No meio do caos provocado pela tempestade Kristin, que varreu Portugal em janeiro, o lisboeta João Kopke fez da força dos ventos uma oportunidade para enfrentar a natureza. De prancha em punho, aproveitou a agitação onde o Tejo se encontra com o Atlântico para surfar ao lado de um dos cartões postais de Lisboa, a Torre de Belém. Era o retorno do surfista ao inusitado pico (o local exato onde as ondas quebram), visitado há dez anos, também durante a passagem de uma outra tempestade por Lisboa.

Mas e se este momento fosse também… uma aula de História?

Mais do que reencontrar um velho cenário e testar os próprios limites, o momento registado em vídeo serviu de onda para João Kopke surfar por um tema geralmente controverso: a expansão marítima portuguesa. Aproveitando-se de estar ao lado da torre onde as caravelas partiam, sem ferir suscetibilidades, com a habilidade de quem sabe evitar os perigos da rebentação.

Tem sido assim a onda de João, surfista mas também um criador de conteúdos digitais curioso e atento, que circula por Lisboa e arredores em busca de experiências singulares. Todas elas o ponto de partida para uma reflexão sobre a sociedade, como a visita à Cova da Moura, quando desconstruiu alguns preconceitos normalmente associados aos bairros sociais.

Aos 30 anos, este português filho de pai e mãe brasileiros que se conheceram em Lisboa, aos poucos quebra também assim um outro preconceito, esse normalmente associado aos surfistas, de serem desligados do mundo, alheios aos temas importantes da atualidade. 

“Antes, era normal ver o surf como algo marginal, de pessoas que não queriam pensar. Mas isso já não é assim”, diz João, cuja trajetória inclui uma formação em música clássica e o diploma em ciência política e relações internacionais na Universidade Nova de Lisboa.

Quando não está no mar ou a gerir a sua produtora de vídeo, troca a prancha por um contrabaixo para fazer música.

Filho de pais brasileiros que se conheceram em Lisboa, João Kopke foi para mar aos 8 anos como remédio para a hiperatividade. Foto: Rita Ansone.

A rotina diversificada de atividades aparentemente desconectadas umas das outras espelha o temperamento agitado que o acompanha desde cedo. “Fui diagnosticado como hiperativo ainda pequeno e o surf fez parte do tratamento. O meu remédio sempre foi mexer-me”, conta João, que começou a pegar onda ainda aos 8 anos de idade.  

Começava aí a história do jovem e o mar.

À procura de ondas, o que mais se pode encontrar?

Num dos reels no seu Instagram, João Kopke tece uma reflexão filosófica-existencial enquanto encara um tubo. A discussão é sobre o poder coletivo na formação da opinião de cada um de nós, sintetizada numa estrofe de Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas, cantarolada por ele em defesa do direito de se dizer o oposto do dito antes.

O vídeo termina coerente com os argumentos, sem fechar uma opinião, abrindo a oportunidade de quem o assiste entrar no debate. Ou seja, 2500 anos depois de Sócrates, João defende e pratica a arte da dialética, não numa ágora ateniense, mas equilibrado sobre uma prancha em Carcavelos. 

Uma técnica apurada em longos diálogos como pai. “Aprendi e aprendo muito com meu pai, um cara que adora estudar e é muito falador. Herdei dele esse jeito de refletir sobre as coisas”, diz. A tendência em ser bastante didático, porém, deve ser ainda mais antiga.

Oriundos da Alemanha, os Kopke passaram pelo Porto antes de chegar ao Brasil. Primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, um outro João Kopke ficou famoso pela atuação na área educacional, na virada entre os séculos XIX e XX. Um republicano defensor da educação universal, científica e laica, ideias defendidas por um homem considerado crítico e polémico.

Lembra alguém?

João recorda-se que começou a reconhecer-se assim como é hoje refletir sobre vários assuntos em pleno mar, enquanto esperava por uma onda. “Aos poucos, percebi que o surfe não é só performance e não é preciso se estar ali parado apenas a olhar para o mar, sem pensar”, conta.

Daí nasceram os vídeos “filosóficos”, tendo não apenas o mar como cenário, mas também um restaurante escondido em Sintra, soterrado por uma montanha de algas ou num laboratório que transforma cogumelos em casas.

No começo, João Kopke se achava um “alienígena” entre os surfistas, até decidir a transformar seus pensamentos em histórias. Foto: Rita Ansone.

“Perguntava-me, à procura de ondas, o que mais posso encontrar? E a resposta mais a ver com a minha personalidade e com o que gosto de fazer é: contar histórias.”

João sabia, era um pouco diferente dos colegas de onda. Principalmente quando começou a surfar regularmente, nos tempos de um cenário do surf português mais sombrio. “Na época, havia um sério problema com heroína e ouvia-se bastante que um ou outro tinha morrido de overdose. Esse tempo foi ficando para trás e hoje o surf está mais ligado com a cena saudável.”

Ainda hoje, João continua a parecer “meio esquisito” para os amigos. “No começo, foi estranho, sentia-me um alienígena. Só depois percebi que nunca seria aquele surfista a pegar a melhor onda, e sim, o que poderia produzir conteúdos enquanto surfava. E acho que funcionou”, explica.

Funcionou tanto que João costuma contar o dia em que uma mãe o parou ao sair do mar em Carcavelos para lhe agradecer em relação ao filho. “Ela disse que o menino não se interessava por nada e passou a gostar de história após ver as minhas cenas e acabou por passar nos exames para entrar na faculdade”, conta, abrindo um sorriso, o surfista cuja onda é fazer os outros pensarem.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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