Já muito boa gente ouviu contar que o escritor norte-americano Paul Auster comprava em Lisboa, numa papelaria perto da Calçada do Combro, uns cadernos azuis em que anotava ideias para os seus romances; talvez muitos não saibam é que escreveu um pequeno livro delicioso sobre a importância das coincidências num certo período da sua vida chamado O Caderno Vermelho (leiam-no!).

Do mesmo modo, é do conhecimento geral que Amália Rodrigues foi a maior fadista que Portugal conheceu; são, porém, relativamente poucos os que sabem que ela era também uma excelente letrista, tendo saído da sua pena mais de setenta poemas, alguns dos quais belíssimos, como é o caso de Estranha Forma de Vida, escrito para a sua irmã Celeste mas depois cantado pela própria Amália na melodia do Fado Bailado, de Alfredo Marceneiro.

E eis porque lembrei Paul Auster no início: é que essas letras de Amália, que estavam dispersas em folhas soltas, foram sendo copiadas diligentemente por alguém nuns caderninhos vermelhos; mas a versão que viria a ser comercializada em livraria, intitulada apenas Versos, foi levada à estampa pela editora Cotovia com uma capa azul.

O responsável pela primeira edição destes Versos (assim se chama o volume), em 1997, foi Vítor Pavão dos Santos – biógrafo e amigo da fadista –, que assina uma pequena nota inicial e outra final; hoje, porém, é ao musicólogo Rui Vieira Nery que cabe acompanhar as reedições do livro.

E o que nos conta ele num post do Facebook? Que, durante todos estes anos (mais de vinte e cinco, calculem!), os Versos de Amália circularam com um poema que, afinal, não foi escrito por ela.

Copiado com a sua letra talvez com o intuito de posteriormente o cantar – e passado indevidamente para um dos caderninhos vermelhos como mais uma letra sua –, esse poema, com o título «Tenho Dois Corações», é, afinal, de Pedro Homem de Mello e pertence a um livro de 1948 intitulado Miserere, no qual também figuravam os poemas que deram origem aos míticos fados Povo Que Lavas no Rio e O Rapaz da Camisola Verde.

Se alguém deu por isso antes, ficou calado; mas o mais provável é que ninguém se tenha apercebido de nada, até porque – justiça seja feita – o poema-intruso não destoa em nada do conjunto de letras da nossa Amália.

Porém, o que é mesmo bonito nesta história é que quem nos dá conta desta descoberta é justamente Rui Vieira Nery, que dá a mão à palmatória, confessando abertamente não ter identificado a autoria de «Tenho Dois Corações» e agradecendo a Luís Manuel Gaspar – o organizador da poesia completa de Homem de Mello cujo primeiro volume foi recentemente publicado –, sublinhando que é sempre bom aprender «com quem sabe mais do que nós».

Grandeza de carácter que merece um aplauso tal como o melhor fado.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.


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