
As cidades portuárias têm sido frequentemente o berço de manifestações musicais extremamente populares, entre as quais figuram, sem qualquer dúvida, o flamenco andaluz de Cádis e Huelva, o tango de Buenos Aires e Montevideu, o rebético ligado ao porto do Pireu, os blues de New Orleans, o samba e o chorinho cariocas e, evidentemente, também o nosso fado.
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Embora saibamos hoje que a canção lisboeta não nasceu nas viagens marítimas – como durante anos defenderam alguns historiadores do fado, imaginando que, antes de chegar à capital portuguesa, este fora cantado pelos marinheiros saudosos da pátria à proa de naus e caravelas – , a verdade é que o número de letras de fado que levam o mar dentro ou têm por protagonistas pescadores e marinheiros acabou por levar muitíssimos apreciadores a crer sem reservas na declaração de Tinop (João Pinto de Carvalho) de que essa origem marítima seria desde logo visível no seu “ritmo onduloso, como os movimentos cadenciados da vaga […] ou o vaivém das ondas batendo no costado”.
Não é assim, mas nem isso impediu Amália Rodrigues de gravar, em 1965, Fado Português, poema de José Régio musicado por Alain Oulman, no qual, efectivamente, se diz que o fado nasceu “no peito de um marinheiro que, estando triste, cantava”. E a capa desse livro de Régio, assinada por Júlio (Saul Dias), representa justamente um homem do mar a dedilhar uma guitarra portuguesa encostado à amurada de uma embarcação.
Equívocos à parte, nada retira a importância da faina marítima ou da presença do “Grande Azul” – seja como cenário, seja como metáfora – no imaginário fadista e nos repertórios de tantos artistas que os incluíram nas suas composições, em tons e registos diversos; talvez a mais emblemática seja Canção do Mar, um original de Frederico de Brito e Ferrer Trindade que Amália cantou no filme Amantes do Tejo, mas que depois seria interpretado por muitas vozes, como a de Dulce Pontes no filme Raiz do Medo, com o actor Richard Gere, que foi quem pediu expressamente que o tema fosse incluído na banda sonora.
Mas, claro, os exemplos multiplicam-se. Desde a referência à Gaivota no famoso fado escrito por O’Neill até Força do Mar, recentemente composto por Márcia para Pedro Moutinho, não nos podemos esquecer do clássico Meu Amor É Marinheiro, de Manuel Alegre; de Aquela Janela Virada para o Mar, de Tristão da Silva; da “boina maruja ao lado” do Rapaz da Camisola Verde, de Pedro Homem de Mello; da Barca Bela, de Garrett, na voz de Teresa Silva Carvalho; do Mar Cruel que Jorge Fernando ofereceu a Fernando Maurício; de Mar Impossível, com versos de Luís de Macedo para a voz de Camané; ou mesmo do divertido Fui ao Mar Buscar Sardinhas, escrito pela pena de Amália.
E, como do mar ao rio é um saltinho (ou um mergulho), também a paisagem fluvial não larga o fado, que atravessa o Tejo no Cacilheiro de Ary dos Santos brilhando na voz de Carlos do Carmo, enquanto se cruza com o Zé Cacilheiro que cantava José Viana e ouve A Voz do Tejo na de Manuel de Almeida, ou se diverte no Arraial do Tejo de Fernanda Maria, rendendo-se por fim à beleza das Canoas do Tejo em mais uma memorável criação de Frederico de Brito.
A colheita – melhor dizendo, a apanha ou a pescaria – resulta infindável, até porque os actuais intérpretes e letristas (Teresa Tapadas, Joana Amendoeira, Tiago Torres da Silva…) seguem o rasto das velhas ondas espumosas para nos oferecerem sempre um mar novo e cheio de possibilidades que se adivinhava já nos Búzios que Ana Moura nos deu antes de decidir mudar de estilo.

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