No século XVIII a paisagem sonora da íngreme subida da Calçada do Combro, onde hoje se ouvem os carris do elétrico 28, era outra. Na igreja de Santa Catarina, também conhecida como Igreja dos Paulistas, eram as cerimónias litúrgicas, acompanhadas pelo grandioso órgão de tubos revestido a talha dourada, que definiam o tom do dia a dia da comunidade.
O imenso instrumento é um sobrevivente improvável dos abalos que assolaram a Igreja de Santa Catarina, assim como tantas outras em Lisboa, há 269 anos, no Grande Terramoto de 1 de novembro de 1755. Desde então, foi alvo de várias reformas, mas o tempo levou a melhor. A falta de utilização no século XX resultou na sua inevitável deterioração.
Hoje, o órgão permanece inutilizado e não há previsão para a sua inauguração. Sobreviveu ao tremor, sim, mas não aos abalos da burocracia.

Até o antigo padre perdeu a fé na reforma
Não se sabe ao certo quando o órgão definitivamente parou de funcionar. O certo é que em 2003 teve início a tentativa de reverter a degradação, quando um Programa de Reabilitação das Igrejas dos Bairros Históricos de Lisboa, levado a cabo pela Direcão Municipal de Reabilitação Urbana, comprometeu-se a adjudicar o valor de 280 mil euros (mais IVA), num total de cerca de 340 mil euros, para o restauro do Órgão da Igreja de Santa Catarina.
De acordo com Ricardo Lucas Branco, consultor de reabilitação urbana e património, que coordenou esse mesmo projeto até 2006, o contrato foi celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML), a paróquia de Santa Catarina, o Patriarcado de Lisboa e o organeiro Dinarte Machado, 65 anos, a quem foi entregue a obra.
Em entrevista remota, concedida na Madeira, onde aguarda por um desenlace da situação, Dinarte Machado confirma a equação, embora ressalte que a execução do orçamento não ocorreu como devia. Segundo o responsável pelo reparo, o valor adjudicado pela CML foi entregue à gestão da Paróquia da Igreja de Santa Catarina.

“A Câmara avançou com 50% que foram geridos pela paróquia, conforme o andamento dos trabalhos. Eu já estava a preparar a montagem, havia levado a tubaria toda para a igreja, quando então fui abordado pelo pároco para suspender os trabalhos, porque a Câmara tinha avisado a paróquia que não iriam dar cobertura aos restantes 50%”, conta o organeiro, que no currículo tem trabalhos em órgãos de sítios icónicos, como o Convento de Mafra.
Dinarte Machado aponta o início do primeiro mandato do então presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, em 2007, como o início dos contratempos na reforma. A informação é corroborada por Paulo Ferreiro, presidente do Fórum Cidadania Lx, uma das associações empenhadas em retomar a recuperação do instrumento. “Foi neste período em que o executivo camarário decidiu pôr tudo em banho Maria, no que respeitasse a restauro de património em Igrejas.”
Quase uma década depois, em 2016, a CML finamente decide financiar os restantes 50% em falta do orçamento. A decisão foi recebida com ar de milagres, inclusive pelos jornais de Lisboa, que chegaram a cravar a reinauguração do instrumento para 2018.
Só não contavam com a decisão do organeiro responsável, Dinarte Machado, em parar o andamento dos trabalho, pois após tanto tempo parada, a diabólica inflação consumiu o bendito orçamento.
“A Câmara entendeu dar os 50%, mas baseado no primeiro orçamento, que já tinha 16 anos. Eu continuei com os trabalhos, procedemos à montagem das condutas de vento, da mecânica, tudo, mas depois chegou um momento em que os valores não foram suficientes para avançar mais, devido à atualização de preços”, explica o organeiro.

À época, o pároco de Santa Catarina, Pedro Boto, chegou a perder a fé na reforma do mítico órgão. Segundo o atual responsável pela paróquia, padre Jorge Anselmo, o seu antecessor sofreu imenso com a nova paragem. “Chegou a dizer que iria morrer sem ter o prazer de ouvir o órgão de Santa Catarina tocar. Nem no funeral dele isso aconteceria”, revela o padre Anselmo.
O que realmente viria a acontecer pouco tempo depois.
Uma via sacra aparentemente sem fim
Atualmente, para além dos valores desfasados, soma-se o atual estado de saúde do organeiro, impedido de proceder com os trabalho por motivos médicos, uma vez que a operação é exigente.
“Trabalhar no interior do instrumento, em termos físicos, é violento. Porque não há espaço. Há situações em que tenho que estar horas numa escada onde só cabe um pé. No fundo é isso. Mas tenho muita vontade de o fazer”, diz.
A intenção de Dinarte era contratar um organeiro que o pudesse apoiar na fase final da obra. Uma solução que transcende o orçamento já curto, pois mesmo se dinheiro houvesse, não haveria um profissional disponível para o trabalho. “Neste momento, não há organeiros formados em Portugal, o Estado não se preocupou em formá-los”, explica.

A Via Sacra da reforma do órgão da igreja de Santa Catarina parece mesmo não ter fim.
Nos últimos anos, a deteriorização provocada pela falta de manutenção promete fazer o que o terramoto não conseguiu.
No coro alto da igreja, espaço inacessível ao público e que dá acesso ao órgão, saltam à vista cadeiras empoeirados, ripas de madeira podre expostas no teto, com pedaços de estuque caídos sobre o chão. Os ornamentos em estuque, inseridos na traça da igreja no pós-terramoto, autoria do italiano Giovanni Grossi, têm vindo a cair das cornijas do teto e das capelas, o que se traduz não só num problema para a arquitetura da Igreja, mas também para o instrumento, que corre o risco de acabar danificado.
Afinal, é sob este cenário de degradação que a tubaria aguardou largos anos, o que levou o organeiro voltar a arranjar peças que já tinham sido restauradas.
“Os tubos da fachada, tubos grandes, de 16 pés, estavam encostados no coro alto, em pé, uma vez que não podem estar deitados derivado do seu peso. Naquele espaço de 11 anos, um dos cantos do teto caiu por cima dos tubos, ou seja, amolgou a tubaria toda e tive que andar a reparar tudo outra vez”, conta.
Perante a situação, Dinarte Machado levanta uma nova urgência: garantir que as reparações do teto terminem antes da finalização da obra de restauro do órgão.
Uma babel de estilos
É difícil ficar indiferente à imagem magnificente do órgão de tubos que se eleva rumo ao teto da Igreja de Santa Catarina. O padre da paróquia, Jorge Anselmo, é testemunha de como os turistas que por ali passam ficam estupefatos com o vislumbre da caixa do instrumento e da madeira com ornamentos de estilo barroco, revestida a talha dourada, igualmente surpreendidos quando são informados de que o imenso instrumento está silenciado.
De acordo com o mestre organeiro Dinarte Machado, a construção do órgão é anterior à primeira metade do século XVIII. “O órgão é uma construção espanhola, muito do início do século XVIII, provavelmente dos anos 1710 ou 20”, aponta o mais famoso organeiro de Portugal.

Naquela época, a atual Igreja da paróquia de Santa Catarina era casa de eremitas religiosos do Convento da Ordem dos Paulistas e o órgão era o principal instrumento acompanhador das cerimónias litúrgicas.
No início de 1700, este instrumento era considerado um típico órgão ibérico, com características muito semelhantes aos encontrados em Espanha nos séculos XVII e XVIII, como refere o mestre organeiro, fiando-se nas cornetas do instrumento para localizar temporalmente a construção do instrumento, cujos registos são inexistentes.
“Essas cornetas são atualmente raras nos órgãos conservados em Espanha, mas o que é certo é que pertencem ao contexto histórico dos órgãos espanhóis, cuja designação era justamente Las Cornetas. Nessa altura ainda havia uma uniformidade entre os órgãos produzidos em Espanha e Portugal”, ensina Dinarte Machado.
Já a arrebatadora caixa de madeira do órgão, revestida em talha dourada, é bem mais difícil de se precisar o ano de fabricação. A investigadora Sílvia Ferreira, uma das responsáveis pelo estudo da talha dourada da Igreja de Santa Catarina, andou à caça do contrato da feitura da talha, mas após intensa pesquisa na Torre do Tombo pouco encontrou.
“Mas a colocação desta decoração deverá remontar a uma campanha que ocorreu entre os anos 30 ou 40 daquele século, prévio ao terramoto”, acrescenta.
A caixa de madeira é uma das poucas partes do instrumento original sobrevivente ao terramoto, assim como os tubos da fachada e as cornetas que permitem identificar a idade do órgão. O resto, explica Dinarte Machado, remonta já ao século XIX.
Afinal, o século XIX marcou a evolução “da moda” responsável pelas reformas que o órgão da Igreja de Santa Catarina sofreu, uma metamorfose necessária para a preservação deste instrumento. É nesta época que os órgãos de sonoridade tipicamente barroca adquirem uma cor sonora romântica, ao gosto do tempo.
A mudança de cor sonora do barroco para o romântico, porém, deixou o órgão de Santa Catarina numa “condição um pouco estranha do ponto de vista da sua utilização”, como refere o organeiro.
Enquanto que num órgão antigo não havia determinadas notas mais graves no teclado para economizar espaço e a tubaria, o mesmo não se aplica a um romântico. Como o de Santa Catarina é uma espécie de híbrido, mesmo que continuasse a ser um instrumento conventual, apresentava traços românticos, reduzindo o leque de peças que nele podem ser tocadas, o que acabou por influenciar na qualidade do que se ouvia.
Segundo Dinarte Machado, o instrumento terá tocado pela última vez há 70 anos, em 1954, após uma tentativa de reparação que se demonstrou fracassada. “O órgão chegou a tocar parcialmente. Ninguém gostou do que se ouvia e o instrumento acabou por cair em desuso”, conta. Já em 1963 se fazia um apelo, numa edição de outubro do Diário Popular, para que o órgão da Igreja de Santa Catarina fosse arranjado.
Se no século XX o instrumento foi silenciado devido à sonoridade que deixava bastante a desejar, o mestre organeiro pretende fazer jus à qualidade e grandeza deste órgão. “Será um instrumento muito mais neoclássico do que romântico. Tenho muita tubaria para incluir no instrumento, que vai ajudá-lo a ser mais abrangente na sua sonoridade. Não vai ser tão calado, vai ser mais expressivo”, explica. Passará a ser multifacetado, podendo tocar desde Bach até música do século XIX.
O pecado da burocracia
Barroco, romântico ou híbrido, o certo é que o magnífico órgão da Igreja de Santa Catarina segue em silêncio. Enquanto isso, as autoridades que poderiam resolver o problema mostram-se desafinadas em relação sobre quem é o responsável pela reforma da igreja e do instrumento, numa orquestra que toca uma nota só: a burocrática.
Em resposta à Mensagem de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa garantiu que já tomou conhecimento do estado do teto, mas que “estando esta Igreja classificada como Monumento Nacional, afeta ao culto e propriedade do Estado Português, a CML não tem competências próprias para intervir sobre o edifício”.
Por sua vez, o instituto Património Cultural, I.P. – que sucedeu, a par com a Museus e Monumentos de Portugal, à ex Direção-Geral do Património Cultural – disse à Mensagem que a então DGPC esteve no local em 2019 para uma visita técnica, onde constatou “anomalias”, elencando ainda “metodologias mais adequadas do ponto de vista patrimonial para a resolução”, repassadas ao então pároco para as devidas providências.
Contudo, sublinha que embora a igreja se trate de um imóvel da propriedade do Estado, encontra-se afeto à Estamo Participações Imobiliárias S.A. e, assim sendo, é da “estrita responsabilidade do seu proprietário/entidade gestora a realização de obras de conservação, restauro ou de reabilitação da igreja.”
Já a Estamo, que também confirma ter-se deslocado à Igreja e ter conhecimento da situação descrita, refere estar neste momento em contacto com a Museus e Monumentos – EPE – “para determinar ações futuras”. Ainda assim, ressalva que “por se tratar de um imóvel classificado como monumento nacional” não tem “competências para atuar no domínio público”.
A Museus e Monumentos de Portugal afirmou também não ter “competência nesta matéria”. Na incessante busca pela entidade responsável pela Igreja de Santa Catarina e do seu património, a Mensagem de Lisboa foi por último direcionada ao Patriarcado de Lisboa. A resposta obtida foi: “Informamos que o assunto supramencionado deve ser tratado diretamente com o pároco de Santa Catarina, o padre Jorge Anselmo”.
Depois de contactadas as várias instituições com competência no âmbito do património cultural, ficou por responder: “Qual é a entidade responsável pelo restauro do património da Igreja de Santa Catarina?”.
- Texto editado por Álvaro Filho

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Muito bem Mariana e Rita
Excelente composição
Trocaria “burocracia” por: “Pela Arte”
Tenho pena que os desenhos (esboços) que fiz, os quais mostram como era o instrumento no Século XVIII e como é agora. Resultado da reforma do Século XIX.
Pelo meu lado, uma vez terminando e honrando os meus compromissos e estando aposentado, irei dar o melhor que puder, para terminar o grande trabalho de restauro deste belo instrumento.
Já vou recuperando e sentindo-me muito melhor. Afinal sou como todos (humano) e pertenço a um “nós”. Passou por mim, o pesadelo de muitos.
Bem haja a todos
O mestre organeiro
Dinarte Machado
Conhecia esta igreja, por passar na rua, e visitei-a recentemente.
É muito bonita, com os trabalhos no tecto e um órgão imponente.
Desconhecia os problemas, mas espero que haja resolução em breve para os mesmos, assim como de outros monumentos, antes que seja tarde demais.
Vi alguns turistas a visita-la, e acho que se o órgão estivesse recuperado, podia ser uma forma de dinamizar algumas atividades relacionadas com o mesmo, tipo concertos.
Espero que não seja mais uma “obra de Santa Engrácia”, a par de muitas que andam um pouco por este país.
A teia burocrática é enorme, muitas entidades relacionadas com o património, e não só, e os processos levam anos. A demora nestes casos, não inclui a atualização de taxas/valores de orçamento, o que inviabiliza as coisas.
Espero que as entidades comecem a mudar um pouco a mentalidade, pois poderá chegar o caso de não haver algo para visitar ou usufruir, quer seja pelos habitantes ou turistas.
No Portugal do Turismo Cultural a situação do Órgão de Santa Catarina é um escândalo assim com o é a colapsagem dos estuques do belíssimo tecto atribuídos a Giovanni Grossi.