Na sala escura da Fábrica das Artes, no Centro Cultural de Belém (CCB), as cadeiras dispõem-se em meia-lua diante de um ecrã onde o título de uma canção lança uma ordem: “Faz Perguntas”. Um grupo de professores e educadores de várias escolas de Lisboa estão reunidos para um workshop onde, desta vez, não vêm ensinar, mas sim aprender. O embaraço é quase palpável. 

Beatriz Pessoa, cantora e compositora. Foto. DR

À frente da sala, Beatriz Pessoa conduz o momento com naturalidade. A cantora e compositora é a responsável pela criação das 12 canções que dão corpo a este projeto: um coro participativo no CCB, onde pessoas de várias idades cantam canções inspiradas em 12 livros da coleção escolhida pela Assembleia da República.

A ideia insere-se numa outra à qual chamaram “Missão: Democracia“. Foi criada no contexto das comemorações dos 50 anos da Constituição Portuguesa, de 1976, e traz uma proposta simples, mas ambiciosa: aproximar os cidadãos dos princípios da democracia… através das artes performativas.

O programa estende-se de 23 de abril a 10 de julho, começando com o coro participativo, entre 23 e 26 de abril. Segue-se um debate entre profissionais da filosofia democrática e da cultura, a 25 de abril, e o espetáculo A Constituição, de Isabel Costa, com quatro apresentações entre 24 e 31 de maio. Inclui ainda três encontros sobre literacia democrática e literária nas escolas, a 9, 16 e 23 de maio, e termina com cinco dias dedicados às crianças, de 6 a 10 de julho, para uma imersão num dos livros da coleção E se fôssemos a votos?

O nascer do Coro de Cidadãos

O projeto começa aqui, neste espaço de preparação. É uma espécie de esconderijo secreto destas dezenas de professores que vieram, primeiro, para serem eles a aprender. Estão num workshop, antes de passarem a mensagem aos alunos, que vão subir a palco também.

“Faz perguntas”, repete o ecrã. E, entre vozes ainda inseguras, a música começa a ganhar forma, sob a orientação da professora-mestre Beatriz.

O destino final é um concerto deste “Coro de Cidadãos”, em que o teatro será ele próprio transformado numa assembleia. No coro participativo, tal como na democracia, o palco e plateia deixam de ser espaços separados, tornam-se um só. E o “povo” é convidado a participar, mesmo sem nunca ter ensaiado.

Estes adultos são o início de um coro onde vão participar pessoas de todas as idades, no CCB. Foto: DR

Para além dos workshops destinados a professores, já em curso, haverá também sessões orientadas permitindo preparar os participantes para a experiência do coro. Estão previstas quatro apresentações, entre 23 e 26 de abril, no Centro Cultural de Belém, antecedidas por um workshop aberto ao público, onde serão ensinadas as canções.

Tratar cedo, e com arte, da democracia

Madalena Wallenstein, coordenadora e programadora da Fábrica das Artes

Foi Madalena Wallenstein quem convidou Beatriz Pessoa para este projeto. Madalena é programadora e coordenadora da Fábrica das Artes e, há 17 anos, ocupa-se da programação dos projetos transdisciplinares de artes performativas para públicos jovens no CCB.

“A democracia somos todos nós e todos nós podemos participar nessa vida democrática. Todos devemos conhecer a nossa lei fundamental, que é a Constituição, e que regula os instrumentos básicos da democracia”, diz.

Madalena explica que é essencial chegar à idade adulta com uma compreensão profunda dos princípios da democracia e dos canais de participação, para que cada cidadão, independentemente da sua idade, da sua origem cultural ou da sua nacionalidade, perceba que tem um papel na democracia. “Obviamente não é uma programação do Centro Cultural que vai resolver esse assunto, mas esse é o nosso contributo”, remata.

Como criar canções para a democracia

Este projeto específico tem um enquadramento político – democracia, Constituição, entre outros – mas isso não é novidade: a Madalena define o teatro e as artes em geral como um espaço público, um lugar para pensar o mundo, incluindo os seus temas políticos, um espaço de partilha e de discussão sobre assuntos que são importantes para todos e, por isso, inevitavelmente políticos. 

Beatriz Pessoa concorda plenamente com esta ideia. “Acho que naturalmente a arte e a música acabam por ser sempre um bocadinho políticas, porque vivemos sempre numa atualidade — seja ela qual for — que passa por nós e pelas nossas vivências. Acabamos sempre, mesmo que seja uma canção de amor, por ter ali qualquer coisa que é uma referência à política, porque a política é o que nós vivemos. É a comunidade, é o dia a dia”, diz.

Ela que já tinha colaborado noutros projetos com a Fábrica das Artes do Centro Cultural de Belém, não conhecia a coleção de livros antes de Madalena Wallenstein lhe propor a criação destas 12 canções. E, ao lê-los, percebeu de imediato a importância do projeto em que estava a participar.

As canções de Beatriz Pessoa nascem dos livros da coleção Missão: Democracia. Foto: DR

Foi-lhe dada total liberdade na escolha do processo criativo e das músicas, que durou cerca de seis meses. Dois a três meses foram dedicados à leitura e releitura dos livros — alguns inspiraram imediatamente uma canção, com letra e música a surgirem em conjunto; noutros casos, a música veio primeiro e o texto depois, ou o contrário; e houve ainda situações em que nasceu apenas uma ideia inicial que, com o tempo, deu origem ao resto.

Os textos finais, apresentados durante o workshop, formaram uma amálgama de estilos musicais, temas e palavras que foram conquistando lentamente todos os participantes, até que bater o pé no chão ao ritmo da música e cantar com Beatriz tornou-se inevitável. Ao chegarem às últimas canções, os olhares embaraçados e a timidez da sala já tinham sido completamente dissipados pela sua voz e pelo sorriso.

“Até o workshop as canções só viveram dentro do meu quarto. Partilhá-las com os professores e com aquele público já foi um grande passo e estou muito entusiasmada agora para a próxima fase, que será começar a trabalhar com a banda e com os músicos, com o coro de crianças que estará comigo em palco. E, obviamente, o que me entusiasma mais será o culminar disto tudo nos concertos ao vivo”, diz Beatriz.

Beatriz Pessoa redigiu 12 canções, que podem ser ouvidas no CCB. Foto: DR

Nos dias dos concertos, em palco, estarão Beatriz Pessoa e o restante corpo de músicos: o baterista João Lopes Pereira, o guitarrista e baixista Gustavo Almeida, Raquel Pimpão nas teclas, Tomás Matos, no saxofone, e Rubén Daluz, no trombone.

A este grupo juntam-se quatro crianças em palco, antigos alunos da própria Beatriz Pessoa, provenientes da escola cooperativa A Torre, parceira do projeto. O papel deles será fundamental: funcionarão como uma ponte entre o que acontece em palco e o coro participativo formado pelo público, ajudando a estabelecer uma ligação direta entre o palco e os espectadores.

O espetáculo integra ainda uma componente visual significativa. Raquel Reis desenvolveu projeções animadas a partir das ilustrações da coleção de livros que inspira o projeto, criando um cenário em constante movimento. Essas projeções incluirão também partes das letras das canções, convidando o público a participar e facilitando a memorização.

A participação, no entanto, não é uniforme ao longo de todo o espetáculo. Há momentos especificamente pensados para o envolvimento do público, enquanto outros exigem escuta e atenção. Essa alternância reflete, de certa forma, os próprios princípios da democracia: saber quando intervir, mas também quando ouvir e respeitar o espaço do outro.

*Esta reportagem tem o apoio do Centro Cultural de Belém


Sara Bassini

Nasceu em Itália, Veneza, e migrou para Lisboa, onde é estudante de jornalismo na Universidade Católica. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

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