No bairro da Graça, as paredes sempre foram reivindicativas. Não é de hoje. Desde os vários murais políticos que já fazem parte da identidade visual da Rua da Voz do Operário, até aos vários murais de artista e de coletivos de street art presentes em vários pontos do bairro, a Graça encara o espaço público como um espaço de desabafo. Um espelho dos tempos e das gentes que aqui vivem.
Frases como “Isso podia ser um espaço para morar”, “Nem mais um hotel”, “Lisboa está à venda”, “Aqui havia mais graça”, “Abaixo o hotel”, “CML <3 SANA”, “Ilegal”, são algumas das mensagens que se encontram ou encontravam escritas em diferentes paredes do bairro da Graça.
Ao longo deste artigo, encontrará uma coleção de registos fotográficos de graffiti de teor político que foram surgindo nas paredes do bairro da Graça ao longo dos últimos cinco meses, um acervo que nasce da curiosidade durante caminhadas diárias pelo bairro. Uma galeria de arte ao livre e efêmera, uma vez que não sobrevivem ao buffing (como é conhecido o processo de pintar sobre graffiti nas paredes da cidade como forma a apagá-lo).
Que mensagens são estas?

Certo é que todas as peças acima mencionadas são consideradas institucionalizadas, isto é, feitas com as devidas permissões e, muitas vezes, inseridas no âmbito de projetos maiores, como é o caso do festival Muro_Lx, mas a galeria recai sobre as mensagens que são criadas fora deste contexto, orgânicas até, e por isso, naturalmente mais controversas.
Afinal, o que dizem as paredes da Graça?
Algumas delas permanecem e resistem não só ao teste do tempo como também ao seu “apagamento” enquanto que outras já foram “vítimas” do buffing. Estas frases no espaço público evidenciam uma preocupação que sem tornado uma urgência: a descaracterização de certos bairros históricos de Lisboa, dado o intenso processo de gentrificação em zonas como a Graça, Alfama e Mouraria.
Segundo um relatório divulgado pelo Conselho Europeu em outubro do ano passado, intitulado “Um teto, muitas realidades: a complexa crise da habitação na Europa”, verifica-se que os preços das casas em Lisboa já correspondem a 116% do salário médio dos habitantes, colocando Lisboa à frente de cidades como Madrid e Barcelona (74%).
A transformação urbana de Lisboa, impulsionada por investimento estrangeiro, turismo e alojamento local, provocou a reabilitação de edifícios, mas também o aumento drástico das rendas, expulsando moradores tradicionais e substituindo o comércio local.
Uma cidade pressionada pelo fenómeno da massificação do turismo, da cultura de salários precários que afeta todo o país, do açambarcamento de casas para o arrendamento de curta duração, entre outras problemáticas, é possível ver a origem deste descontentamento, espécie de tentativa de “resgatar” a cidade, de “resgatar” o espaço público para expressar as mais diversas opiniões.
Um sentimento partilhado por Manuela Leal, 62 anos, todos vividos na Graça. Uma antiga agente de viagens até que a pandemia “trocou-lhe as voltas”, reposicionando-a como funcionária da Pastelaria Saga. Para ela, as mudanças provocadas pelos movimentos turísticos tem sido “brutais”. A começar pelo comércio, que, segundo ela, tem vindo a “desaparecer”.
“Há muito comércio fechado. Esta rua da Graça tinha lojas de pronto a vestir, tinha várias sapatarias, artigos para a casa, cortinados, toalhas, lençóis, tinha de tudo e tem vindo tudo a desaparecer”, afirma.
A habitação também é um calo no sapato dos moradores da Graça. “Há muitos prédios abandonados, seja por heranças que os herdeiros não se entendem, mas alguns edifícios camarários a cair. Há terrenos abandonados, casas abandonadas que poderiam ser recuperadas e recuperar-se o bairro.”
Manuela cita o exemplo da Pastelaria Ideal, que fechou as portas em setembro do ano passado após funcionar por mais de um século, desde 1913. O fecho do comércio local para a abertura de um empreendimento que promete “história”, “vista do rio” e negociação “exclusiva” sugere um luxo provavelmente pouco acessível aos salários médio dos lisboetas, unindo as duas principais reinvidicações presentes nas mensagens nos muros.
Sem vista para o rio, Manuela resiste na Graça por ter “comprado casa numa altura boa”, mas isso não impede a solidariedade com os demais vizinhos sem a mesma sorte. “isto esteja-se a perder tudo (…) vão recuperando, mas ao preço que isto custa, quem é que vai comprar? Estrangeiros. Se me mandassem agora ir viver para o Cacém, eu morria“, diz.
Arte para além do “vandalismo”
Além das mensagens de conotação mais “política” espalhadas pelas paredes da Graça, há os registos mais recentes nas paredes da escadaria principal, logo abaixo do miradouro. Como o projecto “You are not alone”, em tradução para português, “Não estás sozinho/a”, uma iniciativa internacional que pretende ser uma chamada de atenção para a questão da saúde mental e da prevenção do suicídio.


Este mural, dinamizado pelo coletivo Yes You Can Spray, conta com trabalhos assinados por artistas como Afonsoul e Mr. Garpear. Também a artista Out.I.Am, que tem como foco as questões do corpo e de olharmos para nós próprios com amor e gentileza. Obras inseridas assim num contexto de artivismo, arte por uma causa ou um propósito.
Ainda na mesma parede, há um grande mural, “Jardim da Música”, também organizado pelo mesmo coletivo, onde se destaca a homenagem da artista Bree Makes Art a Luís Villas Boas, o intitulado pai do jazz português. Mais abaixo, os vários graffitis espalhados pelo Jardim do Cerco da Graça, maioritariamente assinaturas de artistas e peças “recheadas” de cor, de movimento, de contraste, e de vida.
Em direção aos Sapadores, surgem as grandes obras comissionadas de grande magnitude pintadas em prédios. A “Peace Guard”, do artista Shepard Fairey, é uma delas. O mural retrata uma mulher fardada que empunha uma arma (espingarda), da qual desponta um cravo vermelho. É uma homenagem à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, simbolizando a paz, a transição democrática e o gesto histórico de colocar a flor no cano das armas.
Torna-se interessante fazer este paralelismo entre o que é considerado street art como “vandalismo” para as vozes mais conservadoras como o serão certamente as mensagens políticas de expressão livre deixadas por pessoas anónimas, sem assinatura, sem nome artístico, e a street art que é “bonita”, “limpa”, “legal”, “comissionada”, autorizada por organismos públicos ou privados.

E o mais curioso é que, partindo da observação e de uma volta ao bairro da Graça, podemos ver como essas duas realidades, ainda que distantes, coexistem e partilham esse mesmo espaço comum.
Mas o que é afinal isto do “vandalismo”? É somente uma das formas mais antigas de comentário social: rápido, cru, sem mediação, sem autorização.
E é precisamente esse gesto entre o legal e o ilegal, entre o vandalismo e a arte “bonita”, entre o traço preto aguerrido e despreocupado e as cores vivas e eléctricas, entre o apagamento e o desenho feito de forma meticulosa e dentro de medidas exatas, que reside esta multiplicidade e esta mistura de vozes no bairro da Graça.
É entre estas várias realidades que surge este movimento de “reivindicação” da cidade.
O que os turistas dizem do que dizem os muros
Ao longo de um período de um mês, foi pedido a alguns participantes em visitas guiadas de street art proporcionadas pela “City Guru” que partilhassem a sua impressão do bairro da Graça. Estes testemunhos foram recolhidos de forma isolada, uma reflexão pessoal por tour.
Para a turista canadiana Deborah F., após algumas horas a passear por Lisboa e “absorver” toda informação escondida à vista nas paredes, a Graça surge de forma particularmente “expressiva”
“As mensagens políticas espontâneas que aparecem escritas nas paredes do bairro parecem coexistir com murais e arte urbana encomendada que também abordam temas políticos, o que sugere que estas conversas já existem neste bairro há algum tempo, apenas através de diferentes meios e técnicas. Algumas mensagens são autorizadas a sobreviver, outras não”, afirma.
O norte-americano Paul M. interessou-se pelas bandeiras amarelas penduradas nas janelas onde se lê repetidas vezes a palavra “turista”. O registo remeteu-o a Barcelona, outra cidade europeia a digladiar-se com os efeitos daturistificação.
“Mesmo sem falar ou ler português, é fácil compreender a mensagem, especialmente quando se começa a ver a quantidade de obras de renovação a decorrer em toda a infraestrutura do bairro. Este é um bairro que está claramente a tentar resistir”, explica o turista.
Opinião semelhante tem a também a estadunidense, Tanisha F, que ao chegar se perguntou: “Consigo imaginar-me a viver aqui?”.
Tanisha confessa que a Graça recorda o bairro onde vive e as “lutas para encontrar um equilíbrio entre a vida local e o turismo”, embora as escolhas no caso lisboeta, parece ser clara para ela. “A prioridade não parece ser os moradores locais.
O alemão Nico M. leu nas paredes a “tensão” dos moradores da Graça e o teor “político” evidente nos graffiti. Para ele, porém, mais relevante do que as as mensagens que resistem, são as que desapareceram. “É interessante refletir sobre o porquê de terem sido suprimidas”, pontua.

Graffiti, uma arte com dois mil anos (ou mais)
É, na verdade, impossível dissociar street art – um contexto legal e financiado – de graffiti e de tags, práticas de génese ilegal que surgiram na década de 1960 nos EUA (Nova Iorque e Filadélfia disputam o título), muitas vezes associadas a protestos políticos e às transformações sociais que marcaram os anos 1960 e os 1970 nos Estados Unidos da América.
Apesar da palavra graffiti atualmente remeter a esta prática, a sua origem encontra-se no campo arqueológico, sendo a sua primeira utilização encontrada na obra “Graffiti de Pompéi” (1856), onde o arqueólogo napolitano Rafaelle Garrucci associa o termo graffiti (plural de grafitto, italiano para rabisco) às inscrições não oficiais encontradas nas ruínas de Pompeia, e que datam de há mais de 2000 anos.
No caso específico do território português, a Revolução dos Cravos de 1974 é muitas vezes apresentada como a data do nascimento de um movimento de street art ou graffiti, tendo desencadeado uma era de “muralismo” político e propaganda. Foram pintados milhares de murais por todo o país, e, em alguns casos, estes murais ainda resistem e são parte da identidade visual de alguns bairros, como é o caso da Graça.
O enquadramento legal destas práticas marginalizadas foi-se formando e alterando, nunca de forma isolada (até porque quando falamos de graffiti e street art, falamos também de movimentos e práticas globais) até chegarmos aos dias de hoje, em que o graffiti feito de forma ilegal é descriminalizado: o ato de escrever ou pintar numa parede sem as devidas permissões dá direito a coima, mas não é considerado crime a não ser que sejam causados danos irreversíveis ao imóvel ou bem.
O movimento da street art moderno, que procura expressar a identidade e a cultura de uma comunidade, parece continuar esse legado dos pré-históricos, sendo assim uma continuação dessa tradição artística, numa conexão que transcende o tempo e a geografia, e mostra como a arte pode reinventar-se e adaptar-se ao longo do tempo, enquanto mantém as suas raízes na expressão humana.
Esta história faz parte do projeto “Vida com Graça: uma redação no bairro”.
Da iniciativa de quatro mulheres nasceu a luta e a esperança de mudar um bocadinho Lisboa. Mais precisamente, o bairro da Graça, que assim como outras zonas históricas da cidade tem sofrido os efeitos da pressão do turismo e da gentrificação. Preservar a memória e a vida em comunidade estão entre os objetivos do projeto capitaneado por elas, o Vida com Graça. A iniciativa faz parte do projeto BIP/ZIP Vida com Graça, dinamizado pela Cooperativa Criar Cidade com o apoio da Mensagem de Lisboa.
As autoras escrevem com o antigo Acordo Ortográfico.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
