Com 18 anos, a artista Marta Miranda morava na Costa de Caparica e apanhava todos os dias o cacilheiro em direção a Lisboa, onde estudava teatro no Chapitô. Nesses dias já longínquos, cruzava-se sempre com Leopoldo, um marinheiro da sua idade.  “Dizíamos sempre: ‘olá, olá, olá’. Andámos a dizer olá durante 20 anos.”

A fadista dedicou-lhe a música que abre o seu novo álbum, “Uma Mulher na Cidade”, que ganhou o “German Record Critics’ Award”:

“Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro
Dedicado companheiro
Pequeno berço do povo
E navegando
A idade foi chegando
Ai… O cabelo branqueando
Mas o Tejo é sempre novo”

É sobre essa viagem da Margem Sul para a Margem Norte que Marta mais canta. E sobre Cacilhas, o lugar de partidas e de chegadas. “Eu olho para Cacilhas e é a porta para o sul, porque está a dez minutos da Margem Norte.”

Marta Miranda Cacilhas
A música “O cacilheiro” abre o novo álbum de Marta Miranda. Foto: Líbia Florentino

As primeiras memórias de Almada

Há 30 anos que Marta vive em Almada, essa cidade que tem a sua idade (50 anos), fazendo de Cacilhas o ponto de contemplação sobre a Margem Norte.

Marta Miranda Cacilhas
Marta visitava Almada com a avó, que aqui vivia. Foto: Líbia Florentino

Mas Marta nasceu do outro lado, em Lisboa, em Arroios. Desta outra margem, guarda memórias das visitas à casa da avó, na Costa de Caparica. Desses tempos, recorda-se sobretudo do “mini da avó”, das “feiras dos ciganos” e da “grande avenida” de Almada.

De Lisboa, migraria para o Alentejo e para o Algarve. A mãe, educadora de infância, era transferida para o Sul do país.

Ainda que Almada continuasse a ser morada da avó, foi na adolescência que Marta começou a despertar para alguns dos seus encantos, como o teatro.

Mas só aos 18 anos é que a cidade passou a ter um novo significado, quando veio estudar teatro para o Chapitô. Aí, Cacilhas tornou-se a porta para um novo mundo: o mundo do teatro e da criação artística.

“Com 18 anos, Lisboa é a cidade, e este porto para mim era a liberdade.”

O cacilheiro que parte para a noite de Lisboa

Um sentimento que pouco mudou. “Atravessar o Tejo é tudo”, diz Marta. E é essa sensação, de viajar pelo Tejo rumo a Lisboa que ecoa no seu novo álbum: “O Cacilheiro abre o disco.” É que é chegando a Lisboa que tudo entra em ebulição e Marta envereda pela vida noturna, vadiando por essas ruas da capital, nas quais descobriu o fado nos seus tempos de estudante.

“Eu sou uma vadia, e este é também um disco de vadias, sobre o direito da mulher ser vadia e andar pelas ruas à noite. Não ter medo. Por causa do corpo, do espaço público, de toda essa conversa.”

Este álbum foi aliás realizado em parceria com músicos que Marta foi encontrando na noite de Lisboa. Essa noite que muito contribuiu para se afirmar enquanto artista, e que a levaria, anos mais tarde, a abrir espaços como o Incrível Club, em Almada, ou o TascaBeat, em Alfama – entretanto encerrados.

Incrível Club Almada fadiagens Marta Miranda
O Incrível Club, em Almada.

Mas, apesar de aos 18 anos ter vivido intensamente Lisboa, a ideia de aqui se fixar permanentemente demorou anos a surgir.

Antes de assentar, Marta ainda trabalhou como atriz, saltando de cidade em cidade, uma nómada na vida e na arte. Foi quando conheceu o parceiro artístico, o francês Jean-Marco Pablo, com quem formaria a banda os OqueStrada, que acabaria por escolher Almada como o seu destino final.

“Esta é uma cidade a partir da qual podemos fazer criação para a Grande Lisboa, sem estarmos fechados no centro. A capital está tão dentro dela que às vezes o umbigo é muito grande, não vês mais nada.”

Quase como um lugar de contemplação sobre essa outra margem – a Norte.

Marta Miranda cacilhas
Cacilhas é o lugar a partir do qual Marta contempla Lisboa. Foto: Líbia Florentino

Conservar as memórias na Almada do futuro

Almada não é só para contemplar, claro. Para Marta, há muito para descobrir nesta cidade, que nasceu dos movimentos operários e associativos.

Uma cidade repleta de História, que remonta aos tempos dos nossos pais e dos nossos avós. “Para mim, é importante perceber os nossos pais, os nossos avós, porque artisticamente faz sentido desvendar ADN’s.”

Essa Almada das memórias operárias que ainda se faz sentir nesse Cais do Ginjal abandonado. “O Cais do Ginjal era onde eu passava as minhas férias. Era onde eu sentia que vivia num mundo ainda puro para desbravar.”

Marta Miranda Cacilhas
Marta Miranda no Cais do Ginjal. Foto: Líbia Florentino

Em 2020, foi aprovado um Plano de Pormenor do Cais do Ginjal que ainda não avançou, mas que prevê a construção de um hotel, cerca de 300 casas, comércio, serviços, equipamentos culturais e sociais e um silo automóvel. 

Sobre tudo isto, também Marta tem algo a dizer:

“Todos nós queremos que o Cais seja recuperado, mas aqui há um território sagrado. E nós temos que perceber que há territórios sagrados que contam histórias. Estes armazéns todos aqui eram de indústrias que davam trabalho às pessoas que fizeram Almada. Portanto, essa história não pode ser apagada.” 

A artista teme a gentrificação, esse fenómeno que se tem vindo a alastrar por Almada. “É preciso ter muito cuidado com a zona de Almada Velha, do Ginjal. Mas é possível fazer dinheiro com o turismo e preservar algumas coisas.” 

As novas gentes de Almada

Mas nem toda a mudança é negativa. “Há gente nova a chegar”, diz ela.

“Hoje, a população almadense é muito interessante. São pessoas, serviços, que fugiram dos preços inatingíveis de Lisboa, da especulação. E isso também traz coisas boas à cidade, porque a cidade estava envelhecida.” 

É no quiosque de Cacilhas que Marta gosta de ver novos e velhos almadenses chegar. “É um sítio que realmente faz a receção das pessoas que vêm dos transportes, faz o encontro de pessoas da comunidade artística e dos locais.”

É lá que Marta se senta, admirando o sol a mergulhar na linha do Tejo, iluminando as duas margens. “Eu sou uma mulher entre o sul e o norte, este rio é isso. Entre margens, aliás, todo o meu trabalho artístico é um pouco, não é à margem, mas sim entre margens.” 

Marta Miranda Cacilhas
Marta assume-se como “uma mulher entre margens”. Foto: Líbia Florentino

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

2 Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *