Ontem, pouco antes de ficarmos todos calados, cerca do meio-dia, exclamei: “Watt the fuck?!!” Como há sempre um dador de lições apressado, alguém é capaz de ter dito: “What não se escreve assim”. O problema é que eu escrevi bem.
Sim, há a frase “What the fuck!”, que na Net se usa muito e até mais na exclamação curta “WTF”. Traduzido (“Qué carajo!” ou “Merde!”) é uma legítima interjeição de quem está irritado. Mas ontem a irritação foi tal que precisei de lembrar o inventor James Watt. Foi o nome dele que batizou o watt, a unidade de potência elétrica. Com a notícia do dia, o apagão, acrescentei o “watt” ao “fuck”, sublinhando, por antinomia, aquilo que nos sucedeu: ontem foi o dia da impotência elétrica.
Foi um choque elétrico para toda a gente, foi como o raio da velocidade que causou o acidente na autoestrada que nos atirou para uma cama do centro de reabilitação, em Azeitão. Do relâmpago para a quietude.
Ontem foi um dia de postes sem préstimo (ou só para ninhos de cegonha), sem altas tensões (nem baixas) e de barragens vazias apesar de cheias.
Às vezes o telemóvel parecia acender, mas logo apagava e, enfim, percebíamos, numa situação radical, o sentido de frases comuns e estranhas: “Estar por um fio…”, “perder o fio à meada…” Ontem todos os fios perdiam tudo: nenhum nada ligando.
Foi ir de vela – como as dos mastros, que nos levaram há muito pelo mundo fora – para vela de estearina que, ontem, nos levou para o quarto. Dia de interruptores que, para cima ou para baixo, era igual; e de lâmpadas todas fundidas, mesmo as que não estavam. Os busca-pólos buscavam, mas nada encontravam. Então, ontem, ainda comovidos por uma magna ausência católica, passámos para um geral falecimento catódico.
Habituados a políticos maus e tremendos, Trump e Putin, demo-nos conta que até os bons da História, Ampère e Faraday, nos podem falhar, basta pequenos políticos. Sentimo-nos todos como os do Volt em dia de eleições. Um nome de partido que evoca um potencial de transmissão de energia (como a pilha voltaica), mas sempre sem pilhas de votos, eleito nem um.
A eletrostáquica, área da Física que estuda as cargas elétricas em repouso, ontem, em Portugal, era ciência inútil porque exagerada: fomos remetidos só a estáticos.
Comboios e metros parados, multibanco forreta de todo e computadores não podendo fazer o cômputo de nada, porque cortados de tudo. Os elevadores imobilizados, mas alguns não silenciosos – pancadas na parede e gritos.
Não me lembro de estar tão sozinho nas ruas com tanta gente à volta. Em algumas caras, uma preocupação comum: “Como vai ele saber de mim?”, pergunta que há cem anos os pequenos anúncios dos jornais tinham solução para os amantes e ontem, no apagão, não havia para ninguém.
Encontros de emprego falhados. Pais: “E agora?”. Filho: “E a velhota?” Todos dando-se conta de que o rame-rame, em chegando uma surpresa, pode ser traiçoeiro.
As lojas fechavam-se mais cedo, não por falta de produtos, mas porque não havia como fazer contas. Ainda vi duas velhotas, sorridentes pelo conseguimento e carregadas de imprudentes congelados… e de peixe.
As televisões e os telemóveis, com aquele prefixo “tele”, do grego que quer dizer distância, foram a boa notícia do dia. Completamente inúteis durante o apagão, vão talvez fazer poupar imenso ao próximo Orçamento do Estado.
De que serve aumentar nos meios militares sofisticados para a Defesa, quando estes, afinal, não vão servir de nada? O inimigo só vamos saber dele quando estivermos à distância de viva-voz. Ensinar algumas técnicas de luta corpo-a-corpo deve bastar.

Alcoitão, não Azeitão.