Há dias, 5 de fevereiro, 4 da tarde, inverno desgraçado, pela Calçada do Combro abaixo, adivinhando o Tejo enevoado, não cheguei lá. Não por os avisos prevenirem mais chuva, vento, inundações, mas porque eu tinha um encontro luminoso com meus patrícios mais queridos.

Daqueles de chegar perto deles e apetecer-nos sempre um abraço de agradecimento. Bem-vindo à tua pátria da Outra Banda, General! Por que partiste tão cedo, Lena? Meus respeitos, ó mãe de todos os repórteres portugueses, Senhora Dona Virgínia! Que saudades, Pantera! Olá, Tito Lisboa, tão Mindelo, quer dizer, tão nosso…

E, assim, repetida, uma homenagem a cada um e a todos, prestada a uma dúzia de personagens, que me são muito, muito queridas.

Nessa quinta-feira, às 4 da tarde, uma dúzia exata de ilustres lisboetas juntaram-se ao fundo da Calçada do Combro. Ali onde ela bifurca: ir pelo Poço dos Negros, travessa de nós todos, ou para a casa de todos nós, o Parlamento – uma, ou outra rua? Os doze ficaram ali mesmo (dizia a pretensiosa tabuleta: “Largo Doutor António de Sousa Macedo”), com dois palácios fronteiros e fidalgos, o Mesquitela e o Cabral. Entraram, à direita, no Palácio Cabral, nº 7 D, a porta larga da Junta de Freguesia da Misericórdia. Eu segui-os.

Foi lá que eles se transformaram, todos, em quadros-retrato e se penduraram nas paredes centenárias. Na verdade, se nos quadros estavam todos, os doze, presencialmente faltavam alguns que eu, podia jurar, vi descer juntos, pela calçada. Fica o leitor prevenido de que o aqui se vai contar é a Lisboa real, a eterna e extraordinária.

E há ainda quem diga: “Tanto mestiço, mas isto é Lisboa?…” Claro que é. Ele há outra coisa?

Estávamos no andar térreo, nas duas salas de exposição do Espaço Santa Catarina, com arcadas sem estuque para mostrar tijolos anteriores ao terramoto. Doze quadros-retrato expostos ao nosso agradecimento. E alguns dos retratados, como já referi, também em presença física e orgulhosa. Apeteceu-me, emocionado, gritar a todos e a cada um:

“Vai mas é para a tua terra!”

O grito era sincero, embora, evidentemente, desnecessário. Os doze retratados já lá estavam, na cidade, país, amor que tanto honraram. Cidade deles, país delas, terra dos doze.  

A inaugurada homenagem – a exposição decorre até 19 de fevereiro – traz este ano quatro novos quadros que se juntam aos das edições anteriores da Black History Month, em 2024 e 2025. Três edições, quatro pinturas por cada uma delas, doze quadros, a aritmética é a única coisa enfadonha nesta história.

A iniciativa Mês da História Negra veio de longe, de muito longe. Do Canadá, país do rio Saint-Laurent, ainda mais largo que o nosso Mar da Palha e que por esta altura está gelado (até abril). As fragatas e faluas de lá, se as houvesse, nem com quebra-gelo ousariam navegar. Mais uma razão por a oferta, vinda de tão longe, nos aquecer o coração.

Foi proposta canadiana celebrar-nos a presença e o contributo histórico das comunidades afrodescendentes em Portugal. O Canadá contribui oferecendo-nos quadros de figuras portuguesas de origem africana, pintadas por artistas deles, afro-canadianos.

Assim de repente, poderia parecer isto: eles (os canadianos) querem que nós celebremos, na nossa casa, o que se passa com gente que não tem, necessariamente, nada a ver com eles. Não seria de desconfiar, uma interferência de país estrangeiro em assunto interno nacional? Não, pelo contrário. É um abraço de dois países, ambos honrados pelos abraços que acontecem, todos os dias e de há muitos séculos, nesses dois países.

No Palácio Cabral, eu vi e ouvi a embaixadora Elise Racicot, em Lisboa desde 2022, a dizer que nos conhece. Diplomata gentil e inteligente, logo que chegou, ela pensou: que posso oferecer a um país cujos cidadãos, mais de meio milhão, tanto fazem no Canadá? Que podia fazer ela, em Portugal, para mostrar quanto estava agradecida?

Podia, por exemplo, servir nas receções da embaixada de Lisboa xarope de ácer, que é especialidade canadiana. Mas ela queria mais do que isso.

Elise Racicot começou por nos lembrar que no Canadá, desde 1970, há o festival tradicional Black History Month e esse Mês da História Negra, realizado sempre em fevereiro, consiste em homenagear os seus compatriotas de origem africana. 

Uma história de viagem, de lá para cá e de cá para lá, que Portugal tão bem conhece. Daí que, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, a Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) e várias associações de portugueses afro-descendentes, ela nos tivesse incentivado a homenagem também por cá.

Mateus da Costa, de Portugal para o Canadá

Black History Month, então, o que é? A embaixadora explicou-se da melhor forma. O assunto era sobre pessoas, certo? Então, Elise Racicot discursou o nome de uma pessoa: “Mathieu da Costa” ou “Mateus da Costa”, o primeiro negro do Canadá. Nada como um substantivo – cara e nome – para irmos diretos ao assunto.

Um julgamento em Paris, em 1607, certificou-lhe o nome, “Mathieu da Costa”, e classificou-o de “naigre” (mal escrito, da palavra francesa de conotação racista “nègre”). Antes e depois dessa data, ele foi dado como membro de expedições navais pelo mundo novo que se estendia pelos mares frios do Canadá atlântico. O que confirmou aquele Costa como o primeiro negro do país.

Mathieu Da Costa (Groupe CNW/Postes Canada)

Era um homem liberto, falando francês, português e também uma das línguas, o micmac, de povos nativos à volta do rio Saint-Laurent. O patronímico, Costa, e o português ser uma das suas línguas levaram a supor, disse a embaixadora, ser forte a probabilidade de, além da origem africana, ele ser também português. A comunidade portuguesa no Canadá, meio milhão de pessoas, também assim o considera.

Algumas incertezas há sobre esse passado, mas a profissão, o trabalho, aquilo com que ele ganhava a vida e o inseria no mundo foi o que distinguiu Mathieu da Costa. Ele traduzia. Juntava uns e outros. Tão bom, tão útil.

Por isso Mathieu da Costa tem estátua e nome de ruas em várias localidades canadianas, Toronto, Montreal e a cidade de Québec. Tem efígie em selo canadiano e o nome registado em expedições pelo rio de Saint-Laurent, acima, abaixo e por terra dentro, em encontros de gente diferente. Unindo.

E para concluir, pergunte-se, o Canadá apoia o Black History Month em Portugal, porquê? E por que paga a artistas afro-canadianos para pintarem afro-portugueses?

Numa palavra (enfim, três), a embaixadora Elise Racicot respondeu: “Mathieu da Costa”. Nada como os factos para transformar estranhezas em profundas verdades. Mathieu da Costa representa para o Canadá o que cada um dos doze nossos admiráveis portugueses fez por Portugal. Nas escolas canadianas de línguas, os alunos têm-no como exemplar. A quantos meninos negros ele não incitou para uma carreira de intérprete? E, se calhar, o Mathieu da Costa até convenceu incréus canadianos daquilo que aquelas crianças sabem de si: que elas são canadianas.

Ora, num país tão diverso – com duas línguas oficiais, inglês e francês, e esta, a mais falada no Québec – que surpresa boa saber que um dos símbolos históricos do unir pelas palavras foi português.

O Mateus da Costa, um desses raros homens cujo fazer desconstruiu preconceitos.

A embaixadora Elise Racicot, no palácio Cabral, agradecendo-nos o empréstimo do português Mateus da Costa ao Canadá. Foto: Junta Freguesia da Misericórdia

Elise Racicot é rara. E eficaz: agradeceu aos cidadãos que vindos de longe valorizam o país de onde ela, embaixadora, veio. E agradeceu duplamente: com os seus compatriotas afro-canadianos homenageou os afrodescendentes do país onde ela chegou. Geralmente os embaixadores são ambíguos; esta é ambidestra.

Os nossos afro-portugueses

Regresso, então, aos homenageados, no fundo da Calçada do Combro.  Antes, porém, destaco um pormenor que tem a ver com tudo isto. O meu amigo e cartunista Nuno Saraiva faz sempre um desenho para abrir as histórias que aqui conto. Trabalhamos assim: falo-lhe em geral e ele decide onde mete o foco.

Reparem na imagem cimeira que ilustra esta crónica. Não no Eusébio, o afrodescendente que enche o desenho. Mas naquele pequenino pormenor do homem de corda grossa ao ombro e boné, encostado a uma parede da Calçada do Combro. O homem é um daqueles carregadores que se ofereciam à chamada “pssst, ó galego!”, grito da Lisboa antiga. Aparentemente, nada a ver com esta história…

Pois, estão enganados, não falo eu de outra coisa. Aquele galego branco, que nunca tinha nome (só uma interjeição: “ó galego!”) – é o epítome da necessidade de lembrarmos os representantes dos que sempre cá estiveram e quase nunca damos por eles.

Da necessidade do Mês da História Negra em Portugal, pois.

Gostei de ver o retrato de Eusébio, pintado pela negra panamiana Jacquie Comrie, que vive em Toronto. O luso-moçambicano está a marcar aquele livre em que o braço se estica como um punho de vontade e a perna se projeta com o saber de quem acerta. A bola parte (no quadro nem se vê), nem sei se foi golo. Na verdade, sei, saltei e berrei. O importante foi o que aquele homem nos uniu.

Eu pertenci a essa religião, porque gosto dos bons que fazem bem. Então quando são excelentes…

Eusébio da Silva Ferreira veio de longe e oficiava na Luz. Eu ouvi o silêncio tantas vezes repetido, antecedendo o livre com que ele nos marcava a todos. O estádio, a cidade e o país. Uma vez, numa rua pacata, no semáforo, saí do carro, agarrei na minha filha, pequenina, e corremos para o carro da frente, que também esperava. O Eusébio baixou o vidro e dissemos, os brancos: “Obrigado”. O negro fez um sorriso e corremos de volta ao carro.

Sim, sei, eu merecia multa de trânsito, mas o que fiz foi continuar a dar à minha filha o mais perfeito dos cursos superiores: admirar quem merece.

O Eusébio do nosso contentamento, quadro de Jacquie Comrie, 2024. Foto: Junta Freguesia da Misericórdia

Mais homenageados, diferentes e iguais

Os que chegaram sabiam que não eram de geração espontânea, trouxeram passado consigo. Sérgio Matsinhe nasceu em Moçambique, em 1971, mas aos quatro anos já vivia na Outra Banda. Em 1990, lançou o primeiro festival de rap em Portugal, na Incrível Almadense, na sua nova terra. Ele próprio já se chamava, então, General D.

Rimas de rua, concertos hip-hop, a um single seu, em 1994, chamou-se “Portukkkal É Um Erro”. Os três KKK, de Ku-Klux-Klan, pareciam um exagero, mas havia carapinhas vindas da Outra Banda que eram recebidas no Cais do Sodré por cabeças rapadas (por fora, e estúpidas, por dentro).

Um dia, o General D partiu. Foi uma quinzena de anos de mitos sobre o local onde esteve. Moçambique? Brasil? Jamaica?… Em 2014, escreveu-se no Público que alguém chamara recentemente “pai do rap português ao rapper Boss AC”.

Da mesma geração inicial, o próprio Boss AC indignou-se: “Se alguém deve ter esse título, é o General D. Ele, sim, abriu-nos o caminho, foi o primeiro a gravar, o primeiro a ter um videoclipe, a ter banda, a ter contrato.” O jornalista Vítor Belanciano foi descobrir o General D em Londres.

Na semana passada, vindo de Londres, para o Black History Month, 2026, chegou o General D, que continua nome de guerra. Este ano era um dos homenageados. Ninguém lhe pode negar a condição de fundador de nova música popular lusa, o rap lisboeta, que é o que ele tem feito pelo mundo fora. 

General D junto do seu quadro com a cantora moçambicana Selma Uamusse, a atriz Cláudia Semedo e a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade. Foto: Junta Freguesia da Misericórdia

Ele esteve presente em pessoa e também em quadro exposto. O quadro dele olhava para outra a parede, onde estava o quadro de Sara Tavares, homenageada há dois anos. Ambos incrivelmente almadenses. Para ela, infelizmente, já só no quadro, morreu em 2023, a curta vida passada com saudades das suas origens cabo-verdianas, cantadas de forma suave. Da sua parede, ela via ao fundo o quadro de Tito Paris, homenageado em 2025.

De noite – sou eu a imaginar – quando a exposição fecha a olhares menores, do que falaria o triângulo de olhares dos nossos cantores? A Sara certamente perguntava ao Tito: “Diz-me, como foi ter passado a infância no Mindelo de Cesária?”

Ou será que, na madrugada, cantavam ambos outra capital do mundo, também deles, mulher e homem pela sua cidade, Lisboa? A minha imaginação estava sustentada em factos. No álbum “Novo Homem da Cidade”, de 2004, a Sara cantou “A Nova Feira da Ladra”, com o seu versinho sábio, “todo passado é lastro do futuro”.

E o Tito, no mesmo álbum, narrou o cauteleiro da Baixa a não apregoar a taluda: “Fado da Pouca Sorte”.  Canções que julgávamos exclusivas de Carlos do Carmo, tão boas, mas, aqui, tão com mais uma coisinha… Como tenho estado dizendo, recebermos outros mundos enriquece.

Será que nas prováveis assombradas madrugadas, por estes dias quando as duas salas já estão desertas de público, o regressado General D também abrilhanta os fados dos seus companheiros, com as rimas de rua do rap lisboeta…

Ouve-se Tito Paris, sobre o cauteleiro a apregoar números: “Quinze mil quatrocentos e três/ Nove mil trezentos e dez”… E, em contraponto, General D a ritmar: “Pá Pum/ Pum Chaka bum/ Governo quer bumbo/ Pum Chaka Bum”. A Sara Tavares: “Aqui um coração, ali uma gravura/ É a Feira da Ladra ternura”… E o General D a pontuar: “Rappers e guerreiros/ Agitam sem rodeios”…

Não sei se um empresário faria uma fortuna com a gravação deste hipotético espetáculo. Sei é que tudo isto é Lisboa, tudo isto é sina e nada é fatalidade. É um prazer.

Sabem quem foi também este ano homenageado? O Teatro Griot, uma companhia de Lisboa. Fundada em 2009, inspira-se em personagens sedutoras. Os “griots”, da antiquíssima cultura da África Ocidental, que descia do império do Mali à Costa do Marfim.

Os “griots” compensavam uma falha histórica das suas sociedades, a inexistência da escrita. Eles preenchiam a função de guardiões da memória, eram os contadores de histórias. E as histórias, porque faladas, ficavam enriquecidas. O “griot” mexe o corpo, ilumina o olhar que narra, modula o som que a voz transmite. A sua estética do contar exalta a imaginação. E quando, como lhe é habitual, o verbo oral se apoia em instrumentos de música, mais rápido e melhor conduz ao encantamento. Mas chega de comparações, não é mais nem menos do que a página escrita – é outra coisa.

Em sua vantagem, os “griots” até poderiam fazer ironia sobre a cultura da escrita: hoje, talvez a falta de sucesso das cantigas de amigo e maldizer se deva à proibição de se tocar tambores e marimbas nos arquivos centenários da Biblioteca Nacional.

Em 2022, a Mensagem de Lisboa foi fazer reportagem ao Teatro Griot. Então, à repórter Catarina Reis chamou-lhe atenção o “mundo” de um dos membros da companhia, Zia Soares: “Começou na Companhia Nacional de Ballet da Guiné-Bissau, fez artes circenses na Amsterdam Balloon Company e fez teatro na companhia Os Sátyros, em São Paulo, Brasil. É filha de mãe angolana e de pai timorense.” O currículo podia não ter dado em nada, mas era viajado.

Os atores do Teatro GRIOT no Teatro São Luiz em 2022. Foto: Inês Leote

O facto é que o lisboeta Teatro Griot já tinha levado a peça A Tempestade à prisão de Caxias, onde cruzaram jovens reclusos com o velho Shakespeare. E encenaram, no São Luiz, a peça “Uma dança das florestas”, do nigerianoWole Soyinka, o primeiro africano Nobel de Literatura (1986). [Eu, que sou coca-bichinhos, diria que o primeiro africano Nobel (1957), foi Albert Camus, nascido na Argélia, e que se não fosse a pátria da sua infância, seria outro escritor].

O Teatro Griot atuara para famílias afrodescendentes dos bairros da Grande Lisboa, assim como, em parceria com a Universidade Sénior, ensinando artes performativas a idosos.

Na Mensagem de Lisboa, o ator e “griot” Miguel Sermão (estupendo nome) resumiu o que aconteceu: “Acabámos por sair com muito mais do que aquilo que lhes levámos”.

Não é isso a essência do que se premeia no Black History Month?

Na reportagem, em 2022, a atuação das senhoras da Universidade Sénior, patrocinada pela Junta da Freguesia e a Santa Casa da Misericódia, era ilustrada por fotos delas no Espaço Santa Catarina, e as suas belas arcadas de tijolos descascados, no Palácio Cabral.

Oh, coincidência, no mesmo lugar onde, quatro anos depois, na semana passada, na cerimónia do Black History Month 2026, se pendurou a foto dos contadores de histórias do Teatro Griot. 

Acabada a cultíssima intervenção da generosa embaixadora Elise Racicot – iluminada pelas suas três elucidativas palavras: “Mathieu da Costa” –, a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia Carla Almeida discursou. E disse: “O nosso bairro é misturado. Aqui, a palavra mais importante é igualdade”. Naquela tarde falou-se pouco e mostrou-se muito.

Ilustração de Nuno Saraiva

O santomense Johnson, português exemplar

Outro retrato exposto foi o de João Semedo Tavares, aliás, Johnson Semedo, um dos quatro afro-portugueses homenageados no ano passado. Em entrevista ao Expresso, em 2015, ele definira a sua infância, assim: “Éramos um pouco como aqueles miúdos de Os Capitães da Areia, do Jorge Amado”.

Johnson foi dos que chegaram e logo soube que não o queriam cá. Nascido santomense, já morava aos dois anos na Cova da Moura e, literalmente, nas ruas do bairro, desde os nove anos. Morreu aos 50, medalhado por Marcelo, como exemplo nacional, e com voto unânime de pesar apresentado pelo CDS na Assembleia Municipal de Lisboa.

Johnson Semedo tinha um lema, falso e admirável: “Somos aquilo que fazemos”. O que fazemos não somos nós que fazemos, quando, como ele, se vive na rua aos 9 anos e se é já é toxicodependente. O que é absolutamente admirável é ele, depois de se iniciar a ser preso aos 16 anos (e por razões legítimas para ser punido), passar o resto a vida a conseguir que jovens desfavorecidos apreendessem, graças a ele, uma lição do caraças: “Somos aquilo que fazemos”.

A Academia Johnson, que fundou no Bairro do Zambujal, teve nele um cavaleiro da esperança, não propagandeando ideologia, mas fazendo. Fazendo, não esperando que façam por ele.

Johnson Semedo, treinador de futsal, misturando tons de pele, tanto menino mestiço, branco e negro, eles e elas, mostrando ao “Pedro Bala” que tem de respeitar a “Dora” (também cito Jorge Amado) – e lutando para que a Buraca deixe de ser a imagem da mãe angustiada. Por um salário de miséria, as mães descem às 5 da manhã para apanhar carrinhas que as levavam limpar lojas e escritórios da cidade inteira e, como se não bastasse a carga, levam consigo o medo de terem deixado abandonado o seu menino a traficantes.

A Academia Johnson foi (é) para as mães do bairro um refrigério e para muitos miúdos a salvação, mesmo.

A ideia principal que o Canadá nos deu não foi olharmos os retratos dos nossos ilustres afrodescendentes. Nem a função do retrato do Johnson Semedo é este ser olhado. O essencial dos retratos dos notáveis é cuidar que os nossos afrodescendentes mais desfavorecidos sejam olhados.

Dito isto, a Naide Gomes quando foi homenageada, no Black History Month 2025, já tinha anos e anos de medalhas (incluindo de ouro em Mundiais de Atletismo) e muitos aplausos nossos. Mas faltou-lhe, estou certo, não ter podido mostrar a sua admiração ao seu duplo patrício, também português e santomense.

Ela sabia, atleta excelsa, o que foi mais Johnson Semedo: cuidador intensivo. Para os atletas modestos, para os meninos e meninas comuns, para cada um, o subir deles ao pódio era vê-lo, ao lado de si, um exemplo de todos, a fazer e a construir. Sal da terra, diz-se, num livro antigo, o que foi Johnson Semedo.

Naide Gomes, que fora homenageada em 2025, exposta agora no Espaço de Santa Catarina. Foto: Junta Freguesia da Misericórdia

Johnson Semedo já tinha morrido dois anos antes, quando o seu quadro-retrato foi entregue às mãos de um filho, no palco do Capitólio, na edição do Black History Month, em 2025. O autor do quadro era Brian Amadi, nascido na Nigéria, pintor e fotógrafo, que também assinava, então, os óleos sobre madeira, de Naide Gomes e do cabo-verdiano Tito Paris.

Ainda nesse ano, o nigeriano Amadi iria ser artista-residente numa pequena ilha da província canadiana Terra Nova e Labrador. Ali, ele trabalhou numa série sobre imagens digitalizadas, intitulada “Foreigner at Home”, sobre estranhos em casa. Enfim, sobre o que temos estado a falar: o homem pelo mundo fora.

O nigeriano Amadi criou, em 2025, a obra de arte “Estranho em Casa” numa ilha canadiana chamada Fogo Island. Fogo, como uma chama que arde e se vê em Cabo Verde. E Lisboa ama.

Mas a coincidência, mais uma, era outra. A tal pequena ilha canadiana onde esteve Brian Amadi chama-se Fogo Island.  E a principal localidade da Fogo Island, ilha do Fogo, chamava-se Fogo. E o principal porto, Fogo Harbour.

A pequena ilha, na costa norte da Terra Nova, foi conhecida sempre como Fogo. Não é tradução de coisa nenhuma, é nome assim: Fogo. Essa ilha canadiana foi sempre Fogo durante a pesca do bacalhau, desde Quatrocentos, até à Grande Faina de há poucas décadas. Muitos aveirenses nos seus dóris, solitários, na pesca à linha, talvez nunca a tenham visto, o nevoeiro quase nunca deixava. Mas todos lhe conheciam o nome.

Um mapa francês de 1606 (do tempo do Mateus da Costa, lembram-se?) tentou chamar-lhe, traduzido de ouvido, “Isles des Fougues”. Mas a memória mais antiga, vinda do bacalhau, impôs à ilha, até hoje, o velho nome, Fogo. E assim continua oficialmente no Canadá, Fogo Island.

Do mesmo tamanho que a canadiana, a xará cabo-verdiana, ilha do Fogo, foi a segunda a ser povoada do arquipélago, em 1462.  Até por causa do seu vulcão, sempre imprevisto, cedo os cabo-verdianos do Fogo foram dados a reemigrar e um dos destinos preferidos foi a costa norte-atlântica da América. Mas isso foi  muito mais tarde, na caça da baleia, no séc. XIX, já com Moby Dick.

Porém, uma lenda insiste sobre um cabo-verdiano extremamente precoce, do séc. XV, embarcadiço não se sabe em quê, mas só podiam ser bacalhoeiros portugueses ou bascos, em vendo a ilha canadiana, lhe deu a “sodade” e batizou-a de “Idja di Fogu”, que quer dizer Ilha do Fogo.

Ponto a favor desta tese, afinal, o tal mapa francês, com “Isles des Fougues”, também podia ter sido roubado do crioulo. Contra essa hipótese, a “Sodade”, cantada por Cesária Évora, diz “Sodade des nha térra Saniklau”, saudade da ilha de São Nicolau, não do Fogo. Outro contra: ninguém que conhece a beleza fulgurante do Pico do Fogo, mesmo com o vulcão apagado, confunde a ilha cabo-verdiana com a Fogo Island, a da neblina constante.

Mas, espécie de “griot”, acrescento novo ponto a favor da tese cabo-verdiana: se a ilha canadiana ficasse a chamar-se São Nicolau, a letra de “Sodade” seria o documento comprovativo. E talvez a Cesária fosse nacionalizada, talvez a canção fosse há muito o Hino do Canadá e, então, seria cantado por ela na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976.

Só Céline Dion ficaria triste: “L’Hymne à l’amour”, cantado pela canadiana na Torre Eiffel, na recente cerimónia de abertura dos JO de Paris, 2024, passaria a ser só a segunda mais bela canção jamais cantada durante uns Jogos Olímpicos.

Onde quero chegar?

Filha de aveirense medieval ou de cabo-verdiano cedo reemigrado, ambos bacalhoeiros, a mais provável hipótese madrinha do nome Fogo é a primeira. Em todo o caso: sempre tanto mar, tanta história… Fogo Island é um incidente cartográfico que só sublinha a clareza deste fio de história: nós somos, de lá para cá, de cá para lá… E com tanto andar e cruzar, as coincidências tornam-se inevitáveis.

Em 2024, Francisca Van Dunem, à esquerda, a receber o seu quadro-retrato das mãos da deputada Romualda Fernandes. Foto: AIMA

Este ano, também vi a Francisca Van Dunem, homenageada em 2024, a olhar para o quadro-retrato do fundador da Academia Johnson. Não precisei que ela me dissesse o que pensava, conheço-a desde menina. Éramos vizinhos, no nosso bairro de São Paulo, Luanda, irmã do José e do João, meus irmãos também. Fomos educados (eu, simples visita amiga) em convicções inculcadas pela Dona Antónia Van Dunen, hoje centenária lisboeta, digo-o com tanta pena, por tão luandense ela ser sempre. O Johnson Semedo foi um herói, daqueles com que a tua mãe nos ensinou a sonhar, não foi, Francisca?

Da rebelde Virgínia Quaresma, também homenageada na primeira fornada da Black History Month, sei o que ela faria com o nosso Johnson. Nascida na alentejana Elvas, filha de general e de descendente de escravos, Virgínia Quaresma foi a mãe e pai dos repórteres portugueses.

Na década de 1920, n’ O Século, ela foi chefe das Reportagens Especiais, quando as mulheres ainda não se sentavam nas redações. No Rio de Janeiro foi contratada por jornais brasileiros para seguir grandes e sensacionais casos. Em Lisboa ajudou a fundar a luso-brasileira Agência Americana de Notícias, e ela foi a primeira empregadora da jornalista Maria Lamas. Ela adivinhava quem se interessava pelas pessoas do seu país, sobretudo as mais desapossadas, mulheres, pobres, não brancas.

 Não fosse as datas o impedirem, Virgínia Quaresma (1882-1973), contadora do mundo, ter-nos-ia emocionado com as histórias vividas por Johnson Semedo.

1882 foi de excelente colheita para as afro-portuguesas homenageadas pelo Black History Month. Além da grande repórter Virgínia Quaresma, também nesse ano nasceu Georgina Ribas, na vila angolana do Ambriz. O pai, Frederico de Carvalho, tinha origens brasileiras, o avô era comerciante no Recife. A mãe era negra de Cabinda.

Georgina Ribas veio para Portugal em 1885. É outra coincidência. Nesse ano, assinou-se o Tratado de Simulambuco, na casa rica de Manuel José Puna. Os chefes dos povos de Cabinda submeteram o seu território a Portugal. O líder dos cabindas, Manuel José Puna, apesar de requestado pelos ingleses, que lhe ofereceram protetorado, preferiu os portugueses.

O retrato de Georgina Ribas, em 2024. Foto: AIMA

Em 1871, já o rei D. Luís o fizera Barão de Cabinda, mas mais do que a regalia titular, o interesse maior de Manuel José Puna já estava em extinção. Na primeira metade do século XIX, com outro chefe cabinda, o seu sogro Francisco Franque, ambos negros, foram donos de navios negreiros e os principais organizadores do tráfico esclavagista entre Cabinda e o Brasil.

Malhas que o Império tece, uma das muitas filhas legítimas de Manuel José Puna foi a mãe de Georgina.

Batizada Georgina Carvalho, em 1886, na igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique, ela foi registada como filha de mãe incógnita. Só na sua idade adulta, malhas que a vida tece, conseguiu o reconhecimento legal da mãe na sua identidade oficial. 

Georgina Ribas (nome do marido) diplomou-se no Conservatórios Nacional de Lisboa, foi dotada pianista e professora de Música. Mas a pertença africana marcou-a. Em Lisboa, fundou a Liga das Mulheres Africanas e no Grêmio Africano advogou as independências africanas, adiantando-se mais de um quarto de século ao surgimento dos movimentos de libertação nas colónias.

Deste tão viajado e de raízes fundas, português Black History Month, deixo para o fim, Helena Lopes da Silva, homenageada este ano, pintada com acrílico sobre tela por Kando, nascido em Kinshasa, artista em Montreal. Trabalhou bem, apanhou o olhar da Lena, tão firme.

Quando ela morreu, em 2018, dois Presidentes, o português Marcelo Rebelo de Sousa e o cabo-verdiano João Carlos Fonseca foram à Aula Magna da Universidade de Lisboa falar da cidadã (compatriota dos dois); pessoal do Hospital de Santa Maria acorreu à homenagem da colega cirurgiã; gente da luta civilizada e gritada chorava que deus a dava.

Eu lembrei-me dela, daquele olhar que agora revi, firme, pousado, exigente. Nunca conheci ninguém que pedisse tanto – e não era para ela.

Helena Lopes da Silva, homenageada, e familiares (a filha Josina e o neto,, junto ao quadro, e o sobrinho Nuno Delgado, premiado judoca olímpico). Foto: Embaixada do Canadá

Um dia, a mim, que tenho sempre mais que fazer, convocou-me a estar de manhãzinha nas Urgências do Hospital de Santa Maria. Era preciso levá-la para o encontro com alguém, em que um jornalista dava jeito… Ou era eu que tinha uma dor menor… Já não sei. O facto é que cheguei a horas e ao local que urgia, como uma placa, aliás, indicava. A Lena já lá estava, a bata parcialmente a arrastar, a cara cansada de uma noite a operar – saía de mais um banco.  Empurrou-me, apressando-me…

Foi então que ela viu uma maca estacionada ao lado da parede de corredor concorrido. Estava ocupada. A doutora Helena Lopes da Silva parou e debruçou-se para uma velha. Discreto como sou, afastei-me alguns metros e desviei o olhar. Um quarto de hora depois, já aflito com o atraso, ousei olhar. A Lena acariciava a mão pálida da velha, falava-lhe docemente. As duas viviam o que eu vi, num flash, neste contar de Lisboa. Gente da minha cidade.

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Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

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