Já ninguém poderá recordar, na primeira pessoa, como era a Baixa de Lisboa há 150 anos. A memória resiste apenas no legado que nos foi deixado pelos nossos antepassados. E, na Baixa de Lisboa, vive especificamente num antigo edifício: falamos do recém-inaugurado MUDE – Museu do Design de Lisboa, que, no final do século XIX, se tornou a casa do Banco Nacional Ultramarino (BNU). Mas esta não terá sido a primeira das vidas do edifício.

Hoje, ao transpor as portas do MUDE, não é difícil imaginar como seria este lugar no passado: podemos imaginar-nos clientes por detrás do balcão da entrada, funcionários ao descermos as escadas, ou até mesmo administradores, fechados nas salas sumptuosas com mobiliário nobre. Mas essa história agora é outra: alvo de uma grande reabilitação, o MUDE – que assim se inaugurou em 2009 – reabriu portas no passado dia 25 de julho, convidando o público para uma exposição que conta as transformações do edifício ao longo do tempo.

O que também sabemos é que, por ser um edifício que aqui surgiu há mais de 150 anos, o MUDE tornou-se uma das maiores testemunhas das transformações da Baixa Pombalina – um dos grandes ícones desta cidade e o lugar sobre o qual as discussões sobre velhos e novos traços urbanos nunca termina.

Vídeo: Inês Leote; Narração: Mariana Vital

O que contam os cofres do velho Banco

São 150 anos, mas é possível recuar ainda mais. De facto, uma viagem aos antigos cofres do banco, um dos espaços mais emblemáticos do Banco Nacional Ultramarino (BNU), agora transformado em galeria, comprova isso mesmo: ali hoje estão expostas 77 garrafas que remontam à primeira metade do século XVIII e que, portanto, sobreviveram ao terramoto de 1755.

As garrafas foram descobertas na sequência de um acompanhamento arqueológico realizado em 1998, o que significa que, antes de ser BNU, o edifício terá sido um armazém de revenda para garrafas de vidro para vinho.

“São 77 garrafas, que sobrevivem ao terramoto, em formato de cebola, ou formato prismático”, conta Bárbara Coutinho, diretora do MUDE. “Percebem-se aqui duas tipologias, que são uma ótima lição de design.”

E, tantos anos mais tarde, é de design que falamos neste novo espaço.

A reabertura de portas do MUDE marca, pois, a celebração desta longa história: “Há aqui dimensões e dimensões de lugar, de multiculturalidade que importa trabalhar, que importa reconhecer.” O desafio nesta última intervenção foi, pois, um: “Como é que, sem destruir nada, transformamos este espaço num espaço democrático?”. Ele, que foi já um lugar de grande hierarquização.

A Baixa Pombalina ou a “city financeira”

A história começa em 1866. Nessa altura, o MUDE não era o MUDE, naturalmente, mas sim o Banco Nacional Ultramarino (BNU), um banco criado em 1864 como emissor para as ex-colónias portuguesas, exercendo também funções de banco de fomento no país e no estrangeiro. Em 1866, mudava-se do Largo do Chiado para o edifício da “rua Nova de El Rey”, hoje rua do Comércio, e tocava a “rua Bella da Rayinha”, hoje rua da Prata. 

Bárbara Coutinho faz-nos viajar até esse tempo. Um tempo de uma nova Lisboa, e de uma nova Baixa, que cresce, projetada pelo Marquês de Pombal depois do Terramoto de 1755:

“O BNU foi dos primeiros bancos a fazer este movimento para a Baixa. A Baixa estava a crescer do de ponto de vista económico e social, e esta ação do BNU acaba por ajudar ao desenvolvimento da ideia de uma ‘city financeira’”. 

O Banco Nacional Ultramarino. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Com o passar dos anos, o BNU foi adquirindo parcelas contíguas ao primeiro edifício, ocupando progressivamente todo o quarteirão pombalino. “A aquisição destes diferentes prédios faz-se em direção à rua Augusta, ao longo de mais de 50 anos. Isso mostra também um pouco da crescente importância do banco na Baixa, num momento central da sua atuação enquanto lugar de poder, não só político, mas também financeiro e comercial”, resume a diretora.

O debate sobre o pombalino: preservar ou modernizar?

É com o fim da Primeira Guerra que o BNU, um grande apoio financeiro para o Estado durante o conflito, se posiciona entre as melhores corporações bancárias mundiais, elegendo o empresário e político João Henrique Enes Ulrich como novo governador.

E é por volta dessa altura que o banco adquire dois terços do quarteirão. É, pois, feito o convite a um reputado arquiteto da época para um novo projeto para o banco: o arquiteto é Tertuliano Lacerda Marques, conhecido por ser um tradicionalista.

O projeto de Tertuliano Marques surge numa época de debate em relação ao pombalino, em que se colocava a habitual questão: preservar ou modernizar?

“A pergunta era: será que o estilo pombalino, com a sua secura, a sua depuração, com o seu desornamento, é o estilo mais correto para uma capital que se quer moderna, cosmopolita, progressista? O tema debatia-se até nas páginas no Diário de Lisboa“, diz Bárbara Coutinho.

A título de exemplo, o historiador e crítico de arte José-Augusto França defendia que a cidade pombalina era das primeiras cidades modernas europeias, visto ser uma cidade erguida de raiz, “funcional e muito nacionalista a vários níveis”, como diz Bárbara Coutinho, mas também inovadora nos sistemas de construção, graças à gaiola pombalina e aos princípios de pré-fabricação e sistematização da construção.

Uma sala que remonta ao tempo de Tertuliano Marques. Foto: Inês Leote

Qual a opção então tomada por Tertuliano Marques?

No exterior, opta por privilegiar as fachadas pombalinas com um trabalho mais ornamentado nos vãos das janelas e nas portas – uma linguagem neoclássica presente noutros edifícios da época, como os Armazéns Grandella ou o Banco Totta & Açores.

Mas o arquiteto decidiu conciliar a modernidade do pombalino com um sistema moderno de construção ao nível do interior: “O Tertuliano introduz o betão em 1927!”, diz Luís Miguel Saraiva, o arquiteto responsável pelo novo projeto. “O princípio do betão aplicado a um edifício pombalino é muito inovador.”

Luís Miguel Saraiva recorda a descoberta dos tetos projetados por Tertuliano Marques. Foto: Inês Leote

Tertuliano Marques será também responsável por uma nova organização espacial do interior: “Há uma grandiosidade interior que o banco queria ter e que Tertuliano Marques imprime a vários níveis, desenhando e abrindo no meio do edifício um grande hall central, octogonal, que tem uma dupla cobertura, com um duplo lanternim que permitia a entrada de luz zenital em todo o edifício”, conta Bárbara Coutinho. 

Hoje, ainda restam vestígios deste projeto. No piso de entrada do MUDE, no espaço da loja, está bem à vista o teto projetado por Lacerda Marques. O teto que foi projetado anos depois não resistiu, conta Luís Miguel Saraiva. “Quando encontrámos o edifício, já não tinha os tetos do projeto de Cristino da Silva, e, de repente… temos aqui a história”. 

Um quarteirão de um dono só

É na década de 50 que o BNU adquire a totalidade do quarteirão, assumindo-se como uma força inquestionável na Baixa de Lisboa. “É uma situação singular”, diz Bárbara. De repente, uma instituição financeira detém todo um quarteirão, o que implica, claro, uma grande transformação, especialmente porque se aproxima a data de celebração dos 100 anos do banco.

Esse projeto transformador é encomendado ao arquiteto Luís Cristino da Silva, um dos pioneiros do movimento moderno da arquitetura portuguesa.

Um primeiro projeto do arquiteto não chega a ser aprovado, por ultrapassar a altura permitida para o edifício e implicar a demolição integral dos interiores. O segundo projeto, “mais contido, mais de compromisso”, descreve Bárbara Coutinho, constrói três novos pisos.

Bárbara Coutinho faz-nos uma visita guiada pelo presente e passado do MUDE. Foto: Inês Leote

São deste tempo os conhecidos painéis de Guilherme Camarinha e de Jaime Martins Barata, que hoje se mantêm no edifício, e também uma introdução inovadora na sala dos cofres de aluguer: Cristino da Silva cria um caminho de ronda, todo à volta do quarteirão, com espelhos de 45º nos cantos, para assegurar a segurança do conteúdo dos cofres, onde, para além de dinheiro e bens, muitas pessoas guardavam memórias.

Apesar de ter decorrido um trabalho considerável na fundação do edifício, o banco nunca fechou durante as obras, como recordaram vários ex-funcionários em entrevistas conduzidas pela equipa do MUDE. 

O painel de Guilherme Camarinha, em mosaico murano. Foto: Inês Leote

Um banco onde funcionários e governadores não se cruzam

Não se sabe ao certo se a organização espacial de Cristino da Silva seria exatamente como a de Tertuliano Marques, mas, na década de 60, é clara uma organização que denota uma divisão social muito hierarquizada e segregada: haveria uma entrada para os clientes, uma outra para os funcionários e outra para a administração e governadores.

“Os diferentes estratos não se relacionam aqui dentro. Quando os funcionários se cruzavam com administradores, eram penalizados com um ou dois dias de salário”, conta Bárbara Coutinho. De tal forma que muitos dos funcionários entrevistados nunca tinham chegado a visitar outro piso para além daquele onde trabalhavam. 

Mas a segregação ia mais além ainda: é evidente nos revestimentos e nos acessos aos espaços. Nos espaços dos administradores e governadores, “as paredes eram revestidas em pedra, o mobiliário era mais nobre, historicista e revivalista, com algum mobiliário ao estilo do império”. Já os espaços dos funcionários eram revestidos por materiais mais banais, como “pastilha em todas as paredes, luminária claramente diferente”.

Esta diferenciação é questionada no novo museu, exatamente ao “reusar-se para democratizar”.

A hoje Biblioteca de Arte do MUDE foi em tempos a Sala de Reunião do Conselho: aproveitaram-se os materiais de que era constituída para se dar um novo uso. “A área de restauro, todos os painéis de madeira, todos os elementos construtivos originais, quisemos sempre mantê-los, recuperá-los e só substituí-los quando não seriam recuperáveis”, explica o arquiteto Luís Miguel Saraiva. 

Hoje, a sala já não respira a opulência de outrora. No centro da sala, temos uma mesa de pinho, da autoria de Gonçalo Prudêncio. “Aqui estamos dentro do mobiliário mais desornamentado, mais funcional, e mais democrático. Dantes a sala respirava toda uma outra ligação e ideologia, agora a ideia é: ‘vamos todos sentar-nos à mesa, para conversar, para debater o futuro’”, diz Bárbara. 

Mas tudo isto sem se esquecer o seu passado: num espaço anexo, está em exposição uma antiga cadeira de mogno da Sala de Reuniões de Conselho que, claro, transmite toda uma outra ideia. “O mogno, que é um material com toda a nobreza, o corpo trabalhado, ao estilo de D. José I, que é uma referência às artes decorativas. Quando se quer representar essa autoridade e poder, recorre-se a peças com esta gramática, pois ela traduz uma grandeza, uma noção de autoridade.” 

A saída do BNU… e uma Baixa desertificada 

O BNU trouxe vida à Baixa. Era um polo dinamizador, onde, segundo documentos consultados pela equipa do MUDE, terão chegado a trabalhar 800 pessoas.

Bárbara Coutinho recorda, aliás, a história que lhe foi contada por um ex-funcionário do BNU: “Ele era era originário da Beira Interior e veio para Lisboa nos anos 30, onde alugou um quartinho na zona do Castelo. Todos os dias, descia o Castelo para vir trabalhar para a Baixa… chegando ao Chiado, impunha-se uma outra modernidade.” 

Mas essa é uma vida que se vai esfumando com o 25 de Abril de 1974, uma data que foi também assinalada pelo BNU, com o surgimento de fachadas onde se celebrava o “Banco do Povo”. Com a nacionalização da banca e a passagem dos bens do BNU para os respetivos países que vão adquirindo a independência, a sua dinâmica vai decaindo.

Em 1989, os serviços do BNU são transferidos para o novo edifício projetado por Tomás Taveira na Avenida 5 de Outubro com a Avenida de Berna, coincidindo com o momento em que a Baixa Pombalina perde importância e centralidade económica:

“Com o incêndio do Chiado e com a progressiva desertificação, o envelhecimento da Baixa, as instituições financeiras vão procurando espaços mais a norte, da Avenida da Liberdade para cima…”. 

O edifício fica então destituído das funções que tinha tido desde 1866.

Nos anos 90, a Admnistração do Banco procede a uma transformação do piso 2, onde, segundo um projeto do designer António Garcia com colaboração de Daciano da Costa, ali se instalou um auditório com foyer e bar, onde antes estavam os serviços de contabilidade. 

Para além disso, a administração avaliou a hipótese de instalar, no piso 1, um núcleo museológico que apresentasse o acervo do BNU. Mas a ideia não chegou a avançar.

Até chegarmos a 2001, com o edifício, a deteriorar-se, a ser incorporado na Caixa Geral de Depósitos. A CGD acaba por intervir, avançando com um projeto de remodelação, cujas obras seriam interrompidas graças a um parecer do Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), que sublinhava a necessidade de preservação de determinados elementos que estava previstos ser demolidos, como o balcão do piso térreo e do 1.º andar. 

Embora o parecer tenha conseguido travar essa demolição, as obras iam já avançadas nessa altura, com muitos dos interiores já completamente descaracterizados. Durante anos, o edifício ficou em suspenso, tornando-se numa ruína.

Abandonado, como parecia já estar toda a Baixa Pombalina.

E, finalmente, o MUDE…

Os prenúncios de mudança soaram em 2007, quando o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, propõe instalar no antigo BNU o MUDE, decisão que integrava a estratégia municipal de requalificação da Baixa Pombalina.

Inicialmente, é realizado um estudo de viabilidade técnica pelo empresário Manuel Reis e o arquiteto Alberto Caetano. Mas o contexto económico e as dificuldades financeiras da altura impediram que se avançasse com uma reabilitação integral do edifício, pelo que se fez uma intervenção mínima no mesmo, segundo um projeto do atelier Ricardo Carvalho & Joana Vilhena Arquitectos (RCJV).

O MUDE abriu portas em 2009, tomando-se a decisão museológica e arquitetónica de preservar as pré-existências do edifício e de tirar partido do estado de “ruína”. “O espaço estava totalmente descarnado e nós assumimos esse lado como património a preservar, a estudar e conhecer, e isso contribuiu para a reabilitação da Baixa, numa altura em que a Baixa ainda não tinha atravessado aquele boom”, relembra Bárbara Coutinho. 

A recente reabertura marca um momento diferente, na história do MUDE, e na história da Baixa, muito diferente de como se encontrava em 2009, vendo-se hoje a braços com a gentrificação e a pressão turística.

“A intervenção que foi aqui desenvolvida e maturada desde 2011 pretendeu reconhecer os diferentes tempos, na medida em que eles possam ser olhados como património muito rico para a aprendizagem, para a recriação, para o questionamento, para o encontro, para a noção de memória coletiva e identidade…”, resume Bárbara Coutinho.

A nova intervenção esteve três anos suspensa em consequência da insolvência da empresa que tinha a cargo a empreitada. E, hoje, o museu quer abrir à cidade com um propósito muito concreto: o de reavivar a vida cultural desta nova Baixa. 

“Este edifício pode contribuir para que se recupere uma vivência cultural da Baixa, que não exclui os turistas, que os recebe, mas dentro de um turismo cultural de qualidade, sem esquecer os nacionais, os locais, promovendo uma vivência intergeracional e familiar deste espaço.” 

Foto: Inês Leote

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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4 Comments

  1. Muito interessante para a memória de um povo e de uma cidade

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