
“Quando cheguei, aqui não havia nenhum destes prédios e aquela estrada era terra”. Mamadou Bah aponta para o terreno junto à futura mesquita que está a ser erguida na Tapada das Mercês. Tem 54 anos, este guineense que já chegou aqui há 30, e cuja história de vida está entretecida com a da comunidade imigrante desta urbanização de Algueirão-Mem Martins, a freguesia com mais população do país, e também uma das mais jovens e diversas.
Vindo da Guiné-Conacri, Mamadou conta que chegou a Portugal em 1989, aos 17 anos e sozinho. Viveu primeiro em Alcântara e começou por vender peças de artesanato africano no Rossio. “Era um bom negócio”, recorda. Não tinha competição e começou a viajar pelo país, a fazer as suas vendas até nas principais feiras de artesanato. Na antiga FIL, na Exponor, no Porto, tendo ido mesmo a Paris.
Foi em 1993 que acabou por mudar-se para a Tapada das Mercês, onde cinco anos depois nasceu o seu filho. Essa mudança levou-o a procurar um papel mais interventivo na comunidade. “Nós somos muçulmanos e seria bom termos algum sítio para nos podermos encontrar no fim de semana e ensinar a cultura islâmica aos nossos filhos”, conta.
À sua volta, começava a congregar-se uma pequena comunidade e não havia um lugar de culto. Arrendaram uma garagem de portão verde, em 2007: foi o primeiro passo de uma ideia que, mais tarde, viria a juntar milhares de pessoas da freguesia. Foi a Mesquita da Tapada das Mercês, até hoje sempre “provisória” – como tantos outros locais pelo país fora, numa altura em que a comunidade islâmica cresce em Portugal. Vão sendo improvisados, em lojas, dentro de centros comerciais, em espaços públicos.
Na Tapada das Mercês, numa garagem.
No bairro da Mouraria, em Lisboa, há muito que se reclama por um lugar de culto digno para uma comunidade islâmica de milhares. Em 2012, anunciava-se a construção de uma praça coberta e de uma mesquita, na Rua do Benformoso. Este projeto, apesar da vontade da comunidade local, continua sem concretização à vista.

Uma mesquita “provisória” durante 15 anos
Nos primeiros anos, a comunidade islâmica crescia lentamente e a garagem servia perfeitamente. “Éramos muito poucos, uns 40”, conta Mamadou.
Mas, passo a passo, foi crescendo, à medida que a urbanização se erguia em torno da estação das Mercês, na linha de Sintra. Sobretudo a partir dos anos 90.
Foram muitas as pessoas migrantes que aqui encontraram casa e hoje a Tapada é um “caldeirão de culturas”, com pelo menos 27 nacionalidades. Aos que chegaram vindos de países africanos como a Guiné, o Senegal, ou a Gâmbia juntam-se hoje pessoas vindas de países da Ásia, como o Bangladesh, a Índia ou o Paquistão.

A comunidade islâmica cresceu 47% em Sintra, só na última década. Segundo o recenseamento de 2021, 4.243 pessoas identificaram-se religiosamente como muçulmanas. Na freguesia de Algueirão-Mem Martins, residiam, há dois anos, pelo menos 651 pessoas que se declaravam como muçulmanas.
Ao entrar na garagem, a agenda digital afixada na parede dá conta da hora das cinco orações diárias. O espaço divide-se em dois como é a tradição: de um lado, homens, do outro, mulheres, com uma divisória pelo meio. Os sapatos ficam à porta e lá dentro há um espaço destinado a lavar os pés. O crescimento da comunidade fez deste lugar um espaço inadequado. “Precisávamos de um espaço digno para fazer o culto”.


Segundo Mamadou, de segunda a sexta comparecem na pequena mesquita uma média de 40 pessoas para a oração. À sexta-feira, o principal dia, uma média de 300 pessoas marca presença e é habitual não caberem todas lá dentro. Nesse caso, a oração também se faz cá fora – os tapetes são estendidos no asfalto.“Chegamos a ser 700 pessoas”, conta Mamadou.
Uma nova casa, ecumenismo e diversidade
E então, começaram os planos para a nova casa. No início não havia terreno nem dinheiro, mas havia vontade e “insistência”. Foi “um processo muito complicado”, não esconde Mamadou. A Câmara Municipal de Sintra garantiu, em 2012, quando Fernando Seara presidia à autarquia, um terreno para a construção e finalmente parecia que a comunidade ia ganhar um espaço de oração digno. Mas nem tudo aconteceu como se previa. As obras esperaram até 2018, mas a perda do apoio à construção prometido por algumas embaixadas de países islâmicos colocou tudo em causa.
Sem fundos próprios capazes de garantir a conclusão das obras, os trabalhos pararam. A solução chegou através da parceria com a Fundação Islâmica de Palmela, em 2021, explica Eduardo Quinta Nova, vereador da Câmara Municipal de Sintra com o pelouro da solidariedade e inovação social. A ideia de associar à futura mesquita e espaço comunitário a construção de uma escola privada sob preceitos islâmicos mas aberta a toda a comunidade – a International School of Sintra – possibilitou o retomar do projeto.
“Se tudo correr bem, em março estamos lá, se Deus quiser”, diz Mamadou.
O vereador da Câmara Municipal de Sintra acredita que as alterações ao projeto vieram “enriquecer os objetivos: garantir instalações à associação para a criação de um espaço de culto com dignidade e de um espaço de respostas sociais”, agora “engrandecido com o alargamento à educação”. Será “um centro comunitário com várias valências”, diz. Inclusivamente uma cantina social.
A nova mesquita vai ter capacidade para receber 1200 pessoas às horas de oração e, garante, Mamadou, dará nova dignidade, também, ao papel da associação na comunidade da Tapada das Mercês.

Acolher quem chega e trabalhar “para o bem comum”
A intervenção no tecido social da comunidade é muito importante para Mamadou. No prédio ao lado da mesquita, a associação já tinha dois pisos dedicados à resposta social, que ajuda na mudança de vida de pessoas acabadas de chegar ao país, com dificuldades acrescidas, não só pela estranheza das caras e da cultura, mas pela dificuldade básica da língua.
O próprio sabe o que lhe custou e sabe que falta apoio a quem pisa território desconhecido.
Um dos principais eixos de atuação da associação é, por isso, o apoio através do Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), orientado para a complicada navegação das questões relacionadas com a regularização da situação de quem chega ao país, autorizações de residência. “Quando um imigrante chega, o primeiro passo é a documentação. Sem ela, nada feito”.
Aqui, todos os que chegam são ouvidos. A língua, uma das maiores barreiras para quem chega a um novo território, aqui não é problema. “Um fala bengali, o outro fala crioulo, o outro fula [língua senegalesa]. Aqui, falamos todas as línguas e conseguimos saber aquilo de que o meu amigo precisa”.

Mas cada vez mais frequentemente aqui chegam pedidos de ajuda relacionados com a crise da habitação.
“Estão a pedir mil euros por um apartamento, se é que aparece. Um quarto são 400 e tal euros. Muitos imigrantes não sabem procurar na oferta que a Câmara de Sintra tem e a associação encaminha quem procura ajuda para as respostas existentes.“
O trabalho é feito “em rede, para o bem comum”, num esforço que junta a associação islâmica à Câmara Municipal de Sintra, à Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins e várias outras entidades. A associação é islâmica, mas a sua resposta chega a todos e isso vale-lhe um especial reconhecimento por parte da população local. Em 2013, a associação foi distinguida pelo seu trabalho na integração da comunidade migrante com o prémio de boas práticas Silver Rose Awards, atribuído pela rede europeia de organizações de justiça social Solidar.
Em 2022, apoiaram 3615 pessoas, num alcance total de mais de 72 mil pessoas, segundo o relatório de atividades. Com apenas três técnicas, 32 pessoas voluntárias e seis estagiárias.
Também por tudo isso, a associação islâmica é aqui ponto de encontro – um verdadeiro “espaço comunitário”, como se lê por cima da porta, sempre aberta e com entrada pela Avenida Miguel Torga, a principal e mais movimentada rua da urbanização a Tapada das Mercês. Por aqui entram, todos os dias, caras conhecidas e desconhecidas, todas em busca de qualquer coisa – de apoio à navegação na burocracia, a procurar dominar a língua portuguesa, a linguagem dos computadores ou apenas de conversa.

Sempre que fala do trabalho desenvolvido, Mamadou não contém o sorriso, de orgulho, que tenta esconder das câmaras. No início, protege-se. Por representar uma comunidade islâmica num país predominantemente católico? Por já ter levado com muitos preconceitos? Tudo isso ele afasta e rapidamente dá lugar ao sorriso, que é sublinhado sempre que fala das conquistas e reconhecimentos da associação.
“Aqui fazemos tudo e mais alguma coisa. Damos língua portuguesa e alfabetização”. Há aulas de inglês, de francês e informática e apoio escolar a dezenas de jovens. Num protocolo com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), promove a realização de formações com certificação, e a integração de migrantes no mercado de trabalho.
Aqui foram recebidos refugiados da Síria e, mais recentemente, da Ucrânia. E trabalha-se com o Banco Alimentar e com grandes superfícies de retalho alimentar da zona – numa ajuda que hoje chega a 212 pessoas, das quais 62 crianças, num total de 73 agregados familiares.
“Estamos aqui por um bem comum, para responder às necessidades da comunidade, independentemente da religião ou etnia. Neste espaço, temos todos a mesma cabeça, o mesmo cabelo, não há divisão”
E assim o mostra a aula de português a que assistimos, com pessoas de várias idades, proveniências e orientações religiosas. A associação também é a casa da Rádio Sintoniza-T, uma rádio local e comunitária que fala seis línguas e existe para ultrapassar a barreira da língua e informar pessoas migrantes.

A “inteligência de ter a porta aberta”
Inês Real é uma de três técnicas a trabalhar na associação a tempo inteiro, coordenando o projeto Escola-Família, que oferece apoio escolar a jovens e dá, simultaneamente, apoio às suas famílias, através de sessões mensais familiares.
“Para as crianças estarem bem, os pais também têm que estar. Está tudo interligado. O sucesso escolar dos miúdos está diretamente associado à sua estabilidade emocional e a sua estabilidade emocional passa muito pela estabilidade da família”. Inês tem 26 alunos inscritos que vêm à associação de segunda a sexta, em horários diferentes. A composição de cada uma destas 26 famílias é heterogénea – entre famílias portuguesas e famílias migrantes já regularizadas e com a sua situação em processo de regularização.

O sentimento de trabalho realizado convive com a frustração de “não conseguir fazer tudo aquilo que queremos”, diz Inês. Os resultados não acontecem logo e há obstáculos, desde logo no financiamento da atividade a longo prazo. “Os próximos anos são sempre uma incógnita”. Tudo depende das candidaturas particulares.
“A frente da casa pode cair, mas o gabinete de apoio ao migrante não pode, até porque é um bocadinho reflexo das pessoas que a constituíram”, diz Inês, referindo-se também a Mamadou. “Elas próprias tiveram o seu percurso, as suas barreiras e a regularização é muitíssimo importante”.
Com a mudança, em breve, para o novo centro comunitário, Inês explica que as respostas serão as mesmas, mas as condições físicas e materiais vão melhorar. “As pessoas vêm geralmente com este foco: ‘eu preciso de aprender a língua’, ‘preciso de arranjar um emprego’, ‘preciso de uma casa’”.

Inês defende que o trabalho desta associação, abrindo-se a toda a comunidade, terá contribuído para transformar a ideia que as pessoas por aqui tinham da comunidade islâmica.
“A forma como souberam abrir a porta a todos, ajudar todos, convidar todos e não fecharam a porta a ninguém, é visível. Acho que também pretende dar um bocadinho aqui a quem quiser conhecer, dar um bocadinho essa abertura do que é esta comunidade. Passa muito por ter esta porta aberta para todos, pela inteligência de ter esta porta aberta”, explica.
O sucesso no difícil caminho para a construção do novo centro comunitário e da nova mesquita, agora quase percorrido, deve-se à perseverança de Mamadou e da comunidade islâmica local, mas também ao papel da autarquia e outras entidades parceiras.
Eduardo Quinta Nova ressalva o papel do atual presidente da Câmara, Basílio Horta, e lembra que apoiar comunidades migrantes “não é pacífico junto de muita gente”, mas, lembra, “não há outra forma de fazermos a integração e termos paz nos nossos territórios que não seja através da inclusão efetiva”.
*Esta reportagem foi feita em colaboração com Nilene Lopes da Veiga, residente na Tapada das Mercês
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
✉ frederico.raposo@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
