Ava Vahneshan é iraniana e vive no Estoril. De pé à entrada da sua casa, resplandecente no seu vestido brilhante de concurso, capta a luz a cada movimento. O glamour é inegável, e ela mal consegue conter a excitação enquanto mostra mais do seu traje. “Estes são os saltos de 17 centímetros”, diz com um sorriso, levantando os sapatos altíssimos no ar. “Na verdade, dão-me confiança.” Ava está a preparar-se para o concurso Miss Universo, em novembro, no México, onde representará orgulhosamente a Pérsia – ou seja, o Irão, cujo nome não aparece no concurso porque as autoridades não autorizam.

O Miss Universo evoluiu. “Este ano, não há requisitos de altura, nem limite de idade. Pode ser-se solteira, casada, ter filhos ou até transgénero. Trata-se de diversidade e de quebrar barreiras”, explica. A própria Ava está a quebrar uma barreira significativa: é a primeira mulher iraniana a competir no Miss Universo.

É a primeira, pois só agora, com as recentes mudanças no concurso, foi permitida a participação de uma candidata do Irão, que não autoriza o uso do nome do país em competições dessa natureza. A alternativa foi a criação do título de Miss Pérsia, referência à antiga denominação iraniana.

Nascida e criada no Irão, Ava fez a mudança para Portugal quando tinha apenas 19 anos. Agora, com 26, persegue fervorosamente um sonho que lhe é querido desde a infância. Ava chamou pela primeira vez a atenção quando apareceu no The Voice Portugal como a primeira concorrente iraniana.

“Fiquei em choque”, admite, com uma mistura de descrença e orgulho na voz. Enquanto coloca delicadamente a sua coroa de Miss Pérsia na cabeça, olha para um espelho próximo, praticando diferentes poses, cada uma a refletir as suas esperanças e aspirações.

Ava já começou a preparação. “Bem, primeiro começa com três semanas de campo”, explica. “Todas as raparigas de 130 países reúnem-se, e vamos viajar, pois o concurso é no México este ano. Quando o espetáculo começar, haverá dois dias de competição. No primeiro dia, vamos desfilar em biquínis e com trajes nacionais”, elabora. Para a prova do biquini, perdeu 11 quilos nos últimos meses, rindo. “Não mais McDonald’s!”, diz, riso a ecoar pela sala.

Nascida e criada no Irão, Ava fez a mudança radical para Portugal quando tinha apenas 19 anos. Foto: Rita Ansone.

Nascida na cidade de Mashhad, no Irão, Ava reflete sobre os desafios que enfrentou ao crescer. “Mashhad é uma cidade religiosa, por isso tive dificuldades porque tinha sonhos diferentes. Queria ser atriz, cantora. Mas disseram-me que não podia seguir esses sonhos porque, no Irão, as raparigas não podem cantar.”

Apesar dessas limitações, o espírito de Ava permaneceu inabalável. “Participei no The Voice Portugal” Quando cantou na sua língua nativa, o seu som único surpreendeu todos.

“Ficaram todos chocados, tipo, que língua é esta?” relembra com um sorriso. “Após cinco segundos, uma cadeira virou-se, depois a segunda, e depois a terceira.”

A mãe, Nadia, entra na sala. O orgulho nos olhos de Nadia é inconfundível enquanto limpa as lágrimas, ao ver a sua filha no seu deslumbrante vestido.

“É sempre assim tão emotiva?”, perguntamos. “Sou”, confessa Nadia, com a voz trémula de afeição. “Sou professora de desporto, e normalmente sou muito rígida com os meus alunos, mas em momentos como no The Voice, não consigo evitar.”

Nadia partilha a história tocante da viagem da família do Irão para Portugal. Recorda a difícil transição, tendo chegado apenas 10 meses antes da pandemia de COVID-19 virar o mundo do avesso.

“Tudo mudou num só dia. A pandemia atingiu-nos com força, tornando o trabalho difícil. Durante um ano, quatro de nós vivíamos num pequeno apartamento sem janelas.”

Quando pergunto a Nadia por que decidiram deixar o Irão, ela explica as dificuldades económicas que enfrentaram.

“Todos os dias, o valor do nosso dinheiro diminuía; era muito difícil.” Contudo, apesar dessas adversidades, Nadia sorri. “Conseguimos. Aleluia.”

E olha para as roupas glamorosas da filha.”Tudo o que ela veste é lindo, mas mais do que a sua beleza exterior, é o seu coração que brilha”, diz Nadia, com os olhos a brilhar de orgulho.

Ava: “O Miss Universo é uma grande plataforma, e quero usar esse poder para inspirar os outros.” Foto: Rita Ansone.

Ava posa para as fotografias no desafio de andar nos paralelepípedos portugueses com saltos altos. “Oh, já estraguei tantos pares de saltos ao ficarem presos nas pedras. Tudo se resume a prática, sinceramente.”

“Lembras-te do primeiro dia em Lisboa?”

“O meu irmão foi buscar-nos quando chegámos, e eu estava a olhar à minha volta, a perguntar-me se este poderia ser o meu segundo lar. E agora, posso dizer com confiança que sim”, reflete. “O que mais gosto de viver em Lisboa é a natureza, a paz e as pessoas gentis. Há sempre alegria no ar. Mesmo sendo de outro país e cultura, nunca me senti sozinha aqui.”

E se vencer o Miss Universo, o que vai fazer a seguir? “Quero encorajar e elevar o maior número de pessoas possível,” responde Ava, com a voz cheia de determinação. “O Miss Universo é uma grande plataforma, e quero usar esse poder para inspirar os outros.”

“Houve muitos contratempos e desilusões na minha vida, mas aprendi que são apenas lições. Por isso, quero que todos saibam – nunca desistam.”

E com esse poderoso sentimento, Ava, afasta-se, com os saltos altos na mão, incorporando a graça e a força de uma verdadeira candidata a Miss Universo.

Ava: “O que mais gosto de viver em Lisboa é a natureza, a paz e as pessoas gentis. Há sempre alegria no ar.” Foto: Rita Ansone.

Rita Ansone

Stephen O'Regan

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