O escritor e jornalista Rui Cardoso Martins com o livro de poemas de Mário Cesariny nas mãos: memórias de uma fase louca da sua vida numa pacata rua de Lisboa.

Nesta rua é possível ouvir-se o trepidar dos comboios a passar por Sete Rios, uma das bandas sonoras da estada do jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, assim que trocou Portalegre por Lisboa, no final dos anos 1980. O atrito das rodas de ferro com os carris, porém, não foi a única coisa que ouviu na rua Doutor António Martins. Os três anos em que viveu na via também foram de rock e poesia, uma passagem lembrada com o lirismo de uma boa crónica e um certo toque de magia.

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“Acho graça que agora este prédio esteja arranjado”, comenta Rui Cardoso Martins, apontando para o edifício de três pisos com a fachada pintada em creme. “Digo isto, pois, numa noite de tempestade, começou a chover em cima de mim. Subi para ver o que passava e o telhado acabou por desabar sobre a cama. Foi um bocadinho como aqueles sonhos em que a pessoa se descola do corpo e, do alto, fiquei a pensar que se lá estivesse tinha apanhado com o teto na cabeça”, recorda.

À época, o apartamento pertencia a um engenheiro de Portalegre e Rui, repórter do recém-inaugurado jornal Público, dividia-o com outros profissionais em início de carreira vindos do Alentejo. Ao contrário da agitação da vizinha estação de comboios, a rua Doutor António Martins era e ainda é uma pacata via de dois quarteirões, com uma das saídas limitada apenas a peões. “Ao todo, vivi em nove sítios em Lisboa, mas foi aqui que tive uma fase de aprendizagem, uma fase muito boa, mas também muito complicada. Muito louca”, resume.

“Ao todo, vivi em nove sítios em Lisboa, mas foi aqui que tive uma fase de aprendizagem, uma fase muito boa, mas também muito complicada. Muito louca.”

Rui Cardoso Martins, escritor e jornalista.

Entre as pessoas que viviam no apartamento estava o irmão do proprietário, o mágico Serip. “Que é Pires ao contrário”, revela Rui o truque, sobre o antigo roommate, que acabou virando personagem de um de seus livros, Deixem Passar o Homem Invisível (Tinta-da-China), vencedor do prémio APE 2009. “Um homem sonhador, um pouco louco, que andou pelo mundo a fazer mágica nos cruzeiros. Tinha um quartinho com os materiais de magia, as capas de Mandrake, e as flores que saltavam de copos. Fazíamos grandes espetáculos à noite, nas nossas festas entre amigos”, recorda-se.

Rui Martins lembra, inclusive, de um casting promovido pelo mágico para escolher a nova ajudante de palco que levou uma série de candidatas ao apartamento. E levou não apenas as beldades, mas também a polícia, intrigada com mais um dos truques do mágico, mal-entendido posteriormente resolvido. No mesmo endereço, ele e os amigos também tiveram que consolar Serip após um falhanço. “Ele teve o espetáculo cancelado, após se constatar que o seu principal número, que envolvia ovos e bolas de pingue-pongue, não se via além da terceira fila”, conta.

Poesia na varanda do apartamento

Na sua antiga rua, o escritor e jornalista também vivenciou pequenos golpes de sorte. Rui conta que vivia perdendo a carteira e, numa das vezes, quem a encontrou foi o realizador José Miguel Ribeiro, diretor de filmes de animação, como A Suspeita. “Estava aborrecido por tê-la perdido, quando ouvi entrarem no apartamento a perguntar se havia interessados em comprar uma carteira. Era ele, que a achara em Sete Rios”, conta. “Uma coincidência cósmica, pois ele tinha ido ter com um amigo meu. E foi assim que o conheci, quase lhe comprando a minha própria carteira”, diverte-se.

“Era sempre uma imagem imponente, aquele homem franzino, com um ar elegante, de príncipe, quase vampiresco, a fumar na janela.”

Rui Cardoso Martins, sobre o “vizinho” Cesariny.

Outro futuro parceiro de trabalho vivia no prédio em frente. “Ali, morava o Tó Trips, ainda antes de ser guitarrista dos Dead Combo”, aponta Rui. “Na altura, nós não nos conhecíamos, mas depois chegamos a trabalhar juntos, na série Sul”, lembra, sobre a produção de 2019 da qual foi guionista, cuja banda sonora era assinada pelo grupo do antigo vizinho.

Um pouco mais distante, na esquina com a rua Basílio Teles, Rui costumava cruzar com um dos grandes nomes da cultura portuguesa. “Vi várias vezes ali o Mário Cesariny, grande poeta e pintor”, conta, indicando o segundo andar do prédio. “Era sempre uma imagem imponente, aquele homem franzino, com um ar elegante, de príncipe, quase vampiresco, a fumar na janela”, recorda-se.

Rui Cardoso Martins e a varanda onde avistava o “vizinho” famoso, o poeta Mário Cesariny, entre cigarros e poesia.

A cena transportou-o para um outro momento do passado, quando assistiu a um sarau de Cesariny, na companhia do também poeta Al Berto. “Aprendi a gostar do Cesariny através da minha mulher, que é uma grande admiradora. E foi neste evento que o ouvi recitar um dos meus poemas favoritos, que se chama justamente Poema”, conta Rui Cardoso Martins, sacando da mochila um livro do autor. “Como estamos na rua e o poema tem a ver com ruas, vou ler um trecho.”

E foi assim, com a voz encoberta por ecos distantes dos comboios e de memórias ainda mais distantes, que Rui Cardoso Martins encerrou o passeio pela rua Doutor António Martins lendo em voz alta, em via pública, sob a janela do antigo vizinho, o seu poema preferido:


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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    2 Comentários

    1. Afinal sempre há, aqui, poesia…
      Ainda bem… não tinha ainda cá chegado.
      Muito interessante este roteiro.
      Abraço

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