Há uns anos, um rapaz convidou-me para um encontro. Era inverno e sugeriu irmos comer um gelado em Lisboa. Lembro-me de pensar que tinha finalmente encontrado o homem perfeito, já que não era daquelas pessoas que acham que gelado só se come quando faz calor. Até que chegámos à gelataria.

Pediu… morango e limão.

Dois sabores de fruta.

Num copo.

Escusado será dizer que foi a última vez que o vi.

Depois de uma vida inteira a fazer refeições à base de gelado – em qualquer estação do ano, até no pico do inverno, enquanto congelava as mãos no frio do norte de Itália -, sinto que posso declarar-me uma verdadeira especialista na matéria. Aliás, acho que esse certificado vem automaticamente incluído no nosso certificado de nascimento. Faz parte de ser italiano.

Como grande amante de gelado (e boa italiana que sou), tenho regras muito específicas para escolher uma boa gelataria. E regras ainda mais rigorosas sobre a forma correta de comer um gelado.

Primeira regra: se o gelado está exposto na montra… run the other way.

O gelado deve estar guardado em pozzetti: aqueles baldes cilíndricos de aço que os gelateiros levantam de uns misteriosos buracos do balcão, quase como um truque de magia. Eu sei que parece contraintuitivo (afinal, sabe bem ver os sabores antes de escolher), mas a verdade é que o gelado conserva-se muito melhor nos pozzetti. Não fica exposto à luz, ao calor nem a impurezas e, sobretudo, não seca nem ganha aquela textura granulosa que um bom gelado nunca deveria ter.

Segunda regra: se estão a experimentar uma gelataria pela primeira vez, é obrigatório pedir avelã e pistácio (na minha modesta opinião, a combinação perfeita).

Se estes dois sabores forem bons e feitos com ingredientes de qualidade, é um excelente sinal de que toda a gelataria vale a pena.

Para mim, a gelataria que tem a avelã e o pistácio melhores de Lisboa é a Niva, no Príncipe Real. Niva é uma cadeia de geladarias que nasceu em Turim, onde eu comi o gelado deles pela primeira vez, e tem lojas também em França e aqui em Portugal, em Lisboa e no Porto.  

Fotos: DR

Apesar de já terem várias lojas, todo o gelado continua a ser produzido no próprio local. Assim, evitam acumular stock e garantem que é vendido no espaço de, no máximo, 24 a 48 horas.

Usam muitos ingredientes importados de Itália, como a pasta de avelã do Piemonte – feita com aquelas que, na minha opinião totalmente imparcial, são as melhores avelãs do mundo.

Os sabores que têm mesmo de experimentar, para além dos obrigatórios, avelã e pistácio, são ricotta e fichi, cremino e a ganache de chocolate.

Terceira regra: um gelado para comer a passear é sempre num cone. Sempre.

Nunca num copo.

Consigo aceitar o copo até aos cinco anos de idade e depois dos 75, por razões perfeitamente compreensíveis. Fora isso… não há desculpas.

Além disso, a qualidade de uma gelataria mede-se tanto pelo gelado como pelo cone. O cone deve ser saboroso e manter-se estaladiço até à última dentada. Se fica mole e encharcado ao fim de poucos minutos, normalmente não é um bom sinal: um gelado de qualidade merece um cone à altura.

O cone melhor que já comi aqui em Lisboa é o da Dona Nora, uma nova gelataria que abriu no Parque das Nações. Foi a primeira vez que vi um cone ser feito à mão, ali, no momento, mesmo antes de receber o gelado. O contraste entre o gelado bem frio e o cone ainda morno é simplesmente maravilhoso.

Fotos: DR

Além disso, o cone é aromatizado com essência de flor de laranjeira ou de limão, o que lhe dá um sabor mesmo especial. Valia a pena passar por lá só para comprar o cone, mas já que lá estão, aproveitem também para provar o excelente gelado.

Entre os meus sabores preferidos estão Sicilia, um creme de laranja com pistache e amêndoas tostados, Pelau, um gelado de coco com chocolate branco e lima, e Bagigio. Espetaculares.

E há mais: se tiverem um amigo de quatro patas, também ele pode ir convosco e comer um gelado. Na Dona Nora há uma Puppy Cup, para que ninguém fique de fora.

Quarta regra: peço desde já desculpa aos fãs dos gelados de fruta, mas, para mim… fruta não é gelado.

É sorvete.

Recordo, por isso, a regra que fez daquele meu date não passar disso.

Um sabor de fruta só é aceitável se fizer parte de uma combinação cuidadosamente pensada com um sabor de creme. Ou, claro, se forem vegan. Embora, hoje em dia, muitas gelatarias já tenham excelentes cremes vegan feitos à base de água, por isso, aproveitem.

A propósito dos sabores de fruta e das opções vegan, há outra gelataria de que não posso deixar de falar: a Chantilly, um dos meus sítios preferidos em Lisboa.

Além das cores maravilhosas e acolhedoras do espaço — um pequeno paraíso tropical em São Sebastião —, a Chantilly conquista pela sua seleção de sabores, pequena mas muito bem pensada, que inclui várias opções vegan.

Fotos: DR

Os gelados são feitos com ingredientes locais e variam consoante a disponibilidade sazonal, por isso há sempre boas desculpas para voltar.

Entre os meus favoritos estão o café verde e a canela, para quem prefere os clássicos, e a avelã, o leite de coco e o amendoim, para quem quiser experimentar as opções vegan.

Quinta e última regra: o gelado não é um alimento de verão.

Nunca foi.

Porque haveríamos de abdicar de uma das maiores alegrias da vida só porque está frio?

Aliás, no inverno até há vantagens: o gelado demora muito mais tempo a derreter, combina na perfeição com um café ou um chocolate quente e, acreditem em mim, há poucos lanches melhores do que uma boa caixa de gelado, uma colher e um filme, enquanto lá fora chove.

É uma combinação espetacular, sobretudo quando o gelado é o meu sabor preferido da Nannarella.

Foto: DR

A quarta e última gelataria da minha lista abriu em 2013 e é já uma verdadeira instituição do gelado italiano em Lisboa. Sempre que passo por São Bento, é uma paragem obrigatória.

Quando lá vou, peço quase sempre o cone sem glúten, que, na minha opinião, é ainda mais estaladiço do que o tradicional.

Também aqui o gelado é feito com ingredientes naturais e de qualidade, vindos de várias partes do mundo. Uma das coisas de que mais gosto é o painel dos sabores, onde pequenas bandeiras indicam a origem dos ingredientes — um detalhe simples, mas que adoro.

O resultado é um gelado que junta a tradição italiana à portuguesa, especialmente naquele que continua a ser o meu sabor de eleição: zabaglione com vinho do Porto.

A Mensagem de Lisboa também leva a história dos gelados bem a sério. Por isso é que, a propósito do 25 de Abril, este ano, se juntou à geladaria Lumi, em Benfica, para criar o “sabor da Liberdade“. Um sabor criado a partir da sugestão de leitores: melancia e manjericão.

Ilustração: Nuno Saraiva

Claro que, no fim de contas, não há uma forma certa de comer um gelado. O importante é que seja bom e que seja partilhado com boa companhia.

Quanto a mim, basta pôr um cone na minha mão e fico feliz.


Sara Bassini

Nasceu em Itália, Veneza, e migrou para Lisboa, onde é estudante de jornalismo na Universidade Católica. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

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2 Comments

  1. Cara Sara,
    O seu artigo só tem um senão, em português nós dizemos GELADARIA, de gelado. O uso da palavra italianada é apenas um pretensiosismo que raramente atesta à qualidade do produto vendido.
    Também acho que gelado come-se o ano inteiro, principalmente depois de ter comido gelados na Alemanha, com temperaturas negativas e 30cm de neve na rua.
    E, já agora, cada um come o gelado que quiser e sim, gelado de frutas é sorvete! Eu prefiro sorvete 😉

  2. Deixar de fora a Casa do Gelado na Avenida de Roma mostra que não sabe tanto de gelados como pretende. Valem as sugestões, algumas que já conheço não merecem, mas outras são de facto boas.

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