10157544324695586/?app=fbl

    Agradecemos a devida correcção, para reposição da verdade histórica (ainda para mais tratando-se de eventos relativamente recentes).
    Obrigada.

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