Foto: Rita Ansone
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Olá, vizinho/a

Foi há uns anos que liguei o rádio do carro e ouvi a frase que me fez querer escrever esta newsletter. Pedro Ribeiro, da Rádio Comercial, leu no ar uma mensagem de um ouvinte de Alhandra, Vila Franca de Xira, onde moro há cinco anos. Falava-se de “terra” — não o planeta, nem a matéria castanha e tosca do solo, mas antes o sentimento que nos enraíza num lugar. E, entre risos, Pedro Ribeiro, diretor e locutor nas manhãs da Comercial, atirou: “Mas afinal, o que é que Alhandra tem?”

Nem sempre amei os lugares onde vivi — já foram vários desde que saí do Porto para trabalhar em Lisboa. Cheguei a uma capital onde a crise da habitação já era identidade, e isso pôs-me lentes racionais em vez de sentimentais na procura de casa: serve, não serve. Foi essa mesma crise que me trouxe até cá, a Alhandra — nome que ouvi pela primeira vez numa agência imobiliária de Alverca, entre propostas de T2 modernos com garagem a 400 euros mensais. Só havia um problema: eu não fazia a mais pálida ideia de que lugar era este. Alhandra. A mediadora, Cecília, sorriu e deixou o lugar falar por si: “Vá até lá um dia, passeie pelo passadiço junto ao rio, veja o prédio, o mercado, a Tijuca… e depois diga-me alguma coisa”.

Estava muito longe de imaginar que a Tijuca, uma pastelaria que aqui existe desde 1969, com mesas (poucas) de alumínio e (muito) balcão de vidro, faria de Alhandra aquilo que mais nada fez pelos lugares onde morei: casa. Uma casa onde o “senhor” Nelson, nortenho como eu, sabe que nata é nata — pastel, não chantilly. O cheiro a café é forte, a pastelaria fresca e variada, a faca da Idalina que barra a manteiga não descansa e a Lúcia fala dos filhos emigrantes enquanto serve um pampilho. No Natal, trocamos prendas. Quando a minha filha nasceu, também. Um dezembro inteiro foi salvo por eles — mas essa história fica para outro dia. Alhandra tem a Tijuca, Pedro. A pastelaria onde os bolos de aniversário, as bolas de berlim com creme e os pastéis de nata são uma marca muito séria.

No Porto chamam a isso família, em Lisboa chamam vizinhos, em Alhandra chama-se Tijuca.

Alhandra tem o mercado, Pedro. E no mercado, uma Rosa que floresce sem nunca tirar férias. A “dona” Rosa Catorze pendura poemas entre a fruta, oferece bananas às crianças, avisa quando o ananás não está no ponto, o feijão verde mole, os cogumelos no fim de vida, e arredonda sempre as contas para baixo. O “vai aqui um raminho de salsa” é um sussurro de generosidade depois da última pesagem.

Tem o Baptista Pereira, o primeiro português a atravessar o Canal da Mancha — herói discreto que atravessava o Tejo para ir apanhar fruta a Alcochete, que ensinou gerações a nadar, no rio, e que foi expulso da natação por recusar saudar Franco, ditador espanhol.

Foi amigo de Soeiro Pereira Gomes, neorrealista que lhe ofereceu fato, sapatos e lhe ensinou as primeiras letras. Ao lado da minha casa, uma placa lembra: “Aqui, Soeiro Pereira Gomes escreveu Esteiros”. Uma obra sobre a miséria das crianças que trabalhavam nos telhais para sobreviver, comandadas por um patrão que obrigava os adolescentes a desenformar tijolos ainda a escaldar-lhes nas mãos já calejadas.

Há também os pescadores — poucos, mas teimosos. Na ilha de casinhas cor-de-rosa estendem redes de pesca como quem estende bandeiras. O cheiro a peixe pela manhã lembra que isto ainda é terra de rio, mesmo com a A1 a passar atrás de nós.

E tem o Tejo, Pedro. Mas este Tejo é outro: este é montra das canoas e velas do Clube Náutico, e aqui disputa-se a Taça do Mundo de Paratriatlo. A nossa freguesia com cenário de aldeia enche-se de gente de todo o mundo, gente atleta, gente que faz o que só me parece “impossível”.

Alhandra tem atores, como Albano Jerónimo e Maria João Luís. Tem música e dança na Sociedade Euterpe, onde convivem gerações de três meses a 80 anos.

E tem vizinhos com histórias de cinema, como o “Jack”.

E tem peregrinos, tantos, que atravessam o passadiço vermelho como se fosse um fio que os pudesse levar a qualquer parte do mundo.

Mas, acima de tudo, Alhandra tem algo que Lisboa me negou: qualidade de vida. Serenidade. O compasso desacelerado. As famílias de sábado, entre bicicletas e piqueniques. Os varredores de rua com quem troco sempre, sem exceção, um “bom dia”.

Vejo tudo isto só espreitando pela janela. Moro na “Alhandra velha”, como lhe chamam. É como se estivéssemos divididos pela linha de comboio e o viaduto que carrega a A1: deste lado rio, a “velha”; do outro serra, a “nova”. Este lado, parou no tempo: há devolutos, casa sim, casa não, nesta terra onde a construção em altura se conta pelos dedos de uma mão.

Mas Alhandra está a mudar. A nuvem que me tirou de Lisboa começa a pairar por estes céus: nas imobiliárias já se fala em luxo, como quem anuncia uma mudança inevitável.

Para mim, luxo é um metro quadrado barato e um vizinho que dá os bons-dias.

Claro, também há tragédia nesta terra: as cheias que desfizeram famílias e moldaram as portas com barreiras de alumínio até hoje; os passeios estreitos, invadidos por carros; os cocós de cão a pontuar o caminho; e a nuvem cinzenta da Cimpor — a mais antiga fábrica do mundo em atividade, soube.

Prevejo uma guerra civil local: o terreno junto ao rio, hoje estacionamento de dezenas, será amanhã um Pingo Doce? Um condomínio de luxo? Eu cá gostava que fosse algo mais. Afinal, em Alhandra os vizinhos são federados em luta cívica. Essa, aliás, é uma história que a Ana da Cunha nos traz esta semana – e que me fez, finalmente, escrever esta newsletter.

Há 120 anos, a vontade de trazer a cultura para Alhandra fez um grupo de alhandrenses criar o Theatro Salvador Marques, por onde passaram nomes da cultura portuguesa. Esse lugar morreu, mas nem por isso desistiram dele – embora de forma mais… moderna: fazendo pressão através de páginas de Facebook. É o progresso a acontecer: de Garrett para Zuckerberg. E parece que, finalmente, a nova vida do teatro pode estar para breve.

Conheça a história aqui:

Talvez a pergunta de Pedro Ribeiro ainda faça sentido: o que é que Alhandra tem?
Mas se me perguntarem a mim, respondo: Alhandra tem memória. E isso, hoje, é coisa rara.

Até breve.

– Catarina Reis, editora da Mensagem de Lisboa


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