Um pouco mais de carácter, e aquele lisboeta era um bom malandro. Faltava banho ao rabo-de-cavalo, que ele trazia caído no ombro como um papagaio velho de pirata (nunca folheei Salgari ou outro que tal, mas imagino papagaios ao ombro de gente embarcada). Via-se logo que tinha a esperteza de pé atrás que identificamos como popular. Inteiramente injusto, mas inteiramente este homem. Pelo cheiro a tabaco, enfiava-se horas seguidas no Núcleo do Sporting Clube de Portugal Alcântara, onde o encontrei.

Na verdade, ele encontrou-me: eu limitei-me a entrar no núcleo depois de ter descido a calçada do Livramento em busca de um escadote.

Meia hora antes, nas traseiras da churrasqueira que ficava a meio da calçada, um churrasqueiro – não o descrevo porque a pança ocupa demasiadas palavras – apontou para um escadote de madeira ao fundo de um corredor forrado a baratas. «Levas, depois devolves», disse ele. E eu voltei a casa, subi à janela do primeiro andar e, prestes a usar os punhos, decidi não estraçalhar a mão no vidro. Mas também não estraçalharia a carteira nas Chaves do Areeiro®. Quando lhe devolvi o escadote, o churrasqueiro afagou a barriga, certo de que os rapazes de hoje nem para entrar na própria casa servem.

Desci a calçada do Livramento e encontrei nos intestinos de Alcântara o Núcleo do Sporting Clube de Portugal, onde um grupo de velhos jogava às copas.

Além de alcatifa, forra estes núcleos a boa vontade de quem vê mais do que gente na gente dispersa da rua. Junta-se meia dúzia de homens à volta de uma mesa ou de um bilhar e dá-se-lhe o nome de comunidade.

Nas paredes havia fotos desbotadas de um jogador dos anos quarenta de quem ninguém se lembra. Talvez ecos de Peyroteo, que para mim seriam mais fáceis de identificar se fossem ecos de Eusébio. Os galhardetes tinham perdido a cor. Há sempre alcatifas nestes núcleos, pretas do tabaco e manchadas da noite em que o organizador se esticou com o Esteves e este, estava-se mesmo a ver, não tolerou o insulto e chegou-se-lhe às trombas. Além de alcatifa, forra estes núcleos a boa vontade de quem vê mais do que gente na gente dispersa da rua. Junta-se meia dúzia de homens à volta de uma mesa ou de um bilhar e dá-se-lhe o nome de comunidade.

Observaram-me seguros de que entrara ali para os importunar devido a uma qualquer inferioridade típica de quem nasceu depois da Internet. E eu dei-lhes razão, dizendo-lhes que ficara preso fora de casa. Só escondi que evidentemente não era a primeira vez.

O homem do rabo-de-cavalo levantou-se enquanto os outros velhos, mais baixos do que eu uma cabeça, se riam de mim devido a uma qualquer superioridade típica de quem nasceu antes da Internet.

Isto não era para contar, tanto mais que o bom ladrão é o ladrão que assalta por nós, mas o homem encaminhou-me de volta à calçada do Livramento. O Miradouro do Largo das Necessidades, de onde antes da CUF se via o rio (agora vêem-se os doentes), não é só a paisagem. Também é a parede esburacada que o sustenta. Um dia, esta desaba e com ela a paisagem, soltando-se os quatro ventos do chafariz. De um desses buracos, enfiando o braço, o homem desalojou um fémur. Alguém o quebrara em vários sítios, talvez num desastre de mota, as fissuras agora claramente assinaladas na radiografia. «Ouve lá, aprende, que eu sou da Madragoa e não estou cá para sempre!», disse-me ele, atirando o papagaio para trás das costas.

De Madragoa a Alcântara haverá uma lisbografia pessoal que eu gostaria de ter descoberto. Invento-a agora, não se vá perder uma boa história.

Nasceu numa rua sombria e popular sem um painel, um arco ou um brasão, pelo que a família viajou para o Pátio dos Quintalinhos, onde viveu paredes-meias com uma vendedora de flores que as apregoava cantando. A vizinha cresceu e ficou Amália; já ele, cuja voz nunca lhe deu para vender flores nem para ser Amália, ficou pela oficina do pai, a ver se aprendia a lubrificar as peças de impressão trazidas defeituosas do Bairro Alto.

E o que viu, vejo-o eu agora por ele. Os apartamentos em silêncio, o silêncio a sair-lhe de cada passo.

Entravam a custo os mecanismos amovíveis das enormes rotativas, maiores do que ele, sem as quais em 1967 O Século Ilustrado não imprimiria as últimas, como «Orson Welles, gordo e jovial, fez-se acompanhar na Feira de Sevilha da filha, uma encantadora criaturinha de nove anos que tem, como ele, a paixão da Espanha e das touradas», ou a foto de Sammy Davis, «rei do music-hall, negro, judeu, coxo, sem um olho e casado com uma sueca de olhos azuis».

A mãe em casa bordava, cerzia sobre o já cerzido por ser assim a pobreza. Bordou, emendou, morreu. Mais violenta, a morte do pai quase apareceu no jornal. A oficina ficou sem peças depois de O Século ter ficado sem leitores, mas ele, já com rabo de cavalo que ainda não era papagaio de Salgari, aprendera a usar as mãos. Percebeu que as fechaduras também eram mecanismos manipuláveis. Desde então, com o auxílio de varas de metal, pontapés e radiografias, mapeou Lisboa por dentro.

E o que viu, vejo-o eu agora por ele. Os apartamentos em silêncio, o silêncio a sair-lhe de cada passo. A casa dos Caetanos, que por fora era quarteirão e por dentro palácio de cortinas rasgadas, móveis estalados e muito por onde levar, pratas e retratos de avós que ele não sabia existirem assim antigos. Nem depois onde os vender.

Os cães eram o diabo, piores do que crianças. Não se cala um cão com a promessa de um pai.

Nas casas mais pequenas, poucas notas que se faziam muitas se ele trabalhasse bem, de porta em porta. O silêncio dos passos nunca perturbava a respiração de quem dormia, embora numa madrugada uma criança lhe tenha perguntado se ele era o pai que regressava. «Se voltares para a cama, sou teu pai», disse-lhe baixinho. Nessa noite, a criança dormiu feliz. Os cães eram o diabo, piores do que crianças. Não se cala um cão com a promessa de um pai. E um dia, como paga por lhe ter tirado o relógio do pulso, cobriu com um lenço a cara de um morto que encontrara estendido entre o quarto e a casa de banho.

Envelheceu com os olhos cheios e os bolsos por vezes também cheios, embora normalmente vazios. Como tivera jeito para fechaduras de casas e paixão por fechaduras de mulheres, de tantas abrir, nenhuma deixou de se sentir roubada. Chegou só a velho com outros velhos sós do Núcleo do Sporting Clube de Portugal Alcântara.

Enfiou a radiografia do fémur na fechadura do meu prédio, de novo a enfiou no trinco de casa. Estávamos na minha sala, que era o meu quarto, a minha casa de banho, a minha cozinha e a minha sala de jantar – bem como a minha renda de mais de quinhentos euros. Acabado mas ainda capaz de uma conquista, ajeitou o rabo-de-cavalo.

Ofereci-lhe café, não quis. Ofereci-lhe um livro, não quis. «Descansa, rapaz, que eu não volto», disse-me ao sair.

Anos mais tarde, chegou a vez da minha avó, que sempre foi mais bicho de sair do que bicho de ficar. Até aos noventa e oito anos, descendo a rua do Salitre, caminhava até ao Terreiro do Paço – saciava-se da gente, do rio, da outra banda – e voltava às Amoreiras também caminhando. Mas ponham-se cem anos em cima de qualquer mulher e ela quase não se mexe. A Lurdes, chorando e desculpando-se ao telefone, bem me explicou que a porta era surda: embora lhe suplicasse «abre-te, sésamo», esta não cedia sem as chaves.

Eu não tinha rabo-de-cavalo nem carreira de roubo no eixo Madragoa-Alcântara. Mas tinha uma avó de cem anos fechada em casa e o conhecimento íntimo da cidade, que é o melhor dos conhecimentos. Lisboa pertencia-me porque eu aprendera a sacaneá-la, a ir com ela sem dizer obrigado no fim.

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  • Roubei a radiografia da calçada do Livramento, operei o fémur no trinco, resgatei a minha avó de um sono fundo, alheio à aflição da Lurdes, e achei-me merecedor do Núcleo do Sporting Clube de Portugal Alcântara.

    Se o assaltante de rabo-de-cavalo ainda estiver vivo, hoje não me recusaria o café e o livro. Ou talvez recusasse, porque nunca lhe devolvi o fémur, e sem ele não há fechadura que lhe pague a reforma.


    Afonso Reis Cabral

    Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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    14 Comentários

    1. Muito bom , como tudo o que li até hoje de Afonso Tegis Cabral. Já li quase tudo o que esse belo escritor escreveu.

    2. O Autor sabe contar histórias e manuseia as palavras com facilidade, como profissional que é. O fio narrativo abre- se a considerações aparentemente laterais mas afinal parte importante da história.
      A narrativa é ágil e leve (como os pés dançantes de Fred Astaire, que acabo de ver num vídeo) mas, ao mesmo tempo emerge nela, também com leveza, um forte sentido de comunidade ou paridade ou compreensão serena de cada ser humano. E há um fundozinho de distanciamento (do que conta) e de humor que contribui para o sabor da história.
      Conta bem.

    3. Afonso Reis Cabral, tem a característica de envolver o leitor, de uma forma afetiva, na sua “dança” com as palavras. Um abraço.

    4. Ai rapaz (tenho netos aproximadamente da tua idade) quanto te agradeço esta tua inspiração… Fizeste-me relembrar mui intensamente essa Lisboa que adoro. Felicito-te por essa prosa só aparentemente simples mas que sabe descrever coisas que só os da nossa terra podemos sentir na pele. Dizte-o um conterrâneo que nasceu muito mas muito antes da internet mas que lá a vai usando diàriamente como sabe (pouco) e pode. Deixo-te um forte abraço com os parabéns de quem te augura um futuro cheio do melhor. Francisco F. Teixeira

    5. Saber contar uma estória não é para todos, mas o Afonso é exímio a escrever e agarra-nos completamente à narrativa. Um grande contador de estórias, um dos melhores escritores da nova geração.

    6. Muito bem escrito! Que bom ler boa língua portuguesa! Sente-se um arrepio leve mas duradouro por saber tão bem! E depois estamos na Lisboa profunda saborosa com uma cor diferente única nossa com as portas próximas umas das outras com lojas pelo meio com pessoas sentadas à porta a ver passar ninguém a pensar no passado não a recordar a dormitar e depois mais portas mais janelas mais lojas vazias de pessoas a comprar e de pessoas a vender. Um chafariz sem água só a bica seca mas, parece que se ouve o pingar leve da água que escorria há muito, agora já não. Adiante um restaurante não, uma tasca, com alguns homens sentados calados meio adormecidos com uma cerveja, agora diz-se mine, vazia mas, que ali lembra que esteve cheia e foi bebida e agora não há dinheiro para outra. Amanhã talvez a mulher que ficou em casa a costurar para uma ou duas senhoras de uma rua mais adiante possa dar o que é preciso para uma cerveja que será bebida e ficará sozinha à espera do dia seguinte. Mais umas portas…mais umas janelas… mais umas lojas vazias… mais a minha Lisboa que está envelhecida à espera de amanhã.

    7. Muito bom, Afonso Reis Cabral, adorei! Alcântara mesmo, que também conheço. Parabéns!!!

    8. Não há quem escreva melhor do que tu sobre tudo o que observas
      Disse

    9. Gostei , comecei a ler só para ver que tal , pensando desistir de seguida . Mas fui envolvida até ao fim . . .

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