À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Em junho, Lisboa esteve em festa e o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes (GDEC), na Estrela, também. Durante dezasseis noites, o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes (GDEC) organizou na freguesia um dos arraiais oficiais das Festas de Lisboa, preparado com meses de antecedência e quase inteiramente assegurado por gente da casa, dirigentes, sócios, amigos e familiares que, de forma voluntária, fazem, ano após anos, o que é preciso para garantir o sucesso desta iniciativa com fama e proveito.

Para quem lá vai, porém, é mais do que uma festa. Luís Filipe Maçarico, sócio honorário e antigo dirigente, compara-o a um arraial de aldeia: «É muito familiar, muito simpático e muito acolhedor, um momento em que toda a massa associativa se junta.» Quando estivemos no Belém Clube, Jorge – do grupo de violas e cavaquinhos, morador na Estrela e sócio do GDEC – chamou-lhe «o melhor arraial de Lisboa».

E é também o que sustenta o ano. Tiago Mendes, homem de contas, confirma que as receitas do arraial chegam a representar 60% do orçamento d’Os Combatentes. Daí a importância de os sócios se juntarem e darem o seu trabalho, sem o qual nada disto seria possível – e é isso, mais do que as contas, que os dirigentes de ontem e de hoje dizem valorizar.

«O que conta é chegar ao final da noite e sentir que toda a gente se divertiu e gostou de estar connosco», diz Mónica Caldeira, presidente da direção. «É o que nos enche a alma e nos dá motivação para continuar o caminho.»

O que faz falta é animar a malta

Um caminho que começou em 1906, num vão de escada. 68 anos antes de a canção de Zeca Afonso ecoar por todo o país, seis operários reuniram numa escada da Rua do Possolo e criaram o Grupo Dramático Os Combatentes. Para animar a malta, avisar a malta, dar poder à malta. Através do teatro, da educação e da cultura.

Criada com fins recreativos, culturais e de instrução, a coletividade Os Combatentes tinha um boletim mensal. Foto: D.R.

A monarquia estava nas últimas, os ideais republicanos fervilhavam e estes homens quiseram dar-lhe expressão, com o objetivo de lutar contra o alcoolismo e o analfabetismo que grassavam entre as classes populares.

Do vão de escada passaram a sedes precárias. Três vezes se mudaram, sempre na mesma rua, até se fixarem nos números 5, 7 e 9, onde se mantêm até hoje. E até ver.

O nome diz tudo. “O facto de a coletividade se chamar Os Combatentes está ligado ao combate pelos ideais republicanos”, explica Luís Filipe Maçarico, antropólogo e autor de um artigo sobre Os Combatentes na revista Análise Associativa.

O teatro foi, desde o primeiro dia, a atividade estruturante, daí o “Dramático”. A escola, que acrescentou o Escolar ao nome da coletividade, só viria a ser fundada anos mais tarde, em 1925, por iniciativa de uma Comissão Mista (nove homens e sete mulheres) que queria concretizar o sonho da criação de uma escola onde os filhos dos operários aprendessem a ler.

“Jorge Neves, coordenador do Grupo Cénico d’Os Combatentes nos anos 1990, contou-me que a mãe, analfabeta, fez parte dessa Comissão e foi uma das fundadoras da escola, que funcionou até 1992 e foi onde muitos dos sócios mais antigos aprenderam a ler, a escrever e a fazer contas”, diz Maçarico.

Luís Filipe Maçarico, antropólogo, sócio de mérito e antigo dirigente d’Os Combatentes. Foto: Os Combatentes

O espaço, no primeiro andar, onde havia também uma biblioteca pública, é hoje o museu da coletividade cheio de fotografias, medalhas, troféus, livros, objetos e uma pequena sala a recriar uma sala de aula com a pia onde os miúdos bebiam água e o sílabo usado para os ensinar a ler.

Ali se descobre que Os Combatentes foram agraciados com o grau de Cavaleiro da Ordem da Benemerência, em 1934; tinham escutismo quando o escutismo mal tinha chegado a Portugal; organizavam passeios e excursões pelo país; davam bailes e bailaricos, onde muitos casais se formaram ao longo de gerações e ofereciam à população desfavorecida do bairro modalidades desportivas como ginástica, boxe, hóquei em campo, futebol ou basquetebol.

O território cénico é no piso de baixo, onde a sala de espetáculos é só por si uma homenagem à história do teatro amador n’Os Combatentes. Há fotografias a lembrar algumas das figuras conhecidas que aqui começaram como Aida Batista, Tony de Matos ou Maria Clara, e um cantinho reservado ao grupo dos Pregões de Lisboa, um sucesso nos anos 1980 e 1990, com recriações das vozes que vendiam peixe, cautelas e o mais que fosse pelas ruas.

Um dos pregoeiros e coordenador do Grupo Cénico d’Os Combatentes na década de 1990, Jorge Rua de Carvalho, carpinteiro e poeta de bairro, escreveu a esse propósito o livro Figuras Típicas de Lisboa e seus Pregões, editado pela Câmara Municipal de Lisboa.

Uma sócia, bibliotecária recentemente reformada, Rosário Batista, assumiu a tarefa de organizar e digitalizar o espólio da coletividade, para reunir num centro de documentação (são já milhares de ficheiros, diz Tiago Mendes) e está em curso o projeto de reabrir a biblioteca pública.

De bengala, mas de pé

Tiago Mendes abre uma janela no primeiro andar e mostra a sala de espetáculos de cima. O valor histórico e patrimonial do palco à italiana, em teia, foi um dos elementos que levou ao reconhecimento d’Os Combatentes como Estabelecimento de Interesse Histórico e Cultural, aprovado no ano passado, na sequência de uma candidatura feita em 2017. Está agora a aguardar também o estatuto de utilidade pública.

O palco à italiana, “obra dos sócios”, nas palavras de Tiago Mendes, foi um dos elementos que conferiu o estatuto de Estabelecimento de Interesse Histórico e Cultural aos Combatentes. Foto: Rita Ansone

“Metade do edificado foi feito pelos sócios. Este salão, o espaço do bar – foi tudo feito e suportado por eles”, diz o vogal da direção, lembrando que também o parque desportivo, a 200 metros da sede, foi erguido pelos associados.

Àquele palco, ao longo de mais de um século, subiram a cena as peças criadas pelos sucessivos grupos de teatro amador, cuja evolução do género e temas foi acompanhando os tempos, sendo o teatro de revista a tradição mais vincada da casa. Não consta da lista de “atividades” porque não tem início nem fim, está sempre lá. Em setembro, quando os 120 anos se cumprirem, estará em cena uma nova revista “De Bengala, mas de Pé”, a animar a celebração do aniversário.

Luís Filipe Maçarico guarda a memória de um episódio que espelha bem o significado e a história desta coletividade. “Estava a fazer a apresentação de um livro, e aparece-me um miúdo de nove anos, a felicitar-me”, recorda. “Era o Flávio Gil e, no meio da conversa, disse-me que tinha um sonho: ser dirigente d’Os Combatentes. E não é que foi? Aos 16 anos estava a escrever e encenar peças de revista na coletividade, mais tarde fez parte da direção e depois tornou-se ator (e autor) profissional. Tem muito talento”.

Venham mais cinco

A Ada, de cinco anos, o irmão Denis e a amiga Alice, ambos de nove anos, podem ou não vir a dedicar-se ao teatro profissional, mas por enquanto são três dos quatro alunos de Expressão Dramática para crianças que Os Combatentes disponibilizam uma vez por semana, de forma gratuita, às crianças que vivem ou estudam na freguesia da Estrela.

À segunda-feira ao fim da tarde, o salão é espaço de exploração e descoberta, através de exercícios dinamizados por Joaquim, ator, marionetista e professor de expressão dramática.

Sentadas no soalho de madeira, as três crianças fazem um jogo. Alice está do outro lado do espelho e os outros têm de imitar-lhe os gestos e movimentos. Cada um terá o seu momento de fazer refletir. Depois subirão ao palco para representar por gestos uma ação e uma profissão para o “público” adivinhar qual é.

“Não é teatro infantil, é expressão dramática”, explica Joaquim. “Tem mais a ver com o gesto. Trabalha sobretudo a concentração, a desinibição, a afirmação.” O grupo pode ter quinze crianças; já foram onze, hoje são quatro, apesar de a atividade ser gratuita.

“Houve uma mudança de dia da atividade e isso pode ter tido influência, mas esperamos que, com a divulgação, venham mais participantes, porque um grupo maior e com idades diversas permite um trabalho diferente”, diz Joaquim, que começou há três anos e vê em Denis e Alice o resultado do trabalho desenvolvido (Ada entrou recentemente).

Quando os pais lhe deram a escolher entre natação e teatro, Alice conta que escolheu o teatro. Denis, amigo e colega de escola, veio a convite de Alice, e Ada, a pespineta do grupo, veio atrás do irmão, claro. Todos gostam muito destas segundas-feiras, mas gostam mais do palco do que de entrevistas.

Traz outro amigo também

A coletividade tem cerca de quatrocentos sócios – já teve mais de mil – e a maioria já não vive na Rua do Possolo, nem na Estrela, muitos nem em Lisboa. Mas isso não impede um dinamismo surpreendente para uma coletividade de bairro a completar 120 anos.

Há ginástica sénior, ioga, zumba, karaté, futebol, futsal de veteranos – masculino e feminino. Há noites de fado quatro vezes por ano, uma sala de jogos com snooker, xadrez e cartas, um bar de petiscos, que às quartas-feiras faz almoços especiais. Em 2025, por sugestão de um sócio, foi criada uma Galeria de Arte, com novas exposições todos os meses.

A direção tem onze pessoas e nenhuma reformada. Trabalham todos. Os mandatos são de dois anos – “é pouco tempo, mas acaba por ser muito, não há uma semana em que não dedique horas à coletividade”, diz Tiago Mendes, que já foi três vezes presidente.

Tiago Mendes conhece Os Combatentes desde miúdo porque os avós viviam na rua da coletividade. Sócio há mais de uma década, já foi presidente três vezes e atualmente é vogal. A filha que está a fazer um ano, é a sócia mais nova da coletividade. Inscreveu-a quando nasceu. Foto: Rita Ansone

Cresceu na Estrela e conhece Os Combatentes desde miúdo – os avós viviam na Rua do Possolo, os pais começaram a namorar nos bailes da coletividade –, mas só se tornou sócio em 2013, tinha 22 anos, a convite da presidente da altura, Lurdes Pinheiro. Não demorou muito a chegar outro convite: para os órgãos sociais. “Não é fácil, mas é gratificante. A minha filha, que ainda não tem um ano, é a sócia mais recente d’Os Combatentes”, diz.

Conciliar a vida profissional com a direção da coletividade é a maior dificuldade, mas há sempre quem aceite, entre antigos e novos sócios.

Os herdeiros da Maria Eugénia

Foi o caso da atual presidente da direção. A primeira vez que Mónica Caldeira entrou nos Combatentes foi há onze anos, para “fazer a porta”. Integrava o elenco de uma peça infantil da companhia que produziu Melodias nos Combatentes, uma revista sobre a coletividade, que esgotou a sala em várias sessões. Um dia, faltou quem assegurasse a bilheteira e ela foi. Nunca mais deixou de ir.

De Benfica, administrativa de produção de uma construtora, atriz de teatro amador e marchante da Marcha da Boavista, encontrou n’Os Combatentes um espírito solidário e associativo que não conhecia, mas tinha tudo que ver com ela.

Mónica Caldeira, a atual presidente da direção, com uma das fadistas que animou uma das Noites de Fado dos Combatentes, João Paulo Lourenço e Alexandra Estoura, dois dos onze elementos da direção da coletividade. Foto: J. Gaspar Photo/Os Combatentes.

“Depois dessa experiência da bilheteira, convidaram-me a vir ajudar no arraial e eu vim. Fui conhecendo as pessoas, a história da coletividade e aprendendo mais sobre o associativismo”, conta. “Sem dúvida, que é aqui que me sinto bem.”

Essencial para o envolvimento de Mónica Caldeira no GDEC foi Maria Eugénia Gomes, então presidente da Mesa da Assembleia Geral. Morreu há três anos e meio, mas deixou um legado.

“Era uma mulher extraordinária, sabia ouvir, era muito atenta e foi ela que me ensinou a história dos Combatentes, o que é ser solidário e como é importante ajudar o próximo e defender a coletividade, como é agora o caso com a questão da sede”, conta Mónica, que assumiu a presidência em 2025, cumprindo uma promessa que fez a Maria Eugénia: continuar a luta.

“É nela que me inspiro. Quando tenho alguma dúvida, penso sempre no que ela faria ou pensaria se estivesse cá. Só para perceber, o nome do nosso grupo de direção no WhatsApp chama-se ‘Os Eugénios’”. 

“Quis o destino que no ano em que Os Combatentes celebram 120 anos estivesse uma mulher na presidência”, assinala Tiago Mendes. “A Mónica é a segunda mulher a presidir à direção da coletividade. Quando fizemos 100 anos, quem estava no cargo era a Lurdes Pinheiro, que foi a nossa primeira presidente”. Sócia há muitos anos e antiga aluna da escola, Lurdes Pinheiro é atualmente a contabilista da casa.

A renovação e a diversidade nos órgãos sociais d’Os Combatentes têm sido uma preocupação ao longo da história da coletividade. “Temos uma composição deliberadamente plural, feita de diretores mais antigos e mais recentes, uns ligados ao desporto, outros à cultura, outros às dinâmicas de comunicação e eventos”, explica Tiago Mendes, que lê neste cuidado uma visão de futuro que vem de trás.

Eles não comem tudo

“Há sempre alguém que continua e que traz mais alguém”, “em cada mandato entra sempre alguém que nunca fez parte”, para trazer “ideias fora da caixa”, diz o dirigente, lamentando não ver isso na maioria das coletividades e clubes.

“Em boa parte do movimento associativo a renovação não tem tido o cuidado que merecia e essa é uma das causas da crise do associativismo”.

Mas não é a única nem a mais profunda. “A principal limitação das coletividades é, sem dúvida, se têm ou não sede própria. Temos visto muitas instituições históricas de Lisboa a desaparecerem devido ao custo incomportável das rendas ou a ações de despejo. Essa ameaça também paira sobre nós”, revela Tiago Mendes.

A sede histórica do GDEC – Os Combatentes, na Rua do Possolo, 5 a 9, foi a quarta sede da coletividade, na mesma rua, onde nasceu num vão de escada. A hipótese de ter de sair da casa onde desenvolve atividade há mais cem anos é real. E a maior luta que Os Combatentes têm para travar atualmente. Foto: Rita Ansone

O edifício foi vendido há cerca de uma década, e os Combatentes são inquilinos. O estatuto de Estabelecimento de Interesse Histórico e Cultural protege o reconhecimento simbólico, mas não impede que, esgotados os prazos legais, o senhorio peça uma renda exorbitante ou simplesmente force o despejo.

“Sair daqui é descaracterizar a coletividade”, diz Tiago. Naquele salão, gerações fizeram ginástica; uma professora deu ali aulas a crianças quando era recém-licenciada e voltou, com sessenta anos, para dar aulas a senhoras mais velhas.

Tiago Mendes realça a importância da relação com as outras coletividades para a dinamização e sobrevivência do movimento associativo. O GDEC foi um dos fundadores da antiga Federação Portuguesa das Coletividades de Cultura e Recreio, que esteve na génese da atual Confederação Portuguesa das Coletividades. Foto: Rita Ansone

Por isso Os Combatentes têm trabalhado em rede com outras associações e coletividades lisboetas, para defender a sobrevivência e sustentabilidade destas instituições culturais de bairro, que, ao contrário do que se quer fazer crer, continuam a ter um papel fundamental na coesão, identidade e preservação da cultura popular.  

E isso não acontece só em junho, com as Festas de Lisboa e os arraiais populares, como o d’Os Combatentes. É um trabalho coletivo e continuado, neste caso há 120 anos. “Com o trabalho coletivo temos alcançado muitas conquistas e vamos continuar o combate. As pessoas é que fazem realmente a diferença”, diz Mónica Caldeira.

Como fizeram, há 120 anos, num vão de escada.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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