Ele há lugares como o Triângulo das Bermudas, chega-se lá e tudo desaparece; e ele há lugares como o quase finzinho da Estrada de Benfica, onde tudo se transforma em histórias, que se casam e se confundem, juntam nomes e reinventam surpresas. Estes últimos são melhores.

A meio quilómetro de chegar às Portas de Benfica, a igreja da Nossa Senhora do Amparo de Benfica foi projetada pelo arquiteto João Frederico Ludovice, o do Convento de Mafra. Quase em frente da igreja há o chafariz de Benfica, virado para a Estrada de Benfica… Já repararam, portas, igreja, estrada, chafariz, ali no bairro, aliás, também ele Benfica, há uma palavra para deixar na boca a dissolver, sabe bem e ali fica.

Bemfica, como os antigos grafavam. 

Então, ao lado do chafariz há um marco rodoviário que, mais do que a quilometragem, assinala a idade dele, isto é, diz que é velho – e para o provar mente. A pequena pedra caiada e puída diz em tinta gasta: “Lisboa – 8 KM”.

De facto, não é verdade, há anos que aquele lugar é Lisboa. Uma pequena Lisboa dadivosa que farta de se dar a nós todos. Um cronista-mor intitulou o sítio, assim: “O Paraíso”. E escreveu: “Quando eu era pequeno havia duas pastelarias em Benfica. Uma por baixo da igreja, frequentada pelo proletariado do bagaço, sempre cheia de serradura e de beatas esmagadas a que chamavam Adega dos Ossos.”

E prosseguiu: “A outra pastelaria, quase em frente da primeira, tinha o nome de Paraíso de Benfica, era frequentada a seguir à missa por senhoras de devoção inoxidável.”

O cronista é o António Lobo Antunes, falando de si adolescente, meados da década de 1950. Nessa altura já Benfica era, há mais de um século, não saloia, mas lisboeta por lei municipal. O lugar aqui lembrado ficava no fim da famosa Estrada, do lado já de dentro das Portas de Benfica, logo, era Lisboa.

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão conheceram a paisagem, de tantas vezes por ali terem passado a caminho dos mistérios da Estrada de Sintra, mais adiante, para os contar em folhetim no Diário de Notícias. E já nesse tempo a Estrada, a outra, a de Benfica, era lisboeta.

Há pouco o chafariz lembrava (não toparam?) que Carlos do Carmo num dos mais belos hinos lisboetas, O Amarelo da Carris, juntava duas palavras adequadas: “outrora” e “agulha”. Em chegando ao adro da igreja, o guarda-freios mudava a agulha ao elétrico, coisa antiga que durou ali 70 anos.

Um ir e regressar, um pêndulo de dois carris. O fado era de 1977 e entre os bairros servidos, não cita Benfica.

Ainda hoje, nos bancos frente ao banco, há velhos que não sonham mais, não leem os jornais que o quiosque não vende, nem ouvem os relatos, perdido o hábito do rádio, e no Nilo, a pastelaria que substituiu O Paraíso, velhinhas parecem suspensas na recordação do elétrico que vai “da Alfama à Mouraria e trepa à Graça” e Carlos do Carmo sempre se esquece de lembrar Benfica.

Urge recordar isso, que não acontece e acontece. Melhor exemplo, ainda, agarrar o Carlos, outro, o do Eça, d’ Os Maias, que ia de carruagem descapotada para Sintra “e o breake rodava na Estrada de Benfica e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoilas…”

Paipolas!?

No outono de 1875, já Eça de Queirós nos alertava para a palavra mais vibrante dita sobre o nosso assunto. Em 1953, para arranjar dinheiro para o Estádio da Luz, um tenor que já tinha cantado para o rei Faruk, Luís Piçarra, cantou as papoilas saltitantes.   

Pormenor, pois, indispensável, esse, do pequenino marco ao lado do chafariz de Benfica. O pouco que ele diz é errado. Mas é lindo ele não querer esquecer coisas suas. Por ali é-se muito por ali, mas nunca se esquece de onde se veio. Preparem-se para a quantidade de forasteiros de que vamos falar a seguir.

Trazer o Lobo Antunes da sua juventude, voltar ao lugar mágico em que cresceu, pertence à categoria da obrigação cívica. Como não aproveitar mais uma ocasião de lembrar as suas crónicas na revista Visão, vinte anos de prémios nobéis citadinos semanalmente entregues.

A Adega dos Ossos, sob o coreto de então?

“Para além das prateleiras de lombadas de garrafas, uma biblioteca de delirium tremens, lembro-me do empregado vesgo, de olho direito furibundo e esquerdo de uma benevolente ternura e do Senhor Manuel sacristão que ali descia entre duas missas, de opa vermelha, a comungar copos de três.”

A adega toda contada com vida, quando o nome lhe vinha de restos dos corpos desenterrados quando se fez o novo cemitério, o atual, longe da igreja.

A Pérola de Benfica?

“Ao contrário da Adega dos Ossos, cheirava bem e sobretudo os meus irmãos e eu tínhamos conta aberta para bolos e sorvetes. Compreendi depois que não se tratava propriamente de generosidade: é que aos domingos almoçávamos em casa da minha avó e a oferta destinava-se a desviar-me das nádegas rupestres da cozinheira cujos encantos eu havia começado a descobrir por essa altura.” (Algumas Crónicas, António Lobo Antunes, editora Dom Quixote, 2002)

Há pouco foi evocado um marco caiado e enganador. Serviu para ilustrar um bocado da cidade. Agora, é na avó de um notável filho que a cidade aparece. Isto é olisipografia, a ciência dos amantes a caçar Lisboa.

O encanto de Lobo Antunes, iluminar pormenores, alimenta quem merece a pertença a lugares que merecem.

A três minutos a pé, indo da igreja para as Portas de Benfica, havia o chalet dos avós paternos de Lobo Antunes, Eva e António, com uma cozinheira de coxas tentadoras. A bela casa amarela, com quinta à volta, o poço e o catavento esguio no jardim, pescoço de girafa atenta à sua savana, foram vendidos e deitados abaixo em 1970. E as duas pastelarias já não existem.

Ilustração de Nuno Saraiva

Ali, naqueles nem 200 metros de estrada, da igreja ao chalet, e mais próximo deste, foi onde o Sport Lisboa e Benfica jogou pela primeira vez: num campo tosco, em cima da rua (Estrada de Benfica) que atravessava a antiga quinta da Feiteira.

Aconteceu assim, havia um Sport Lisboa, fundado em 1904 e com uma bela equipa, mas sem campo; e um Grupo Sport Benfica, sem grande equipa, mas com aquele terreno alugado na Feiteira. Juntaram-se os dois em 1908 e surgiu o Sport Lisboa e Benfica com camisola vermelha, lema unido E Pluribus Unum (De Muitos, Um) e sigla sonora, SLB. 

Conhecem o resto. Um dia, um famoso humorista, Ricardo Araújo Pereira, teve a primeira filha, pegou nela e com as duas mãos ergueu-a como quem mostra um troféu. Foi espontâneo, fez o que viu o avançado do centro José Águas fazer com a primeira Taça dos Campeões Europeus que o Benfica ganhou em Berna, em 1961. O mais engraçado é que o humorista nem podia ter visto, ele só nasceu quase 15 anos depois.

Resumindo, aquele pedaço da Estrada de Benfica tem efeitos estranhos.  

E depois há aquela foto da varanda do primeiro andar do chalet que foi dos Lobo Antunes. Senhoras de sombrinha, assistem a uma partida de futebol na Feiteira, lá em baixo, na rua. Nunca um camarote presidencial do Benfica foi tão elegante.

A vivenda conhecida com Chalet Alemão, a casa amarela de de António Lobo Antunes (avô), talvez pertença de sua mulher Eva Futscher de Figueiredo, chamav-se assim por parecer uma vivenda da Floresta Negra. Foi a primeira “tribuna presidencial” do SLB (veem-se as sombrinhas das senhoras a assistir ao jogo). Foi vendida e destruída em 1970 (ou 72).

Não é verdade que hoje já nada haja ali, a não ser um Novo Banco que não é marco de coisa nenhuma, no prédio que substituiu o chalet. Se este foi-se, ainda há a vizinha Vila Anna, hoje, as últimas paredes do mundo que viram a primeira vitória do Benfica sobre o Sporting, 2-0, 1908.

E dois anos passados, a mesma Anna mais a Vila Ventura, vivendas gémeas em espelho, de torreões com janelas em óculo, que assistiram ao clube da casa, quer dizer, da rua da frente, de terra que nem é batida a ganhar o seu primeiro Campeonato de Lisboa, 1910.

As duas vilas gémeas, a Anna e a Ventura, ainda vivas, vão ter o fio da sua meada espantosa e cheia de inquilinos célebres (o marechal Spínola, o maluco do Luís Pacheco, a enorme Maria Lamas…) seguido em crónica própria.

Ilustração de Nuno Saraiva

Agora, continuemos à cata do mais substantivo e simples que uma cidade tem para se dar. Um lugar, neste caso um pedaço de estrada, e o que os homens fizeram dele. Um lugar não são só factos e os homens são também memórias. E às vezes destas o mais importante nem é a veracidade.

O problema é que há distrações, para as quais fomos educados, pormenores evocadores que preferimos não ver. Como é que o leitor, ainda há pouco, nos deixou sair da igreja de Benfica sem um reparo: “Ei, ninguém vai dizer que aqui o Sr. Coluna foi padrinho?!”

O casamento de Esuébio com Flora, na Igreja de Benfica. Lá dentro, a RTP filmou o capitão Coluna a levar a noiva ao altar. Cá fora, o adepto só tem olhos para o ídolo Eusébio. Foto de Eduardo Gageiro
 

Aconteceu no dia em que o Eusébio casou com a Dona Flora (uma união de meio século e feliz) e o Pantera Negra acabava de ser eleito o jogador europeu do ano (1965) e ia a caminho do brilharete a que só falhou o remate, logo a ele, no Mundial de Inglaterra. Cita-se o Sr. Coluna, não pelo evento social, afinal o casamento era de outros, embora amigos, nem tão pouco pelas tantas taças e glórias desportivas representadas naquele dia na igreja do Amparo.

Recorda-se a circunstância noticiosa do casamento de Eusébio, por causa glória histórica do que representou o padrinho. Modernidade, decência convivial, o que quiserem, de, na década de 1960, e quando eram raros os futebolistas não brancos a jogar na Europa, haver um clube português e a seleção nacional que decidiram ter um mestiço a comandar – o capitão Mário Coluna.

Nessa década, os espectadores dos estádios europeus – mesmo nas bancadas não ouvindo o campo, e se ouvissem, sem compreender a língua – percebiam o respeito com que os futebolistas brancos José Augusto e Simões pediam ao capitão Coluna para marcar um livre. Não é para desmerecer a beleza de um passo de minueto na corte de Luís XIV em Versalhes, mas quanto mais extraordinário foi ter assistido àquele salto civilizacional no estádio da Luz e por onde andava o Benfica, repetido ao longo de 90 minutos, nos anos 60.

Coluna ser capitão, não sendo branco, era caso único na Europa. Mas citá-lo no meio de um casamento não será um despropósito? Não, pois não foi acaso coisíssima nenhuma.

Não foi acaso, foi por causa da Estrada de Benfica, que é abençoada e fecunda. Ela fazia acontecer, até coisas muito mais tarde. Pôr o holofote sobre um tipo, tipo Coluna, embora em acontecimento colateral, pode ajudar a suscitar a procura de outros espantos, e até encontrá-los, precedentes e antiquíssimos.

Neste bocadinho de estrada nada é fortuito e qualquer incidente pode levar-nos até ao fim do mundo.

A 5 de abril de 1907, houve um jantar em Cabo Ruivo, junto ao Tejo, do outro lado da cidade, mas com as atenções postas na nossa Estrada de Benfica. Como um folheto anunciava, o jantar era de despedida e tinha menu exquis. Exquis não quer dizer esquisito, mas delicado, e usava-se a palavra francesa porque a ementa estava recheada de palavras inglesas e a história era perdidamente portuguesa.

O jantar era da equipa de futebol do Sport Lisboa, um clube de futebol fundado em 1904 numa farmácia em Belém e ainda sem amarras de campo para jogar, nem sede própria para conviver. Entretanto, o Sport Lisboa passeava pela cidade a sua paixão, em jogos avulsos ou vagamente organizados.

Em 1906, a equipa foi vítima do raide de um clube que acabara de aparecer. O Sporting Clube de Portugal rapinou-lhe quase todos os jogadores. Já o contámos atrás, com resultados e camisolas de emblema.  

Agora passamos a alegorias e metáforas, com gente dentro. O jantar em Cabo Ruivo também estava relacionado com esse mau momento – mais dois estimados jogadores do Sport Lisboa se iam embora. Sempre com alusões à língua mãe do foot-ball, o menu dizia que havia free kick, como então se chamava aos pontapés livres. Anunciava-se assado com puré de penalties. E que havia dribblings, que basta pronunciar alto para lhes reconhecer conversa da bola. Referia-se um referee e dois linemen, com apito e bandeirinhas.

Enfim, aludia-se ao goal-keeper Manuel Móra e ao half-back Fortunato Lévy, o guarda-redes e o médio homenageados, que iam deixar a cidade e até a Europa. Um era alourado, o outro, de traços negros.

O cuidado artístico do menu não era de estranhar, a maioria dos presentes eram sportmen, amadores cultos de uma moda recente que se espalhava por Lisboa, o futebol, fenómeno então sofisticado. O menu podia ter sido desenhado pelo antecessor do keeper Móra, o Pedro Guedes, o primeiro guarda-redes do Sport Lisboa, um pintor de Macau que iria ser fundador da Sociedade Nacional de Belas Artes. Como estávamos dizendo, falamos de assunto com raízes cosmopolitas e ramos cultos.

Mas não, o desenho não era do macaense, mas do próprio Manuel Móra, um dos homenageados (por isso não se nomeou no texto). Designer gráfico, como hoje se diria, Móra partia para a Argentina, e daí para o Brasil, onde se se tornaria famoso, não como futebolista. Ele brilhou como capista, perito em desenhar a página-montra com que as revistas ilustradas se apresentavam aos leitores.

Em 1928, Móra foi o autor da primeira capa da revista Cruzeiro. Mãe de todas as revistas brasileiras, o Cruzeiro chegou a vender 700 mil exemplares, criou um género jornalístico em que o Brasil sempre caprichou. O que aqui se sublinha é que o autor do menu de um jantar de amigos tristes, à beira Tejo, foi o mesmo que anunciou o Cruzeiro durante uma dúzia de anos ao Brasil inteiro.

O outro futebolista que se despediu naquela noite, o Fortunato Lévy, voltava para a sua casa de cabo-verdiano, nascido na cidade da Praia, ilha de Santiago. Era uma tradição na família, voltar a casa. Os avós paternos dele eram judeus sefarditas, que regressaram no início do séc. XIX ao seu Portugal, depois de uma multissecular ausência em Marraquexe, Marrocos. Já nascido em Faro, o pai de Fortunato foi para Cabo-Verde, onde se casou com uma crioula. Daí o médio esquerdo do Sport Lisboa ser mestiço. Não tão negro como foi desenhado no célebre menu, mas de tez escura e cabelos crespos, de risco ao lado.

Acontece ainda que Fortunato Lévy foi capitão do Sport Lisboa. Outro?! Sim, tal qual o Sr. Coluna, no Sport Lisboa e Benfica, 60 anos depois! Como já foi dito, histórias, que se casam e se confundem, juntam nomes e reinventam surpresas. E até, ficamos a saber, o passado imita o futuro. 

Pelos vistos, não ser ariano puro acontece-nos muito. Ainda durante o episódio de terem ficado quase sem jogadores, foi um miúdo, Marcolino Bragança, de 16 anos, que foi ter com os colegas mais velhos e respeitados, o Cosme Damião e o Félix Bermudes e os convenceu a juntar os juniores à equipa principal, quase exangue. Foi dele o arreganho “não, não acabamos!”, que levou à decisão de continuar. O que se consumou na ressurreição do Benfica, em 1908.

Cosme Damião seria, durante décadas, aquele que nunca aceitou ser presidente do clube, mas mais do que isso, o organizador. Félix Bermudes foi quem impôs o novo nome, Sport Lisboa e Benfica, porque conhecia o valor das palavras. Além de várias vezes presidente do clube, Bermudes também iria ser da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 1922, escreverá a peça Lua Nova que inaugura o teatro de revista no Parque Mayer. Jogando em equipa, ele criou alguns dos maiores êxitos desse mais popular teatro.

Félix Bermudes também escreveu o guião do filme O Leão da Estrela. Os protagonistas são dois adeptos fanáticos, mas simpáticos, do FC Porto e do Sporting (inesquecível a interpretação de António Silva, que fazia de leão a habitar na Estrela). É sempre gentil a ironia com que a caneta do benfiquista pinta os rivais.  Os outros, ah, os outros, respeitá-los é sempre a medida de todos os grandes.         

Do miúdo Marcolino, diria Cosme Damião em entrevista à Bola, em 1945: “Foi a alma da resistência, ele perdeu o ano do liceu, mas ganhámos a continuação do clube”. Conquistada a honra de participar em alguns jogos pelo Benfica, o mito glorioso que ajudou a inventar, o jovem voltou para a sua terra natal, São Tomé.

Sim, Marcolino Bragança era outro mestiço. Daqueles que se podem reclamar de suevos ou de guinéus, mas preferem ser tão-só da raça humana. E, sobretudo, daqui ou dacolá, acolá ou aqui, são sempre do lugar onde estão. Sal da terra, termo bíblico, em versão moderna.    

Regressado Marcolino Bragança a São Tomé, voltou a partir, já adulto, para Angola. Nas margens do rio Loge fez uma plantação de afamadas de laranjas vermelhas. O miúdo, depois de ter criado em Lisboa um grito para enrouquecer as multidões, “SLB! SLB, SLB…”, levou as quitandeiras luandenses, de cabaz à cabeça, apregoar uma doçura: “Naranja! Naranja do Loge…”

No primeiro plano, Cosme Damião, ao centro, e Marcolino Bragança, à direita

E meio século depois desta história ter começado ancorada num pedaço de estrada lisboeta, o Benfica foi a Angola, em 1969. A equipa foi visitar Marcolino Bragança, que os recebeu na casa dele, em Luanda, vejam a foto do velhinho, no quintal, cercado pelos já bicampeões europeus, mitos que foram agradecer a quem permitiu o mito:

O mestiço Almada Negreiros – outro santomense e exato contemporâneo (Almada e Marcolino partilharam os mesmos quase 80 anos que viveram, entre 1891 e 1971) – é mais versátil e jogou em modalidades mais nobres, pintura e poesia. Já Marcolino Bragança parece ter sido só bom de bola… Mas lá estamos nós sem dar a conta devida ao que arde sem se ver.

Ainda hoje, no mais misturado, maior e melhor mercado de Lisboa, juntinho ao bocado de estrada que nos tem conduzido por esta história, há quem jure ouvir de vez em quando o pregão “Naranja! Naranja do Loge…” No Mercado de Benfica há bancas de cerejas de Resende na época certa e também de farinha de bombó para fazer muamba como deve ser.

Para quem não ouviu na infância aquele pregão, um poeta angolano que morreu em Pequim, Viriato da Cruz, mandou uma carta em papel perfumado a uns seios laranja – “Laranja do Loge!” – e mais um cartão que o amigo tipografou, num canto “sim”, noutro canto “não” e ela o canto do “não” dobrou; rogando de joelhos, pela Senhora do Cabo, à Santa Efigénia (e à Nossa Senhora do Amparo), ele pediu namoro – e ela disse que não; mandou à Vó Xica, quimbanda de fama, areia da marca que o seu pé deixou, pediu um feitiço, e o feitiço falhou.

Até que um branco angolano, Fausto, musicou e um cantor portuense, Sérgio Godinho, ou terá sido a Teresa Salgueiro, da Outra Banda, cantou…

Tocaram uma rumba: “Dancei com ela, olhei-a nos olhos, sorriu para mim, pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.”  É o poema “Namoro”, do cancioneiro português, certamente um dos nossos mais belos “Ai Deus, e u é?” dos Sá de Miranda e Viriato da Cruz da língua comum.

Não acreditem, não, em sortilégios…

O angolano Viriato da Cruz, o do poema, que foi morrer tão longe dos seus, nasceu no Quanza-Sul. Tal como os irmãos Maurício e Adolfo Vieira de Brito, nascidos na mesma terra de café robusta. Ambos foram presidentes do Benfica e nos seus mandatos o clube, na taça dos Campeões Europeus, foram a quatro finais, num total de sete. E, entre estas, as únicas duas em que o clube ganhou foi deles.

É por isto estar tudo ligado que as coincidências se repetem.        

Recapitulemos, no princípio, era a Estrada de Benfica, num local preciso. Se bem se lembram, já lá passamos, entre a igreja do Senhor Manuel que iria ser sacristão, anos 50, e do Sr. Coluna, que iria ser capitão, anos 60, daí, até ao chalet dos Lobo Antunes.

Meçam a distância igreja-chalet : são 168 metros de rua citadina. Reparem na coincidência: mais do que o suficiente para lá caber um campo de futebol em comprimento.

O que havia de ser estava tudo programado desde a noite dos tempos. As regras do Football Association determinavam, de baliza a baliza, um mínimo de 90m. Logo, ao comprido podia haver um campo de futebol. O problema, poderia ser a rua não ter, e não tinha, a largura mínima de 45m exigidos pelos regulamentos. 

Homens de pouca fé, incréus nos dotes da Estrada de Benfica, quimbanda de fama. A estreiteza ficou facilmente resolvida. Se de um lado moravam já a igreja, o chalet e algumas vivendas, o lado oposto estava desimpedido de prédios. Razão: paralela, por ali corria a ribeira de Alcântara. Assim, a linha lateral do campo pôde estender-se até essa margem fluvial e esquerda.

O trajeto dos rios é feito com a teimosia, por vezes, de milhões de anos. Como aqui se tratava só de um fio de água, vá lá, ponhamos, aí pelo Pleistoceno, só foram precisos milhares anos para a ribeira estar ali. Mesmo assim, pode dizer-se que o campo da Feiteira, para estar destinado ao futebol, estava determinado há muito, muito tempo que assim havia se ser. Feitiço da Estrada de…, perdão, Estrada do Benfica. 

Resumindo, há fotos de lavadeiras da ribeira de Alcântara a pôr roupa a corar até ao desenrolar de um desafio. O leitor vai de avião ou comboio: não conta esta coisa mais linda a um companheiro de viagem, mesmo desconhecido? E para acentuar o cunho popular do jovem clube, as balizas tinham as traves abauladas e as redes eram oferecidas, depois de gastas na faina, pelos pescadores da Trafaria.

Ilustração de Nuno Saraiva

A fama do Benfica tinha já atravessado o Tejo.

Ultrapassada a fase de sem teto, os anos de casa compartilhada, 1908 a 1911 foram de sucessivos recordes de maiores assistências em jogos de futebol. De um lado, gente encostada e empoleirada nos muros das vivendas, mais janelas e varandas cobiçadas. Do outro, espalhada pela margem da ribeira e receio de não pisar roupa a secar. Num jogo contra o Carcavelos, em 1910, atingiu-se 8 mil espectadores, então recorde nacional.

Deste período falha o relato de uma normalidade: sendo o campo, estrada, e esta, pública, porque não consta um só conflito entre um chuto de  penalty  e o rodado de uma carroça apressada para levar a farinha à cidade? O normal seria o saloio, fortalecido pela legitimidade de ter acabado de passar pelo imposto das Portas de Benfica, mandar bugiar os protestos de um half-back, ainda por cima de calções. 

 O último jogo no campo da Feiteira, foi no ano seguinte, contra o Stade de Bordéus, clube francês que visitava por amizade, O jogo era patrocinado pelo jornal Os Sports Illustrados que contou os cuidados adequados a um campo de futebol em cima de uma rua:

“Os postes dos goals foram pintados de fresco. O campo foi muito bem vedado, de forma que os espectadores fiquem muito afastados das redes, para não incomodarem os keepers com ditos ou objurgatórias que os enervam, roubando-lhes a serenidade de que tanto precisam.”

O primeiro jogo internacional do SLB tem os franceses do Stade Bordelais (de Bordéus), na foto. Foi também o último do Benfica no campo da Feiteira. Aconteceu em 22-05-1911 e por isso tem uma novidade: a Villa Ventura, pintada de branco (construída em espelho da irmã, em 1910), gémea da Villa Anna (1890), já espreita na foto. A Igreja de Benfica, ao fundo.

Era claro que o campo da Feiteira rompia pelas costuras. Arriscava-se à derrota por causa do sucesso galopante. Era urgente arranjar um campo que não partilhasse com rodados. A Estrada de Benfica arranjou solução, bastou fazer bico ao prego: desta vez, apontar para cidade. Viagem também curta, 400m em voo de pássaro. Por estrada era chegar à rua seguinte e virar à direita.

Nessa avenida Gomes Pereira havia um palacete neorromântico. Estava a pedi-las, o clube abancou. Fez da casa, sede e, nas traseiras, o novo campo da bola.

A sede do SLB, onde hoje funciona a Junta de Freguesia.

Era outra quinta, mas sem rodovias, desenharam-se as quatro linhas do Campo do Benfica (nome assim curtinho, para não acrescentar mais um ao longo rol).

Fez-se um rinque de hóquei patins, 1914, que foi o berço de nova modalidade na pátria. O Benfica criou aulas de ginástica sueca para crianças do bairro e implicou com a Câmara para ela seguir-lhe o exemplo. Abriu-se um cinema (1915), com o letreiro “Cinema” e, em cima dele, o emblema da águia a galá-lo. Hoje o palacete é a sede da Junta da Freguesia de Benfica. Numa das esquinas da frente há um antigo café chamado “Golo”, letreiro gritado. Só os forasteiros não sabem porquê.

A Fábrica Simões, de confeção de roupa fez-se vizinha de paredes-meias nos anos em que o clube chegou. Durante décadas transformou-se na maior empregadora do bairro e arredores. O clube fez sede ali durante dez anos, a fábrica ficou meio século.  Pertenças tão fundas, como o trabalho e paixões, aprofundam e conflituam. Quantos Natais chorados, conversas confundidas.

Uma das ruas mais recentes de Lisboa, a José Simões, criada este ano, desemboca na Avenida Gomes Pereira e honra o patrão da fábrica.

Qual fábrica, a que havia ao lado da Junta? Essa mesmo, agora é condomínio. Ouvi que os livros do Lobo Antunes vão ter lá uma biblioteca jeitosa. O escritor? Sim, o pai jogou hóquei patins e também ali, no Benfica. Eh pá, já só me lembro do Livramento…

Por isso ao lado do chafariz de Benfica há bancos para velhinhos, há sempre tanto que falar.    

Quando Félix Bermudes foi presidente pela primeira vez, já o clube estava na Gomes Pereira, 1916.

Nesse mesmo ano, lançou uma revista no Eden, com o Fado Gangas cantado pelo Estevão Amarante. Este fazia de carroceiro, com quadras assim: “Um inzimplo vou dar já/ Quer a gente açúcar pão/ Bacalhau arroz e grão/ Dizem eles que não há.” Presidente de pé na bola e cabeça desempoeirada, em plena Grande Guerra.

O presidente no ano seguinte foi o Bento Mântua, também dos teatros, este mais sério. Pouco antes, este levara uma peça sua ao Teatro de São Carlos. Chamava-se O Fado, inspirada no célebre quadro de José Malhoa, O Fado. Esperem, ainda não acabou, a peça do Mântua inspirou o realizador francês Maurice Mariaud, que veio a Portugal e fez o filme O Fado, em 1923. É pequenino, 21 minutos, é mudo, mas quando estreou no Salão Central foi acompanhado à guitarra. E tem imagens assim: 

Como deviam ser interessantes as assembleias gerais que escolhiam os presidentes do Benfica há cem anos e picos. E eles nem se aproveitavam, de tão considerados na vida civil, populares e cultos, para descurar o trabalho no clube.

Bento Mântua era funcionário público, chegaria a Secretário-Geral do Ministério das Finanças. Intelectual, era suficientemente respeitado para ser convidado a escrever na Atlântida, revista que pretendia pôr Portugal e o Brasil a pensar que raio de identidade era a dos dois.

O diretor da Atlântida, no Rio de Janeiro, era o jornalista João do Rio que assinava o que era, João do Rio, carioca passeante que passava os passos para crónica, sempre com os bocadinhos inesperados que é o melhor que uma cidade tem. Morreu jovem e deixou tudo que escreveu ao Real Gabinete Português de Leitura.

O pai do presidente benfiquista, o jornalista Alfredo Mântua, era um português que passou décadas em Luanda e lá morreu em 1895. Interessado na sociedade local, que era a da mãe dos seus filhos, fundou jornais e a Sociedade de Geografia de Luanda. Tal como o seu filho Bento, luandense, veio garoto para Lisboa, e acabou a escrever O Fado.

Quanto a ser presidente, Bento Mântua trazia uma fisgada. Percebeu o sortilégio daquele cantinho da Estrada de Benfica. Era encantamento, mas também podia ser maldição. O chefe de repartição cortou a direito: ter um campo de futebol, construído de raiz e propriedade assegurada era a prioridade.  Mântua tomou posse em 1917 e decidiu o Campo das Amoreiras; foi-se construindo e ele sendo eleito, anos sucessivos; inaugurou-se as Amoreiras em fins de 1925, e Bento Mântua foi-se embora no fim desse mandato.

Nunca mais o Benfica pagou aluguer para jogar. Nunca ninguém esteve tanto tempo a mandar no Benfica como Mântua, exceto um, e foi recente.  Mas esse não conta, não tem histórias, que se casam e se confundem, juntam nomes e reinventam surpresas.

Bento Mântua tomou posse na primeira presidência a 22 de julho de 1917. Quatro dias antes, ele anunciava nos jornais de Lisboa que a tia e madrinha, D. Maria Amélia Cortez Mântua falecera. A senhora era irmã do pai, que ficara em Luanda quando o menino demandou Lisboa. A tia e madrinha aparentemente fez um homem que passou a vida a fazer, como se confirmava com a obra a que ele ia deitar mãos em breve e cumpriu.

O anúncio do funeral da Dona Maria Amélia, para o dia seguinte, 19, pelas 5 da tarde e para o Cemitério Oriental, dizia também: “(…) saindo o préstito fúnebre da Rua Direita de Bemfica, nº 705, 1º”.

Exatamente na porta ao lado do marco que está na Estrada de Benfica a dizer-nos que há histórias do caraças.  

Nesta série da Mensagem, Fala-me de ti, LisboaFerreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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Nuno Saraiva

Lisboeta empedernido, colaborou praticamente em toda a imprensa nacional. Cartunista político, o seu traço é o traço de Lisboa, é o autor das imagens das Festas de Lisboa de 2014 a 2017, criador dos troféus das marchas, e há 10 dos seus murais nas paredes da cidade. O seu livro Tudo isto é Fado! ganhou o prémio do Festival internacional de BD Amadora. Dá aulas na Lisbon School of Design e na Ar.Co. São dele todos os desenhos na homepage da Mensagem.

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