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Olá vizinha, olá vizinho!

Esta semana finalmente o jornalismo e a sua crise estiveram no centro da política. Foi pena ter sido sugado por dois objetos que, de facto, têm pouca importância…os auriculares e as carteiras profissionais. 

Pormenores à parte, vénia ao governo de Luis Montenegro por ter encarado o problema de frente com o primeiro plano concertado no setor, leis e outros tantos milhões de apoios. Pateada por tê-lo feito de forma tão pouco interessante, e não falo apenas dos pormenores. 

Muitas destas medidas serão apenas pensos rápidos numa gangrena que já pede amputação. Algumas aceleram a ferida – como a retirada da publicidade da RTP. Outras levarão a fazer efeito – os descontos nas assinaturas (que podem ter como efeito o fechamento da informação de qualidade, deixando quem não pode pagar com o jornalismo tablóide). Outras poderão ser até prolongadoras da dor, como o porte pago de jornais em papel (papel?).

Nenhuma olha para o jornalismo do século XXI – caramba, 50 anos depois do 25 de Abril! – de forma despudorada, livre e imaginativa. O jornalismo como serviço público. Não é só na RTP, mas também é. Num país de media pobres como o nosso, a RTP tem ainda mais responsabilidades. Porquê retirar-lhe fôlego? Por que não dar-lhe mais o que fazer? Ideias? Uma incubadora de canais digitais, locais, de minorias, lugares recônditos, interesses específicos. Bolsas de inovação no jornalismo. Cobrir desertos noticiosos. Treinar ferramentas de Inteligência Artificial nos arquivos. Ser exemplo de integração da diferença. Ajudar novos criadores, albergar start ups, ser aceleradora de ideias… Tanto, tanto para fazer – e isto só no jornalismo.    

O que se pedia neste momento era, não vilipendiar a noção de serviço público, mas alargá-la a todo o jornalismo que respeita os valores humanistas e o código deontológico. Ter essa noção implicava, não afastar os privados do público, mas acrescentar uns e outros numa missão que é fundamental para a democracia. Que está antes da cultura e da educação – e não, não conta investir em literacia mediática, sobretudo não quando os media estão tão exauridos que já não fazem trabalho digno de analisar. Que tem de ser agregador e não divisor – num mundo polarizado, cada vez mais importante. 

Transmitir a ideia de que todos temos a ganhar com um jornalismo forte – o estado como um todo, as empresas e sobretudo os que se preocupam com os objetivos do desenvolvimento. Ou seja, cabia ao governo trazer todos para a discussão, “financiamento governamental, filantrópico, corporativo, a nível municipal, regional, local – ou investimento social, de impacto”, como dizia o perito em financiamento dos media, Sameer Padania, num post no Linkedn. Uma vez que o modelo da publicidade está corrompido, e os consumidores estão longe de pagar por ele o que ele custa.

Se o maior problema do jornalismo é “a falta de dinheiro ou a concentração de dinheiro nos lugares errados (por exemplo, proprietários corporativos amortizando dívidas)”, este plano não traz nada para resolver isto, “nada, apesar de meses e anos de clamor por uma estratégia.”

Este plano foge do financiamento público direto, mas porque não falar de fundos como os que a DGArtes distribui? O O Instituto do Cinema? É o jornalismo menos serviço público que essas artes?

Talvez não seja uma oportunidade perdida. Esta semana, a Mensagem esteve com outros meios “fora dos grandes grupos” no gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares onde o plano nos foi explicado e pedidas sugestões. Do lado da Mensagem vamos lutar por duas ou três coisas que consideramos importantes para reconhecer o trabalho que fazemos e que podem ajudar ao pluralismo dos media – como, por exemplo, o estatuto de interesse público. E que todo o apoio não se concentre no poço sem fundo dos grandes media.

Quando olho para a homepage da Mensagem, com a sua diversidade – de temas, ideias, géneros, origens, cores e idades – é só em serviço público que penso.

E veja se não tenho razão, nestes artigos:


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Até para a semana!

Catarina Carvalho

Diretora