Como diria o poeta, acampar é preciso, viver não é. Estava a estranhar o silêncio em Lisboa, um silêncio triste e funesto, um silêncio de doer os ouvidos, enquanto o Porto recorria ao mito da Cidade Invicta, o espírito de resistência que fez das tripas coração, para ocupar a praça e se fazer ouvir, pois há muito, há imenso, a ser dito. 

Mas aí Lisboa acordou. A juventude lisboeta acordou. Acordou tarde, é verdade, como os jovens costumam fazer – e quem tem um em casa como eu sabe disso -, mas a boa notícia é que nunca é tarde para se acordar para a vida, acordar para a luta. E tem sido lindo assistir, ou melhor, testemunhar a resistência.

Testemunhar a história.

Contra a truculência e os cassetetes da polícia, o lirismo dos Xutos e Pontapés. Foi lindo. 

Alguns dos mais velhos obviamente não concordam com as tendas acampadas na praça e andam a torcer o nariz, resmungando um reprovador “onde já se viu?” pelos cantos da casa, nas tascas, nas pastelarias, na fila do supermercado, no quiosque, na tabacaria, enquanto gastam a unha numa raspadinha.  

Deus me livre e guarde de um dia sair por aí a repetir um “onde já se viu?”. 

O “onde já se viu” é o atestado mais claro de velhice avançada, de que a pessoa já está a dever para a morte. E isso em qualquer idade. Um adolescente que solta um espontâneo “onde já se viu?” morreu e não sabe, já é uma múmia de dois mil anos por dentro.

O “onde já se viu” é o teste de carbono 14 da alma, a prova inconteste da fossilização de um espírito jurássico destruído pelo meteoro do cinismo. 

O “onde já se viu?” diante de uma tenda é mais estranho ainda vindo de um português.

Até onde sei, a história de Portugal, melhor dizendo, a origem do que hoje é Portugal passa pela beleza e a força dos acampamentos. Por enfrentar o frio e o calor e resistir, resistir e lutar, a partir de uma tenda. 

Ou D. Afonso Henriques não acampou para vencer em Ourique e conquistar Santarém? E a conquista de Lisboa, dessa mesma Lisboa, não foi fruto de resistência, de paciência, de resiliência, fruto da coragem dos futuros lisboetas acampados em São Vicente de Fora?

Portugal, veja só, teve até rei que trocou o luxo de um palácio por uma espartana tenda, pois a terra podia voltar a tremer e a tenda resistiria à força de um terramoto.

Antes das caravelas, antes dos canhões, antes do fado e do pastel de nata, é tenda que está no ADN português.

Pelo jeito, se fosse hoje, o presidente da Câmara e o primeiro-ministro mandariam a polícia e seus cassetetes expulsar o rei da sua tenda e desmobilizar o acampamento de D. Afonso.

E assim, a história de Portugal seria outra, sem acampamentos, sem tendas, sem cerco, uma história sem resistência, sem luta. 

Sem Portugal. 

E diante de tudo isso, ainda há o senhor ministro, que achou “estranho” ouvir o sotaque brasileiro no acampamento no Rossio. Mas tanta coisa para o senhor ministro achar “estranho” no país – a falta de moradia, de salários dignos, de perspetiva de vida e por aí vai, a lista é grande – e o ministro foi achar “estranho” o sotaque brasileiro?

Se o senhor ministro não quiser ouvir o sotaque brasileiro no Rossio, logo no Rossio, é melhor tirar de lá a estátua do imperador brasileiro e botar abaixo o belíssimo e imponente teatro com o nome da rainha portuguesa nascida sabe onde, senhor ministro?

Mais coerente seria o senhor ministro achar estranho gastar 300 milhões em mísseis que, até onde sei, não constroem casas, pagam contas vencidas, diminuem filas nos hospitais ou, por melhor que seja o radar deles, não encontram professores em todas as salas de aula portuguesas. 

Sem falar nos tantos outros milhões numa fragata. Numa fragata? Vamos combinar, se fosse para a marinha investir em algo, melhor seria em submarinos. 

Para acompanhar de perto Portugal a afundar.

Ouvi as estranhezas do senhor ministro na televisão ligada num canal manhoso de um café, ao lado de uma senhorinha de semblante sério. Alguém diria que a última vez que se viu um sorriso no seu rosto e Camões ainda andava por aí a fazer das suas.

A senhorinha no café diante da televisão achou tudo um horror. 

— O português sempre foi muito pacífico. Onde já se viu? — murmurou a senhorinha, a chávena esfriando no balcão.

O senhor ministro, o mesmo devorado pela sanha dos mísseis e das fragatas armadas, concordaria, o português sempre foi um povo pacífico. A paz evocada por más razões, a paz a serviço de interesses duvidosos, a paz na linha de frentes dos grandes negócios contra quem, nos últimos tempos, não tem tido um minuto de paz na vida.

Ser pacífico, minha senhorinha, ser pacífico, senhor ministro, ser pacífico não é o mesmo que ser passivo. E passivo o português realmente nunca foi. Está lá no hino, está lá n’A Portuguesa, pode ir ver, vá ouvir, está lá, bem na última estrofe:

Contra os canhões, acampar, acampar. 


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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