Uma rádio que respira e conspira em torno das causas sociais: assim é a Gabriela, experiência digital radiofónica nascida em resposta aos desafios da pandemia, movida pela energia de jovens portugueses e italianos, a pulsar a partir dos Anjos, o coração multicultural de Lisboa. Prestes a completar o primeiro ano de vida, a iniciativa segue atenta a problemas que perderam espaço nos média sem nunca deixarem de existir e que tornam o confinamento ainda mais dramático para uma parcela da população.

O estúdio da Rádio Gabriela funciona na sede do movimento Sirigaita e reúne na equipa ativistas de diversos quadrantes das causas sociais.

A Rádio Gabriela surgiu em março de 2020, durante o primeiro confinamento, como alternativa de mobilização virtual aos movimentos sociais de quadrantes diversos, como as redes de proteção às minorias e aos sem abrigo, contra os despejos e engajada nas lutas de género e feministas, dentre tantas outras, que, antes das medidas de restrição, se reuniam no número 12F da Rua dos Anjos, sede do coletivo Sirigaita, ainda o principal amplificador político da rádio.

“A ideia era não deixar que esse sítio de convívio, de conspiração política e cultura, dispersasse durante o confinamento”, conta uma das radio-ativistas, Laura Almodóvar. O nome da rádio, por sinal, é uma homenagem etílico-afetiva a um dos principais combustíveis das reuniões na sede do Sirigaita, a cachaça artesanal Gabriela, a bebida, assim como a célebre personagem de Jorge Amado, adocicada com cravo e canela. A canção de abertura da novela, na voz de Gal Costa, é o jingle oficial da emissora.

A canção da abertura da célebre novela, cantada por Gal Costa, é o jingle de abertura. E a ideia surgiu da cachaça artesanal que rodava no coletivo Sirigaita.

O formato eleito, o de uma rádio online, pareceu aos organizadores o mais apropriado para um projeto de geração espontânea, limitado pela falta de recursos financeiros e técnicos. “Os primeiros programas foram gravados em telemóveis, às vezes, com a qualidade precária, mas o importante era estarmos no ar”, lembra o italiano Franco Tomassoni, um dos responsáveis pela estrutura tecnológica da Gabriela.

Negacionismo e discurso de guerra

A rádio também permitia soluções mais simples de emissão em live streaming e contemplava uma das valências do espaço, o musical, abrindo o microfone para músicos de várias nacionalidades sem espaço nos alinhamentos tradicionais. “No início, a Gabriela operava em duas emissões semanais, em média, com debates gravados e as músicas do arquivo das bandas que se apresentavam no Sirigaita. Só a partir do segundo mês, começaram os programas em direto”, conta Franco.

Ouça aqui uma emissão, sobre uma música de Zeca Afonso:

Apesar da face musical da rádio, o gene político sempre foi o dominante. A meta, desde o início, foi desconstruir dois discursos frequentes na aurora da pandemia. “O primeiro, era o negacionismo, de que o vírus não representava um risco. O segundo, a metáfora de guerra, propagada oficialmente, como se estivéssemos todos no mesmo barco”, enumera Franco. Pesquisador do impacto de plataformas digitais como o Uber e o Airbnb na vida das pessoas, o italiano suspeitava que a sociedade poderia até estar à deriva no mesmo oceano, mas a bordo de embarcações de diferentes tamanhos.

Laura lembra que nenhum dos integrantes da rádio tem origem na área da comunicação, mas isso não impediu de o trabalho da Rádio Gabriela estabelecer parcerias com outros meios alternativos, como o jornal Mapa e a rádio Paralelo, e ainda tradicionais, como o Le Monde Diplomatique. “Conseguimos manter uma rede de colaboradores estrangeiros na América Latina e no Médio Oriente, na intenção de manter o debate sobre temas que não desapareceram com a pandemia”, explica, sublinhando as ameaças à democracia no Brasil ou as investidas armadas em Gaza.

A experiência vivida no período da pandemia permitiu à rádio estabelecer parcerias com outros coletivos e pessoas dispostas a construir novas rubricas, como as dedicadas a músicas, filmes e livros ligados a alguma forma de mobilização social, e até um bem-humorado serviço astrológico. O projeto mantém-se aberto a novas sugestões que garantam a variedade temática e cultura dos conteúdos, sempre em diálogo com as preocupações fundamentais da rádio.

Para o segundo ano de radio-ativismo, a Gabriela espera ampliar o engajamento, visando as eleições autárquicas que se avizinham. Nas presidenciais, a programação criticou a ausência nos debates de algumas questões, como a da habitação. “Não vamos nos posicionar politicamente, mas ao contrário das demais rádios, não seremos um média imparcial. Acreditamos que os temas da campanha certamente irão cruzar com as temáticas que nos são caras e vamos ter o papel que podemos ter”, explica Laura Almodóvar.

No atual cenário de dúvidas, uma certeza: a de que o ativismo continuará a tocar na Rádio Gabriela, mesmo após a série de confinamentos e a exigência de distanciamento social. “O projeto nasce com a pandemia, mas sobretudo nasce da necessidade de se criar um espaço comum entre varias realidades sociais, com a missão de representar um olhar crítico e transformador sobre o mundo”, reforça Franco.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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