Quando ouvimos fado ao vivo, seja numa sala de concerto, numa casa de fados, ou ainda no ambiente estudantil das serenatas de Coimbra, há um instrumento que não pode faltar. Trata-se da guitarra portuguesa, herdeira das cítaras do Egipto escavadas em troncos de cedros-do-líbano, que posteriormente foram dadas a conhecer pelos Romanos em todo o Mediterrâneo.

Há quem diga, como o músico e estudioso Pedro Caldeira Cabral, que é um contra-senso chamar-lhe “guitarra”, porque em nada difere da cítara, nem em termos de afinação, nem em termos de funcionamento mecânico ou acústico; mas a verdade é nos habituámos a dar esse nome ao instrumento de cordas abaulado e feito de madeiras várias (distintas para o tampo, o braço e o corpo principal) que acompanha o fado, embora haja diferenças entre a variante de Lisboa e a de Coimbra: na caixa de ressonância (a de Lisboa é mais arredondada) e no comprimento da corda vibrante, ligeiramente maior na guitarra de Coimbra.

Se falei dos pormenores da construção, foi porque não é qualquer marceneiro, por mais experiência que tenha, que pode dar-se ao luxo de fazer uma boa guitarra portuguesa. Óscar Cardoso, que segue a tradição de várias gerações de guitarreiros, declara que é preciso começar cedo (aos doze ou treze anos) porque se leva muito tempo a aprender; e que, além disso, um construtor deve também saber tocar o instrumento, porque só assim terá perfeita noção do som, das notas, da afinação e, sobretudo, da linguagem dos músicos. 

Num interessante artigo publicado no Portal do Fado, Cardoso mostra-se convicto de que a guitarra ideal resultará do diálogo constante entre construtor e músico. E conhece tão bem o timbre dos instrumentos que construiu que – pasme-se! – sabe sempre quando alguém está a tocar num deles num programa de televisão, mesmo não estando a olhar para lá.

Ignoro se a arte de fazer guitarras tem actualmente muitos seguidores, mas tenho consciência de que não faltam guitarristas brilhantes nas novas gerações e que, por aí, podemos ficar mais ou menos sossegados em relação ao futuro destes instrumentos.

Não sigo, apenas por razões de gosto, o fado de Coimbra, mas em Lisboa proliferam os executantes excepcionais, desde o citado Caldeira Cabral ou o virtuoso Ricardo Rocha (neto do grande Fontes Rocha) até aos acompanhantes de fado que, pelo seu inegável talento, depressa se tornaram compositores e solistas com projectos originais dignos de espectáculos em nome próprio: José Manuel Neto, Miguel Amaral, Ângelo Freire, Bernardo Couto, Luís Guerreiro ou Gaspar Varela, o último bisneto de Celeste Rodrigues.

Este ano vamos de certeza vê-los e ouvi-los a todos, em grupo ou sozinhos, a homenagear Carlos Paredes por conta do centenário do nascimento deste artista, que foi um dos maiores génios da guitarra portuguesa de todos os tempos e o autor da inesquecível composição Verdes Anos, da banda sonora do filme homónimo de Paulo Rocha.

Se pode haver guitarra sem fados, já o contrário parece impossível.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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