Olá, vizinho/a

Esta semana o jornalismo está no centro da vida pública em Portugal – não é vulgar e nós, jornalistas, não costumamos gostar disso, dizemos que não devemos ser a notícia. Na verdade, há muito que somos, não só em Portugal, mas no mundo. A crise do jornalismo começou há uns bons 30 anos, e é concomitante, no tempo e nas causas, com a digitalização da sociedade. Desculpe, por isso, o tamanho deste e-mail. Há muito para dizer…

Em 1996, escrevi a manchete do Diário de Notícias que dava conta do primeiro site do jornal. Gratuito e acessível, obviamente. Sim, o mesmo DN que hoje tem salários em atraso e está numa crise de subsistência… há mais ou menos os mesmos 30 anos que nos distanciam dessa notícia.

Não é acaso: a gratuitidade online – muito justificada pelo acesso a novos públicos da internet – foi o pecado original. Do DN e de todos. Alguns conseguiram atalhar caminho e fazer-se pagar os sites. Mas isso apenas amenizou o problema causado pelo fim do modelo de negócio da publicidade, sem que houvesse outros, óbvios, a lançar mão. Os motores de busca, e depois as redes sociais, permitiram aos anunciantes ir buscar audiências de forma muito mais fácil e, diga-se, barata. E passaram a ser gigantescas, porque globais, agências de meios e publicidade. 

O jornalismo pecou, e muito, como barata tonta em presença de inseticida: a ilusão do tráfego, o falar para a bolha, más administrações, falta de estratégia, mau jornalismo…

É interessante que mantenha o poder que mantém. Talvez porque não se tenha descoberto um mais eficiente – e também porque o jornalismo é, de facto, uma função escrutinada e organizada à medida da democracia. Sua causa e efeito.

O valor e o impacto do jornalismo passaram a ser mais considerados do que o negócio – cada vez mais frágil – para investidores e privados que o tomaram em mãos. Uns, para bem e abnegadamente. Outros com uma espécie de filantropia ideológica – sobre as consequências disso, falaremos um dia. Os próprios estados o fizeram, percebendo esse valor, apoiando de forma regulada, em tantos países, e muitos deles liberais, como os EUA.

Mas os problemas não acabaram e são motivo de debate e discussão em congressos – o dos jornalistas é na semana que vem -, conferências e debates mundo fora. Andamos à procura da rolha.

Alguns estudos saíram recentemente, todos no mesmo sentido: para quem é o jornalismo que fazemos? No relatório do Reuters Institute sobre as tendências e previsões tecnológicas para 2024, muitos dos editores internacionais dizem achar que o jornalismo vai tentar “maneiras melhores de explicar questões complexas (67%), apresentar notícias que não apenas apontam problemas, mas oferecem soluções potenciais (44%) e produzir histórias humanas mais inspiradoras (43%)”

No relatório do Iberifier, ISCTE, “Tendências e Inovação” nos media em Espanha e Portugal”, os especialistas dizem que “as empresas estão cada vez mais cientes da necessidade de direcionar todos os processos (…) para as preferências do consumidor, colocando as pessoas no centro”. Com a vantagem de que dizem que a retenção de audiências dependerá do “forte compromisso com os valores jornalísticos”

Num estudo sobre Tendências da Estratégia dos Media, o professor da Universidade do Oregon, Damian Radcliffe diz que “a par dos esforços para alcançar e envolver novas audiências, as empresas estarão cada vez mais a tentar aprofundar relacionamentos com os consumidores existentes. Isso envolverá a criação de oportunidades para interação, diálogo e feedback, bem como iniciativas para compreender e atender melhor às necessidades e preferências do público”.

Se calhar tudo isto não chega. Mas é um bom princípio.

Nas manifestações desta semana de solidariedade para com os jornalistas, sentimos falta dos leitores, dos que usufruem do jornalismo – leiam-no ou não. A comunidade. A nós, jornalistas, cabe-nos saber que esta é uma profissão transitiva. Envolver quem nos lê. Ouvir. Ou, como diz o especialista americano Jeff Jarvis, “ajudar as pessoas a perceber como podem pertencer a uma comunidade positiva, de entendimento e empatia, como podem construir pontes”.

Construir pontes. É isso que tentamos fazer, na Mensagem. E, lá está, não o podemos fazer sozinhos. Contamos consigo. Contamos com todos. Para nos criticar, apoiar, desafiar. Na volta deste e-mail espero as vossas opiniões. Acho que é a isso que se chama democracia, não?

P.S.: Vemo-nos daqui a uns dias no Clube de Leitura de Lisboa, com a escritora Teolinda Gersão? Saiba mais e inscreva-se aqui

Catarina Carvalho

Diretora

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