Descobrimos a geladaria Lumi numa reunião de redação. Dizia-se que lá se provava um gelado com sabor a bolo rei. Mas essa não era a história principal deste lugar: os sócios desta geladaria em Benfica estavam a preparar-se para ir em missão de voluntariado para São Tomé e Príncipe no final do mês de fevereiro.
Um enfermeiro formado, outro um diretor de recursos humanos, que a partir desta casa de gelados em Lisboa arquitetaram uma missão do mundo.
Um diretor de recursos humanos, um enfermeiro e o sonho de uma geladaria
Luís Antunes e Miguel Pereira moram em Benfica e queriam abrir uma geladaria ali no bairro que é o deles.
“Eu era diretor de recursos humanos numa empresa de software e o Miguel era enfermeiro no bloco operatório de urgência do Hospital de Santa Maria. Dizíamos com frequência um ao outro que um dia íamos fazer algo que nos desse, realmente, prazer. Tanto eu como o Miguel gostávamos de comer e fazer gelados de tempo em tempo.”

Depois de muita procura, surgiu a oportunidade de alugar aquele espaço que até então tinha sido de uma agência imobiliária. Viram esta vaga como um sinal para deixar as carreiras para trás e seguir o plano B, que era o sonho dos dois.
A Lumi, nome que é uma conjugação de Luís e Miguel, abriu em agosto do ano passado.
Para os que possam ter uma memória mais antiga de Benfica, a geladaria está no rés-do-chão do edifício construído por cima do terminal dos elétricos que passavam no bairro. Quase em frente à Igreja de Benfica. Miguel descobriu isto, ao acaso, quando visitava uma exposição de fotografias antigas do bairro de Benfica no Palácio Baldaya. Reconheceu o prédio verde escuro no fundo da imagem:

Enquanto ponderavam se seria prudente largar tudo para abrir um negócio próprio, os dois foram fazendo formações em escolas de gelados artesanais e italianos. De Lisboa, partiram para pontas opostas: o Miguel para o Porto e o Luís para Portimão, ambos atrás da receita perfeita de gelado e para perceber como ter receita financeira nos meses de inverno.
Voltaram cheios de ideias.
Até a ordem pela qual produzem os gelados está pensada, neste caso, por cor: primeiro os sorvetes, começando no mais claro (normalmente o limão, depois a laranja, o maracujá e por aí fora, até chegarem ao morango e aos frutos vermelhos). Depois seguem-se os gelados com leite, para não haver risco de contágio, ao gelados vegan e sem lactose, seguindo a mesma regra da paleta de cores.
“Aprendemos a encontrar o balanço do ponto de vista do leite ou água, gordura, tipos de açúcar a colocar. Não pode ficar nem muito líquido nem muito sólido.”





Ainda que a receita tenha começado nas escolas de gelados artesanais italianos, decidiram que um dos ingredientes para os gelados a vender em Benfica seria a portugalidade – para se afirmarem como um geladaria, em vez de gelataria, à moda italiana (embora também aceite no dicionário português). Essa portugalidade vive nos sabores de gelados, como o de bolo rei, bolo rainha, pastel de nata, anona e ovos moles. Mas também nas fardas, que são de marcas portuguesas, e em muitos equipamentos que foram comprados em Portugal ou mesmo no bairro de Benfica.
“Muitos materiais que nós temos, da parte de cafetaria, comprámos aqui no mercado de Benfica. As louças são das Caldas da Rainha. Procurámos ter muito esta portugalidade nos nossos produtos. Também os nossos ingredientes, tirando as frutas tropicais, são nacionais e a maioria são comprados no mercado”, contam.
Querem ser sustentáveis e próximos. E encontram-no no esforço por diminuir a pegada ecológica, utilizando luzes LED, comprando localmente, usando materiais reciclados e recicláveis e até nas as colheres de prova que são de metal em vez das comuns de plástico.
Mas também querem ser inclusivos. Por isso, são um estabelecimento pet friendly, onde os animais de companhia também entram e comem: há um gelado para cães – também sugerido a diabéticos e crianças pequenas (não fosse ele feito de apenas avelã ou amendoim sem açúcar).
“Se as coisas estão a correr mal, se há stress, vêm à Lumi e tudo melhora depois de um gelado. E a verdade é que nada pode ficar pior depois de comer um bom gelado, não é?”
Qual o “sabor da infância”?
Outro sabor diferente na Lumi é o “sabor da infância”, um gelado criado durante uma das formações destes sócios, a pedido do professor – que lançou o desafio de criarem um gelado original que se tornasse a assinatura da futura geladaria. Luís e Miguel debateram-se sobre o que criar, até que o sabor que lhes marcou a infância surgiu: as papas infantis. O gelado leva bolacha maria, laranja e banana.
Uma geladaria com uma missão maior
Uma mulher entra na geladaria, não atenta à montra comprida, para decidir que gelado provaria hoje, mas para deixar uma encomenda especial: na mão traz um saco de plástico que coloca dentro de uma caixa de cartão improvisada que lá estava.
— Ó Luís, então não é que eu fui ao supermercado comprar as escovas e pastas de dentes infantis e só quando já estava a chegar a casa é que me lembrei de que as pastas de dentes podem explodir no avião!
O que traz vai viajar vários quilómetros. Porque Luís e Miguel fizeram da geladaria uma espécie de quartel-general de operações para um missão maior do que vender gelados: o que recolherem da caixa de cartão, onde os clientes podem colocar doações como produtos de higiene infantis e roupa de verão, será levado por eles para São Tomé e Príncipe, na última semana de fevereiro.


É a segunda missão de voluntariado que fazem. “As pessoas tendem a confiar mais nas associações quando conhecem quem está a fazer a recolha dos donativos. Quando sabem que as coisas vão passar diretamente das nossas mãos para as das crianças. Já recebemos donativos em numerário de amigos e fizemos questão de ir comprar as coisas e apresentar-lhes a fatura discriminada no final”, explica Miguel.
Vão ligados à associação Amwêlê que trabalha com sãotomenses em áreas como a educação, a saúde e o fortalecimento da comunidade – e é mesmo por isso que os donativos são de kits de higiene e roupa de verão para criança. Há também outro braço da associação que permite “apadrinhar” uma criança com um kit escolar no inicio de cada ano letivo.
No ano passado, Luís e Miguel já tinham ido na mesma missão com um grupo de 14 voluntários. Na companhia aérea que escolheram, é permitido levar duas malas de porão e uma de cabine. A de cabine vai com roupa e as outras duas vão cheias de produtos doados e recolhidos por todo o país.
A caixa tinha sido colocada no dia 15 de janeiro e, quatro dias depois, já enchia com donativos de clientes e amigos. Para que a solidariedade de Benfica não passe despercebida no mundo.
A caixa de donativos vai ficar na geladaria até dia 10 de fevereiro. Procuram produtos de higiene infantis, como escovas e pastas de dentes, sabonetes de glicerina, chinelos de criança, roupa de verão para crianças, roupa interior, entre outros.
A Lumi funciona no número 733C da Estrada de Benfica, de terça a sexta-feira, das 12:00 às 20:00, e fins de semana das 11:00 às 20:00.

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