“Qual foi a última loja que vos fez mesmo sentir: isto é Lisboa?” – foi a pergunta com que Catarina Carvalho, diretora da Mensagem, abriu a última conversa deste curso de comércio em parceria com o Âmbito Cultural do El Corte Inglês – “A Cidade ao Balcão“. E, claro, a resposta passou pelas Lojas com História, numa conversa com Diogo Moura (vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa), Sandra Condesso (da UACS) e Alexandre Fonseca (da ACEPI).
Que futuro para as Lojas com História?
Catarina Carvalho (CC): Uma das coisas que se tem debatido, e por diversas razões, é a ideia de conservar. E, recentemente, há uma tentativa de mudança do próprio programa de salvação de lojas com história de mudar o sistema, de fazer outro tipo de apoio para que as lojas não fiquem conservadas como meras atrações turísticas e não fazendo parte da cidade como ela é. O que é que vai acontecer? Quais são os principais pontos e o que é que esta Câmara quer fazer?
Diogo Moura (DM): Eu acho que, acima de tudo, as lojas com história, para todos nós, fazem parte da nossa identidade e são aquilo que nos caracterizam. Num mundo cada vez mais global, onde o comércio também é cada vez mais global, eu acho que Lisboa, e acho que outras cidades também estão a fazer esse mesmo caminho, que é tornar-se única, ser única, e isso passa muito pelo comércio da nossa cidade, que é um dos principais pontos de encontro da nossa comunidade.
O que é que nós temos feito no que diz respeito às lojas com história: do ponto de vista municipal, existe um fundo de apoio, onde já demos mais de um milhão de euros a várias lojas. Por acaso, grande parte dos apoios que nos são pedidos são exatamente para a transição digital e para a modernização, ou seja, nós queremos apoiar negócios na cidade que tenham história, que tenham identidade, mas negócios viáveis. Temos muitos negócios que o são, mas também temos muitas lojas com história que estão neste ponto de viragem e portanto ou são ajudadas neste momento ou então não se conseguem manter, por mais boa vontade que exista.
O que é que nós estamos a fazer a nível municipal? Nós, neste momento, fizemos uma proposta de alteração do regulamento, que está ainda em consulta pública, até ao próximo dia 28 (de outubro) e criámos dois níveis de distinção para podermos ter mais lojas com história. Nós tínhamos muitas lojas que não eram distinguidas apenas por um ponto e, portanto, fizemos uma subdivisão de critérios para podermos ter mais lojas, mantendo as suas características identitárias do ponto de vista da sua importância cultural para a cidade e do seu impacto económico, mas também do ponto de vista arquitetónico e urbanístico.
CC: Mas o que é que isso significa, um alargamento dos critérios?
DM: O alargamento dos critérios é para podermos ter mais lojas distinguidas. Porque a lei é muito subjetiva naquilo que são os critérios, têm critérios base, mas depois as câmaras podem densificar em enrolamentos. Também aumentámos o nível de proteção do ponto de vista urbanístico. Portanto, cada vez que há uma intervenção urbanística no edifício, nós precisamos salvaguardar ainda mais aquilo que é o espaço da loja em si. Depois, no âmbito destas linhas de apoio financeiro, neste momento, no atual rolamento, há um apoio máximo de 25 mil euros por quadrante, ou seja, em 4 anos só podíamos atribuir 25 mil euros. O que nós estamos a fazer, neste momento, é um apoio máximo de 120 mil euros, mas por ano. Isso é brutal. Acho que vai ajudar, infinitamente, as lojas e é isso mesmo, nós queremos manter as lojas na cidade de Lisboa.
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O comércio geracional e os desafios digitais
DM: A transição digital é bastante importante. Nós não queremos perder o contacto físico ou o atendimento personalizado para o digital. Nós queremos manter os dois. Mas os negócios têm que se modernizar, têm que se adaptar aos desafios atuais. Há várias lojas com história que se candidataram a apoio nesta área. Tentam fazer este salto, não deixando de ter o seu espaço físico que é tão importante. Nós temos quatro linhas de apoio e, portanto, queremos aumentar os apoios.
CC: Já vamos falar sobre as consequências digitais. Queria perguntar à Sandra se o tecido comercial de Lisboa, se as pessoas que têm lojas em Lisboa estão preparadas para esta mudança. Ou seja, se elas estão preparadas para agarrar o facto de terem uma loja que é do avô ou do bisavô e continuarem para a frente, a pensar no futuro. O que é que acha?
Sandra Condesso (SC): O que eu acho é que as lojas em Lisboa têm estado a sofrer uma grande alteração. As lojas de bairro e as lojas tradicionais têm estado a desaparecer e a ser substituídas por outro tipo de lojas, as chamadas lojas de souvenirs e também por pequenas mercearias e grandes grupos económicos.
CC: Ou seja, é uma asfixia de dois lados. É a mudança para lojas de souvenirs, que são muito recorrentes em vários sítios da cidade, não é só no centro, e do outro lado, os grandes grupos.
SC: Eu não sou contra a diversidade na cidade. O que achamos é que temos que preservar as lojas que são a nossa identidade.
Em relação a elas estarem preparadas, há alguma dificuldade. O nosso tecido empresarial está muito envelhecido. Muitas vezes, o que acontece é que os jovens, que são os filhos destes empresários, não conseguem ver no comércio uma profissão muito apetecível.
CC: E então eu pergunto-lhe, porquê?
SC: É preciso educar os jovens e dizer-lhes que quando eles tiram um curso superior, por exemplo, e se tornam gestores, que primeiro podem irem trabalhar para uma grande marca, mas que depois podem assumir as lojas dos familiares.
CC: E modernizá-las. E é muito frequente, que as pessoas não queiram continuar os negócios dos seus pais, avós, etc…
SC: Exatamente. Aqui temos um problema. Vamos ter que tentar arranjar pessoas que peguem nas lojas e as modernizem. Eu acho que é fundamental, não só o apoio que a Câmara Municipal está a dar. Estas pessoas, que muitas vezes não têm capacidade e não têm dinheiro para se modernizar. Com apoios, por exemplo, na UAC, nós damos formação em redes sociais, em inteligência artificial, aos nossos associados. A parte da formação é muito importante, para podermos modernizar as lojas e ajudar estes comerciantes. Hoje é fundamental a ligação da loja com o digital.
CC: Vou fazer-te uma provocação, Alexandre. Se calhar, não é só a questão do imobiliário ou da forma como a sociedade tem evoluído, o digital é ou não é a maior ameaça à loja física?
Alexandre Fonseca (AF): Ou a maior oportunidade. Vale a pena nós pensarmos, e não é preciso andar muito para trás: há 10 anos, um terço dos portugueses nunca tinham utilizado a internet. Neste momento, em 2026, esse número vai ficar abaixo dos 10%.

CC: Que não usam?
AF: Que não usam. Quer dizer o quê? Que 90% usa. E, ainda por cima, mais de 80% usa todos os dias. Muita da digitalização foi acelerada pelo COVID. E as compras online estão acima dos 60%. Estamos a falar em mais de 6 milhões de portugueses. Fomos o país que mais cresceu com esta dinâmica. Nós pensamos sempre em exportação internacional. Mas surgiu um género de comércio electrónico, aqui em Portugal, que é um comércio de proximidade: comprar nos pequenos comerciantes da minha cidade. E é muito interessante, pois fez renascer tudo.
CC: Um exemplo, eu mando vir café da Mariazinha e…
AF: Tu mandas vir café da Mariazinha, ou queres encomendar comida para casa, ou comida pronta, ou todo um conjunto de categorias que não é para comprar a nível internacional. Este é o primeiro ponto, é a oportunidade que isto traz dentro do contexto do consumidor português. Este ano, 55% dos portugueses utilizaram a Inteligência Artificial para uso pessoal. Para marcar férias, receber recomendações de filmes para ver. Tudo o que vocês imaginam de um dia a dia das pessoas, 55% dos portugueses já está a utilizar a Inteligência Artificial. O que é que isto quer dizer? Que se há uns anos, fazer o nosso melhor site, estar nas redes sociais, era suficiente, agora não é. Nós começamos a ter que ter um talento, dentro das empresas, que crie conteúdos para que eles possam ser encontrados por estes motores, como o Chat GPT ou o Gemini. As empresas têm que estar preparadas para isso.
O segundo fator, que me parece que é muito interessante para Portugal, é que a marca ser “Made in Portugal” nunca foi tão importante. Ter o brand “Portugal” é interessante. Isto quer dizer o quê? Que ter um domínio, por exemplo, ponto PT (.pt) é mais interessante ter um ponto COM (.com). Eu acho que há muitas empresas que não olham para estes pequenos detalhes. Manter o “mariazinhacafés.pt”.
O último ponto do tema da oportunidade é que o digital trouxe um desafio: há muita fraude, há muitas empresas que nós não sabemos se podemos confiar. Fazer uma candidatura para ter um .pt devia ser mandatório, por exemplo, nestes programas de financiamento para ter um selo de confiança. Isso vai fazer com que os consumidores tenham a certeza que aquela empresa é fidedigna.
A identidade comercial de cada bairro
DM: Estamos a trabalhar, a nível dos bairros comerciais, para cada um ter a sua identidade. A Baixa tem uma identidade, Benfica tem outra, Campo de Ourique… Até o Parque das Nações, que é um território novo, com 29 anos, tem também o seu comércio com uma entidade muito própria. Esta é uma das propostas que a Câmara Municipal de Lisboa fez. É que nós, em determinadas zonas da cidade, em que vemos que o comércio está em risco pois ou é tudo restaurantes, ou é tudo hotéis, ou é tudo cabeleireiros, ou é tudo lojas de souvenirs, e não há uma oferta comercial que seja diversificada, queremos desenhar a zona com uma identidade comercial. E eu acho que já vai ser possível com esta alteração.
CC: Está, mais ou menos, consensuado?
DM: Sim. Eu acho que é transversal. Nem falo a nível político, mas de todas as estruturas representativas.
SC: Sim, todas as estruturas olham para isto como benéfico. Nós temos que preservar, acima de tudo, uma certa diversidade na cidade. Não podemos ter ruas todas com o mesmo tipo de comércio.
DM: Só para terminar, temos de ter esta capacidade de decisão. Nós, quando pensamos no comércio de Lisboa que, como sabemos, faz parte da alma da cidade, da sua identidade, quando a desenhamos e a planeamos, não pensamos apenas no comércio, não é? Para um bom comércio, temos de ter um bom espaço público, temos de ter uma cidade limpa, temos de ter uma cidade segura, temos de ter uma cidade iluminada. E nós podemos trabalhar em todas essas vertentes. Se nós não tivermos uma palavra a dizer sobre que é o desenho comercial da cidade de Lisboa, todas estas áreas podem estar todas em consonância e a trabalhar em conjunto. No fundo, esta conversa mostrou o que faz uma cidade ser nossa. Preservar as lojas com história é preservar uma cidade que não deve de se reconhecer apenas através dos seus monumentos históricos, mas também através do seu comércio local. A questão que fica: que Lisboa comercial queremos encontrar, quando percorremos as suas ruas?
*Texto editado por Catarina Reis

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