Podia ter sido vendedor de seguros, mas, quando ainda era paquete, a música segredou-lhe o caminho. Aos 15 anos, era o baterista dos Sheiks. Daí ao ecletismo musical, foi um salto. Manuel Paulo de Carvalho Costa nasceu na “fábrica”, mas cresceu em Alvalade. Foi lá que Carlos Leitão – um fadista e compositor que também é jornalista e que começa aqui este projeto de entrevistas com a Mensagem – conversou com o que muitos consideram ser o melhor cantor de Portugal.

Como é que se comemoram 60 anos de carreira com 78 anos de idade?

A partir dos 15. Não sei, eu sou muito mau a fazer contas, mas sinto-me bem, há algumas coisitas que são derivadas dos 78 anos de idade e desses 60 e tal que estão a passar, mas sinto-me muito bem; vivo num país de que gosto muito e que tem os defeitos, eu também os tenho, logo devo ter contribuído os da nossa terra, mas é um país culturalmente importante – assim nós consigamos cuidá-lo.

Já fizeste algum balanço da carreira?

É uma pergunta engraçada porque eu acho que nós fazemos balanços quase todos os dias, até sem querer. Eu acho que o balanço é positivo deste tempo todo que eu ando a levar com música, na música, e na vida pessoal. Eu não sou um em cima do palco e outro cá fora.

Estamos em pleno bairro de Alvalade, onde cresceste. Se não fosses cantor, o que é que tinhas sido?

Se tudo se tivesse mantido, eu teria sido empregado de seguros; depois, se fosse inteligente, teria de arranjar motivos para viver o resto dos anos com a reforma, interesses culturais e outros como tal. Até isso a música me trouxe: interesses diários, descobertas, livros. Eu acabei por entrar, através da música, num mundo apaixonante, e isso é o que me faz viver até hoje.

E sempre vivi muito os músicos com quem toquei, gente muito mais nova do que eu, e nós aprendemos muito com os mais novos.

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Paulo de Carvalho, 1974. Foto: site Casa da Música

O que é que difere esta Lisboa da tua menina e moça?

As coisas eram feitas mais devagar, isso tinha muita importância, tínhamos mais tempo para pensar, para estarmos uns com os outros, havia uma coisa da qual eu posso falar, e que hoje em dia é entendida de outra forma, que era a segurança que havia nas ruas; estávamos nas ruas às 3 ou 4 horas da manhã, à vontade, não havia os problemas que existem hoje. O mundo anda para a frente, dizem, mas de uma forma que não conseguimos controlar. Dantes havia malandrecos, mas não havia bandidos.

Ao teu amigo Fernando Tordo, ouvi-lhe numa entrevista dizer que a liberdade vem antes da democracia, e não o seu contrário. Além da visibilidade musical mais óbvia, o que te trouxe o 25 de Abril?

Trouxe-me a possibilidade de aprendizagem política, que até essa altura não existia para mim. Existia a música, existia o viver com as pessoas, a decência da vida, a seriedade que me foi passada pela família e que é uma parte importantíssima da nossa vida. A aprendizagem política comecei a fazê-la talvez no dia 26 ou 27 de abril (de 1974), saber quem era quem, o que é que se passava, partidos políticos, tudo. Até essa altura, ainda que já tivesse 24 anos, tinha a vida preenchida com outras coisas que eu gostava, sobretudo a música.

Ainda te apaixonas por Lisboa?

Eu estou cada vez menos em Lisboa, vivo em Paço de Arcos, e está tudo uma confusão muito grande.

Acho que Lisboa está maltratada, de um modo geral; é uma enorme confusão que não me agrada, embora continue a fazer alguma da minha vida em Lisboa, por exemplo em Alvalade.

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Paulo de Carvalho fala da relação dele com Alvalade. Foto: Mateus Santa Rita

A Baixa é um sítio lindíssimo, mas cansa-me imenso, e não tem nada a ver com carros; é o excesso de pessoas e, sobretudo, as pessoas que se maltratam umas às outras no dia-a-dia.

Imagina que recebes um visitante que vem a Lisboa pela primeira vez e tens de lhe traçar um roteiro entre as 9h e a 1h da manhã…

Há muita coisa para ver, há museus, lugares da cidade. Para já, preferia que começássemos a tomar um pequeno-almoço lá para as 10h ou 11h, sobretudo neste momento da minha vida em que eu já deixei de me levantar cedo para levar as filhas à escola. O pequeno-almoço seria numa das esplanadas do Terreiro do Paço; depois subíamos até ao castelo, devagar, talvez pondo um cotovelo, como diz a cantiga; almoçaríamos à beira-rio, o Tejo é importantíssimo para Lisboa, e nem vou falar da luz. Depois do almoço, e como o Tejo não faz sentido sem Almada, apanharíamos o barco e íamos até lá. Voltávamos ao final da tarde para ver o pôr do sol do rio e jantávamos numa casa de fados, mas tinha de saber quem estava a cantar nesse dia, sou muito exigente no que toca ao fado.

E o fado em Lisboa?

As pessoas precisam de ganhar a vida, as casas de fados precisam de ter turistas, e também precisam de ter pessoas que gostem de fados mais antigos. Eu também gosto, mas prefiro coisas mais modernas e novas, de certo modo, nem que seja de espírito. 

Como é que vês o fenómeno da imigração no tecido social e na própria dinâmica de Lisboa?

É complicado se não nos lembrarmos que somos um povo de imigrantes. Eu lembro-me dos anos 50, 60, em que íamos para a França e para a Alemanha, Canadá, Venezuela, Estados Unidos, tentar o que não tínhamos em Portugal. Portanto, não sou nada contra o facto de muitos povos virem para Portugal.

Acho que as coisas (quanto à imigração) estão mal organizadas, se calhar por conveniência de quem manda. Isto podia estar bem organizado e assim não estaríamos contra as pessoas que já fomos. Não sou contra, pelo contrário, sou a favor.

paulo de carvalho

Imagina que vais ao aeroporto buscar um imigrante que chega à Portela pela primeira vez. O que lhe dirias de Lisboa?

Dir-lhe-ia que os portugueses, quando bem-dispostos, são sensacionais, são um povo maravilhoso. O problema é a má disposição, em alguns casos, que no fundo é provocada. Lisboa é uma cidade muito bonita que é preciso descobrir, e ele próprio é que teria de a descobrir, com auxílio de alguém, mas teria de ser ele a descobrir a sua própria Lisboa.

Paulo de Carvalho tem um mural em homenagem a ele em Alvalade. Foto: Mateus Santa Rita

Ainda cabem os pregões, as varinhas, os cacilheiros e os cauteleiros na equação histórica da cidade, ou perdemo-los para o peso das fotos e das selfies?

Eu prego sempre que não sou um saudosista, mas nalgumas coisas apetece-me ser. Não é tão bonito ouvirmos um pregão? Todas essas coisas são bonitas, e acho que as deveríamos conseguir manter. Mas somos nós que não as conseguimos manter, e acaba por ser normal. A vida é feita a correr, ou nós fazemo-la a correr, e não temos tempo para parar e pensar. Os interesses que nos são manifestados são, muitas vezes, desinteressantes, e nós, de um modo geral, saímos enganados.

Completa a frase: O Ary dos Santos, o Carlos de Carmo e o Paulo de Carvalho entram num tuk-tuk na Baixa…

Duvido que o Ary entrasse com facilidade num tuk-tuk na Baixa, mas estavam reunidas as condições para se fazer uma cantiga sobre os tuk-tuks de Lisboa. Para o bem ou para o mal (risos), mas estariam. O Carlos cantava, eu provavelmente fazia a música, e o Ary falava, mas eu acho que ele não gostaria nada.

Qual é a tua melhor história de Lisboa?

Apetece-me falar dos tempos que vivíamos, e quando digo nós, era um grupo de gente, uns do cinema, outros da literatura, os da música, no célebre café Vavá, desde o nosso querido João Maria Tudela que mandava o bife para trás porque tinha pedido um bife com cinco batatas fritas e vinham seis ou sete, ou quando, na avenida de Roma, passeava o seu cão, um leão da Rodésia, o Chico Embo, e nós ficávamos sem saber se era o cão que o passeava a ele, se era ele que passeava o cão.

No Vavá tínhamos uma equipa de futebol, e tudo ficava ali, as taças que ganhávamos para não irem para a casa de ninguém; e depois o Sr. Petrónio, que era um dos donos, trocava-nos cheques, emprestava dinheiro, e a malta pagava sempre, acho eu, não tenho notícias de alguém que lhe tenha dado a boca.

paulo de carvalho

Que música portuguesa, que não tua, gostavas de ter sido tu a fazer?

Talvez o Porto Sentido, é uma cantiga maravilhosa, mas é injusto falar só de uma.

Sentes que os teus filhos te seguem as pisadas ou és tu que andas a aprender com eles?

Aprendemos todos uns com os outros. Tenho cinco filhos. Não sinto que os meus filhos me sigam as pisadas, ainda que possa parecer que sim, num caso ou noutro.

Sinto, sim, que os meus filhos me seguem os exemplos, que é a parte mais importante de tudo isto.

As novas gerações respeitam-te muito, sabes disso. A que se deve esse respeito? Há outros da tua geração que não o colhem.

Eu penso que há em mim a vontade de ser sério no que faço e no que sou, e acho que isso se nota, e as pessoas respeitam, mesmo os mais novos. Por outro lado, eu tenho uma forma de falar com o pessoal todo, mais novos e mais velhos, que é capaz de agradar à maioria das pessoas, e isso é meio caminho andado para um entendimento.

E depois do adeus?

Vamos ver, eu ainda me sinto com força para não pensar todos os dias no “depois do adeus”, só que às vezes há questões na nossa vida coletiva que fazem com que me apeteça ir para depois do adeus – e não é por questões artísticas, económicas, não tem nada a ver com isso, antes com questões que se prendem com a nossa vida social. Cada vez está mais difícil uns com os outros, na rua, em todos os lados, e isso não me agrada. Não sabemos viver uns com os outros, não agradecemos quando alguém segura à porta, não pedimos desculpa. Isto, a mim, bate-me. Gostava que fosse de outra maneira.


Só um é complicado, mas pode ser o Zé Varunca, em Paço de Arcos.

Um qualquer quadro do Picasso que pode ter uma leitura mais difícil para a maioria das pessoas, mas é isso que é giro, obrigar a pensar.

“Traz outro amigo também”.

Desculpem lá puxar a brasa à minha sardinha: “Lisboa, menina e moça”.

Com o Pat Metheny.

O amanhecer ou o entardecer, eu próprio tenho dúvidas.

Foram vários, e não necessariamente por ter ganho. Estamos a falar de futebol, como ele deve ser. Talvez um jogo com o Feyenoord, há muitos anos, golo cá, golo lá, e o Benfica acabou por passar a eliminatória.

A minha mãe, a mulher da minha vida.

… Queria ver se não acontecia.

“Refazer toda esta Lisboa”.


Carlos Leitão

Fadista e com amor ao Fado, Carlos Leitão é um cantautor, compositor e músico português.

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1 Comment

  1. Espanta-me que alguém com tanta sensibilidade, e de quem sou grande fã, ache que o problema da baixa é gente a mais e não carros a mais. Será que é por termos ruas que, afinal, não são assim tão largas, e 70/80% da sua largura está dedicada à circulação e/ou estacionamento de automóveis? E as dezenas de milhares de pessoas que por ali circulam a pé caminham por exíguos passeios de pouco mais de 1 metro de largura?
    Também me entristece a pressa com que nos cruzamos na rua. Mas, os sorrisos que vamos recebendo são recompensa suficiente para esquecer aqueles que não agradecem um qualquer gesto simpático da nossa parte.
    Bela entrevista!

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