Morreu o Seu João do Pirilampo, aquele mesmo, o cozinheiro mais velho de Lisboa, que nunca perdeu unzinho dia sequer de trabalho na vida, pois para o Seu João garantir o prato cheio dos outros não era trabalho, era alimento para a própria vida. Mas quem é pirilampo, sabe como é, não se apaga, não morre nunca, anda mesmo é vaga-lumear por aí, iluminando as noites claras.

Escrevi a história do Seu João aqui mesmo e não sei como funciona para os outros cronistas, os outros jornalistas, os outros escrevinhadores mundo afora, mas uma vez no meus textos, o entrevistado transcende a frieza de uma fonte, a indiferença de personagem, e transforma-se num amigo próximo, a depender da história, até parente vira, como se fosse da família.

Não tem jeito, sou dessas categorias de cronistas, jornalistas e escrevinhadores, dos que se apegam às pessoas. Foi assim com o Seu João, o incansável pirilampo, como foi com outros que cruzaram à frente do meu amarrotado bloquinho de papel.

Foi assim com a Dona Alice Coelho, do bar Procópio, a Dona Alice que viu a democracia portuguesa renascer por entre as mesas do seu bar no pós-25 de Abril, que viu o Verão Quente ser cosido à sombra do abajur art-decò na mítica mesa dois e ainda, num verão igualmente quente, sentou-se na companhia desse repórter zuca para um copo de imperial e muitas histórias.

Alice, no país das maravilhas do Procópio. Um brinde, um brinde. 

Também foi assim, em outra redação, mas enviado pela mesma capo Catarina, numa inefável tarde com Carlos do Carmo na Costa da Caparica, quando o maior fadista de Portugal deu-me de comer à boca uma iguaria local – as almofadas, talvez – que a transportava à infância, os olhos verdes do homem maduro diante do doce a brilharem como os de uma criança.

Houve também um incontornável copo de imperial, sempre há, com as ondas do mar a rebentarem no areal branco e Carlos do Carmo a falar de Chico Buarque, da idolatria por Sinatra, de um concerto perdido no tempo, o famoso fadista na primeira fila, os olhos verdes marejados, o blue eyes no palco, the end is near, the final curtain, etcetera e tal. 

My way como jornalista tem sido assim, ainda bem, lá no Brasil ou por aqui, onde a minha vida nesta década tem corrido, como no refrão rock and roll dos anos oitenta, no passo de é melhor dez anos a mil por hora do que mil anos a dez. 

Oh, yeah.

O triste mesmo neste obituário nostálgico é que com os seus joões, as donas alices e os carlos do carmo se vai um pouco – ou muito – de uma Lisboa romântica, poética, de uma Lisboa até certo ponto ingênua, uma Lisboa nabokovianamente menina-moça Lolita, antes de ser perseguida e corrompida pelo cinismo Humbert Humbert da especulação imobiliária, da gentrificação, da ganância.

Uma Lisboa anti-pirilampo, que aos poucos tem deixado de brilhar, apagando-se lentamente.

Uma Lisboa que agoniza.

Vivos estão mesmo aqueles que se foram, que partiram, que alimentaram, brindaram, cantaram e amaram uma Lisboa igualmente viva, com seus milhões de defeitos, é verdade, e justamente por isso, uma Lisboa humana, capaz de ser acolhedora e cordial com os seus e com quem chega.

É para a memória desses lisboetas e dessa Lisboa, essa crônica.

Aos vivos.


Imagem do avatar

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *