
Boas festas, vizinho/a!
Algures em outubro, uma família italiana reuniu-se online, cada um na sua casa, cidade, até país, para combinar como poriam em prática as tradições de Natal este ano. Outra estava a pensar no sol que faria a 25 de dezembro, quando estivessem a comer rabanadas numa mesa em Luanda.
Estes são os nossos contos de Natal.
Na nossa redação, o Natal é declarado com uma conversa: alguém fala dos dias que vai passar fora, outro dos quilómetros que vai fazer… E, cada vez mais, na Mensagem, a época festiva serve para nos lembrarmos que nem todos partimos do mesmo ponto — embora acabemos sentados à mesma mesa. No almoço de Natal da equipa, este ano, isso tornou-se evidente.
Nunca fomos tão diversos.
À mesa, estava Silong Zhao, o nosso colaborador chinês – se leu a última newsletter, viu que ele contou sobre quando o Natal lhe foi proibido, na China. Estava também Sara Bassini, por esta hora de malas feitas para Itália, Veneza, para rever a família. E estava Katherine Fonseca, nascida em Londres, a caminho de Luanda, para quem o lugar onde se celebra o Natal é, todos os anos, uma incógnita.
Estavam também todos os outros jornalistas da Mensagem, vindos de cantos diferentes do mesmo país. E a história de todos os protagonistas das nossas histórias, ali no centro das nossas conversas, lembrando que o Natal não leva maiúscula para todos, que é feito de feijoada (e não bacalhau), de catos (e não pinheiros)… e como a magia do Natal pode começar nas mãos dos nossos vizinhos. Pode ler todas estas histórias aqui:
A Mensagem é, desde o início, um lugar onde as histórias não se contam por semelhança, mas por um grande sentido de escuta e de comunidade. Por isso mesmo, depois da história de Silong, quisemos trazer-lhe a da Sara e da Katherine, ambas a estagiar connosco. Leia aqui:
Uma cimeira familiar
Por Sara Bassini
O Natal da minha família é, desde que tenho memória, um pequeno pesadelo organizativo. A véspera, o dia de Natal e o Dia de Santo Estevão repartem-se por três casas, situadas em duas cidades diferentes. Além disso, desde que deixei de viver na minha cidade de origem, Veneza, juntaram-se as questões logísticas dos comboios e dos voos, comprados com meses de antecedência.
Curiosamente, as minhas recordações mais queridas do Natal não pertencem nem à minha casa nem à minha cidade. O Natal, para mim, é a casa dos meus primos, numa cidade fria e estranha — exceto por este lugar que se tornou o ponto fixo no mapa emocional da nossa família.
A organização das festas começa, há já alguns anos, em outubro, com a primeira cimeira familiar — rigorosamente online. É nesse encontro digital que se decide quando nos reunimos para fazer os tortellini para a véspera, tarefa que em tempos foi da minha avó.

Os tortellini — adaptados a todos os gostos e necessidades, de carne, de ricotta e espinafres, de abóbora, com e sem lactose — são sempre preparados em quantidade suficiente para encher os três congeladores da casa dos meus primos, como se a abundância fosse uma forma preventiva de garantir a continuidade da tradição.

Voltar a Itália para o Natal, para mim e para os meus primos, é uma espécie de regresso à infância — mesmo que o Pai Natal não apareça à meia-noite. Apesar de todos termos mais de 20 anos, empregos, diplomas e já uma relação amigável com o vinho, permanecemos eternamente confinados à “mesa das crianças”.
Há pão torrado com manteiga e salmão fumado, a salada russa da minha avó, o panetone salgado da minha tia, as vieiras no forno, as lulas em tinta com polenta e a salada de polvo da minha mãe. Se outrora os tortellini da minha avó surgiam impecáveis, hoje são irregulares, tortos, e nunca totalmente fiéis ao sabor original.
Ainda assim, é nessas imperfeições que se afirma uma nova forma de tradição, que se constrói coletivamente e se confirma, a cada dentada, numa frase inevitável: “não são como os da avó”.

Três países
Por Katherine Fonseca
Nunca passei o Natal duas vezes no mesmo sítio. Em vez disso, costuma ser dividido entre três cidades que me são muito queridas: Londres, Lisboa e Luanda.
Londres guarda as minhas primeiras memórias festivas. Trocas de postais de Natal, “crackers” na mesa e talvez umas 10 pessoas à mesa. Sem falar da neve ocasional.

Depois veio Portugal. Com mais família por perto, passávamos o Natal ou em Lisboa ou na casa campestre e chuvosa da minha tia Mena. Enfiávamo-nos em 4 ou 5 carros para as duas horas de viagem até Viavai, Coimbra, um refúgio tão tranquilo que chega a ser quase fantasmagórico. As tias cozinhavam, alguns primos punham a mesa e outros juntavam-se à lareira, a contar histórias, a jogar ao “Peixinho” e a beber chocolate quente. Sempre um Natal de camisolas de lã. Com quase nenhum sinal de telemóvel, tornava-se o melhor tipo de união familiar.

E agora há Luanda. Passar o Natal ao sol era estranho ao início, depois de tantos invernos, mas acaba por ser a recompensa mais relaxante depois de um ano longo. Sim, há dança! O Semba, o ritmo tradicional angolano que enche a noite até ao jantar ao pôr do sol.
O que nunca muda é a comida. Onde quer que vá, há sempre uma mesa cheia de doces portugueses, dos sonhos às filhós, com menção honrosa para as rabanadas!
Suponho que se possa dizer que tenho sorte.
Até breve,
A equipa da Mensagem de Lisboa










