Daniela Mateus Ferreira nasceu e cresceu na Azambuja, e nem a faculdade e, agora, o trabalho em Lisboa foram motivo suficiente para a fazer abandonar a terra que a viu crescer: “Fiz o mestrado e licenciatura em Lisboa, sempre fui e vim, nunca me passou pela cabeça morar em Lisboa. Lisboa é uma cidade muito desligada.” O mesmo sente Gonçalo Cerqueira Simões, que trabalha na capital mas regressa todos os dias à Azambuja: “Prefiro acordar e ouvir pássaros do que ouvir buzinas à noite.”
Falam de um lugar, nas redondezas de Lisboa, do qual os jovens não saem. Mas não: muitos são obrigados a mudar-se, sobretudo para a capital, em busca de emprego.
Embora isso esteja já a mudar. O motivo: a tal crise da habitação… e um projeto de Daniela e Gonçalo.
A Azambuja é o município mais oriental do distrito de Lisboa e é composto por sete freguesias, bem distintas entre si, algumas delas até mesmo longínquas – a distância da vila da Azambuja, sede do município da Azambuja, à União de Freguesias de Manique do Intendente, Vila Nova de São Pedro e Maçussa chega a ser de mais de 30 minutos de carro. Por isso também é difícil falar de “união” por aqui, a não ser no nome oficial.
Daniela, a trabalhar na área da comunicação, e Gonçalo, em advocacia, chegaram à conclusão de que faltava uma estrutura no concelho que unisse os jovens. “Eu já conheço o Gonçalo há muitos anos e estivemos sempre ligados ao associativismo, e víamos que nos outros lugares havia uma vida jovem mais ativa. Estando tão perto de Lisboa, sentíamos que os jovens não se conseguiam unir.” Por isso também, tornou-se tão pouco atrativo para os jovens ficarem na Azambuja.
Agora, esta era a missão dos dois. Em julho do ano passado, fizeram nascer a Ajoca (Associação de Jovens do Concelho de Azambuja), uma associação a partir da qual dinamizam atividades com os mais jovens, unindo as várias freguesias do concelho. Gonçalo assumiu o cargo de presidente e Daniela o de vice-presidente.
No município da Azambuja, dizem os últimos Censos, as pessoas acima dos 65 anos representam 24 %. É também maior a população acima dos 40 anos do que abaixo desta faixa etária.


Ainda sem sede física, desenvolvem o trabalho na Casa da Juventude, realizam duas atividades por mês para criar esta nova comunidade jovem e desenvolvem inciativas que promovam a estabilidade dos jovens no concelho – como protocolos de estágios em empresas da região.
“A Ajoca preenche uma lacuna no concelho, dinamizando atividades nas várias freguesias, e tentando englobar os jovens na tomada de decisões”, resume Gonçalo.
O sonho da descentralização
Daniela e Gonçalo veem um grande potencial no concelho onde cresceram e, por isso, lançaram um “Manifesto Jovem”, que defende que a mudança é possível neste concelho. O ponto de partida? Precisamente a juventude.
No último ano, já dinamizaram atividades como sessões de stand-up, “corrinhadas” (uma corrida com caminhada), um torneio de futebol entre pais e filhos e um grande evento de celebração do 25 de Abril.
Quer Daniela quer Gonçalo sonham com o dia em que possam deixar o trabalho em Lisboa, e assentar por completo em Azambuja. “90% dos jovens tem licenciatura e quer tirar proveito da mesma. Estamos a tentar fazer protocolos com empresas para conseguirmos estágios no concelho para jovens saídos da faculdade”, diz Gonçalo.
Assim, para além de promover atividades culturais e desportivas, a Ajoca tem trabalhado no sentido de capacitar os mais jovens através de feiras de emprego, workshops, debates e convívios, alertando as entidades para a importância da criação de emprego qualificado dentro do concelho. “Já temos mais empresas em Azambuja a empregar. Tenho vários colegas que fizeram marketing que já arranjaram emprego”, comenta Daniela.
E a vice-presidente sintetiza: “O emprego vai começando a aparecer. O caminho no futuro será a descentralização. Não me imagino de todo a fazer Azambuja-Lisboa para sempre.”


Há jovens a voltar
Mas se promover estas iniciativas e chegar aos jovens da vila da Azambuja tem sido fácil, o mesmo não se verifica em alguns pontos do concelho. “Azambuja, a sede do concelho, tem mais habitação, mais jovens, mais atividade, mas há freguesias que são compostas por uma população mais idosa, com menos infraestruturas, mais rural, e queremos também chegar a estes pontos”, explica Gonçalo.
São sete as freguesias que compõem o concelho da Azambuja: Alcoentre, Aveiras de Baixo, Aveiras de Cima, Azambuja, Vale do Paraíso, Vila Nova da Rainha e União de Freguesias Manique do Intendente, Vila Nova de S. Pedro e Maçussa. Para chegar às freguesias mais esquecidas, a Ajoca reuniu, logo na altura da sua fundação, com os presidentes das juntas para perceber as necessidades de cada território.
“É mais difícil chegar aos jovens de Manique e Alcoentre. Muitos dos jovens de lá nem estudaram na única escola do concelho e acabam por fugir para concelhos como Cartaxo ou Rio Maior.”
Os esforços em chegar até aos mais jovens destes pontos de Azambuja têm surtido efeito, até porque, segundo o Presidente da União de Freguesias Manique do Intendente, Vila Nova de S. Pedro e Maçussa, tem havido mais casais jovens a fixar-se na zona de Manique do Intendente. “Há muitos jovens a voltar para Manique, porque querem esse sossego e lá a habitação é mais acessível. Temos tentado chegar aos jovens de lá…”, afirma Gonçalo.
Habitar na Azambuja:
O concelho terá um dos valores mais baixos de compra de uma casa no distrito de Lisboa. Em julho de 2025, o portal do Idealista dava conta de que o preço médio de uma moradia à venda na Azambuja era de 1 723 euros por metro quadrado – na cidade de Lisboa, é 5 829 euros.

Embora ainda não tenham conseguido realizar nenhuma atividade nessa União de Freguesias, em abril chegaram aos jovens de Alcoentre.
“Pouco a pouco, vamos chegando aos jovens de todo o concelho”, dizem Daniela e Gonçalo.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
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