Ora Marta Pen, ora Paulo Conceição, ora Tiago Pereira, que há poucas horas saltou no Stade de France, em Paris. Três atletas que levaram o nome de Mem Martins com eles até ao ponto mais alto na vida de um desportista, os Jogos Olímpicos (este ano a decorrer na cidade francesa). O que há de comum entre eles, além da paixão pelo atletismo? Um nome: Paulo Barrigana. Aos 59 anos, considerado um dos melhores treinadores de atletismo nacional, e professor de Educação Física na Escola Básica e Secundária Mestre Domingos Saraiva, nesta freguesia de Sintra, há cerca de 30 anos. Nesta escola onde se tornou um criador de campeões… olímpicos e não só.

Com apenas 12 anos, em 1976, o jovem Paulo, inspirado pelos bons resultados de Portugal nos Jogos Olímpicos em Montreal, Canadá, começou a corrida até ao primeiro objetivo: chegar ao Benfica. Naquele ano, Carlos Lopes obteve uma medalha de prata nos 10 mil metros. E Armando Silva Marques trouxe prata em tiro desportivo. “Lembro-me que eu fui no primeiro ano e não fui escolhido, mas não desisti. No segundo ano já consegui ficar no Benfica a treinar.”

Paulo Barrigana, nos tempos de atleta. Foto: D.R.

Uma carreira que duraria até aos anos 90, encerrada com chave de ouro quando Paulo foi consagrado como um dos melhores atletas a nível nacional. Depois dos títulos de campeão nos escalões mais jovens, tornou-se campeão nacional dos 110 metros de barreiras em 1991 e 1992, e dos 60 metros barreiras (em pista coberta) em 1992 e 1993. Antes, consagrou-se ainda no Decatlo em 1987, e nos 4×400 metros em 1988.

A vontade de transmitir os seus valores para as gerações que se seguiam fez-se superior a qualquer outra que o fizesse parar definitivamente. E a missão continuou, desta vez como treinador de atletismo… e professor numa escola básica em Mem Martins, que ele ajudou a tornar um clube federado fazedor de campeões nacionais.

A “âncora que agarra o barco da educação ao fundo do mar”

Atualmente, a escola conta com 13 recordistas nacionais. Um deles é Pedro Vieira, campeão nacional de Barreiras sub 18. Com 16 anos, sabe bem o que quer e isso reflete-se nos títulos. Mas nem sempre foi assim.

Para ele, como para muitos outros miúdos, a carreira prometida era de bola nos pés. Mas Pedro percebeu “que não era bem por ali”, que em campo aquilo em que ele era bom era mesmo a correr. Mas o nome “Barrigana” ainda veio antes de “atletismo”. “Foi o meu diretor de turma na altura e a minha mãe que me falaram dele”, conta Pedro, que rapidamente passou a fazer escala na escola de Paulo para lá ir treinar.

Pedro Vieira, campeão nacional de Barreiras sub 18, é treinado por Paulo Barrigana. Foto: DR

“Achei que ia ser só mais um treinador, mas hoje já não o vejo só assim, vejo como amigo, parceiro”, conta Pedro. O atleta acredita que o sucesso do treinador e dos seus alunos está no equilíbrio entre o “divertido” e o “rígido quando é preciso”. “Sem ele não teria feito as conquistas que fiz, ele motiva-me e puxa-me para fazer mais.”

Pedro não estuda na escola onde Paulo ensina (está a fazer o ensino secundário na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, ali perto), mas a escola de Mem Martins tem estado de portas abertas para vários curiosos e atletas, miúdos e graúdos, rapazes e raparigas, que se apaixonam pela modalidade. Outros já caminham por estes corredores e, para eles, o desporto vem depois, chega com a obrigação de estar na escola. E, por isso, a captação desses é sempre a mais difícil, conta Paulo Barrigana. “Nós convivemos com alunos que dão problemas, que trazem facas para a escola e nós tentamos com o desporto ajudá-los. Muitas vezes eu faço uma abordagem e pergunto-lhes: ‘mas o que é que se passa? O teu pai fica satisfeito com isso?’ E eles dizem logo: ‘professor, não tenho pai’. E eu: ‘bem-vindo ao clube’.”

É através da empatia que o treinador procura plantar nos jovens a semente do desporto, mesmo ciente das dificuldades que se atravessam no caminho.

“Nós estamos aqui entre a KPM, que é um bairro considerado pesado, e a estação de comboios, onde passa muita droga. Por isso é que eu venho de ténis rosa, camisola verde, dar cor à vida dos miúdos. A vida é cinzenta, os ordenados estão maus, os pais não têm emprego e nós aparecemos a dar um bocado de cor. Mostro que o nosso bairro, o 2725, é o nosso código postal, e que nos deve honrar muito.”

Paulo Barrigana diz que tem sido um privilégio esta função de treinador e professor. Foto: André Serra

São vários os contextos e tantas as nacionalidades que aqui desaguam, no Olimpo de Paulo, onde só faz sentido uma missão: não é pelas medalhas, o desporto deve ser, antes de tudo, “um fator aglutinador de pessoas”.

“Um gajo olha para trás, conhecemos estes atletas e a ligação é profunda e maravilhosa. Nós somos uma âncora educativa. Uma âncora que agarra o barco da educação ao fundo do mar. Tem sido absolutamente fantástico ser professor.”

Na escola ou nos Jogos Olímpicos: as medalhas que contam

A atividade física tem provado ser transformadora para os jovens desta escola que, a par com os professores, conquistaram um posto reconhecimento no universo desportivo. Na freguesia, nem por isso, lamenta Paulo. “No meio do atletismo somos muito referenciados, mas no meio da freguesia ou para a Câmara de Sintra não temos assim tanta projeção. O desporto é uma chatice…”

Foi necessário trilhar um longo caminho para hoje o desporto escolar desta instituição alcançar o patamar em que se encontra, desabafa: “Quando eu caí aqui na escola, nós não tínhamos nada. Não havia nada, não havia barreiras, não havia colchões… Foi adaptar.”

Hoje, a Escola Mestre Domingues Saraiva é um polo desportivo de referência nacional e internacional. Uma escola composta por campeões, recordistas olímpicos e nacionais nas mais diversas disciplinas que compõem o atletismo, desde as corridas de velocidade aos saltos e aos lançamentos.

Há dias, Paulo recebeu a visita de Tiago Pereira, atleta de triplo salto, antes de partir para os Jogos Olímpicos. Agora a viver em Espanha, Tiago foi treinado por Paulo durante 12 anos seguidos. Como ele, são vários os campeões, olímpicos ou não, que já ajudou a sonhar.

Vídeo gravado por Paulo Barrigana, há 12 anos

Mas, às vezes, sonhar é só mesmo isso: sonhar, participar, fazer. “Imaginem que eu tenho uma corrida com 100 pessoas: eu quero e tento que aquelas 100 pessoas tenham um fator de sucesso com aquela corrida, porque numa corrida de 20 mil pessoas, o último, ainda assim, pode ter ganho. Chega à meta e começa a chorar porque pela primeira vez conseguiu acabar aquela corrida de 42 quilómetros.”

Fá-lo lembrar de uma das “histórias mais bonitas” com que se cruzou. “Um miúdo que veio para esta escola obeso. A irmã dele perguntou-me: ‘o professor acha que o meu irmão pode vir treinar?’ Disse logo que sim. O miúdo manteve-se na humildade, sempre a trabalhar, não ganhava nada, não fazia nada de jeito. Entretanto, durante o confinamento ele fez uma prova e ele faz a melhor marca do país aos mil metros.” O tom de Paulo ainda é de surpresa.

“Isto é o que o desporto escolar permite: incluir e dar tempo”, diz o criador de campeões.



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5 Comments

  1. Gostei de saber que existe um Paulo Barrigana. A propósito houve um Guarda Redes de futebol que ainda vi jogar. Era muito bom nos cruzamentos e saía bem da baliza. Creio que chegou a internacional. Se fosse rico mandava um cheque… assim mando estas palavras: Obrigado. O treinador e professor saberá o que quero dizer. Tenho quase a certeza que nenhum Ministro ou Secretário de Estado ainda o fez.

  2. E ser professor, na sua essência mais nobre e profunda, é isto mesmo: dar o melhor de si em prol dos seus alunos e da comunidade em que está envolvido e inspirar, rasgar horizontes e semear futuro em tantos e tantos jovens que encontraram neste professor (como em muitos outros, com as suas valências, por esse país fora) uma âncora e um caminho transformador nas suas vidas, o que os ajudou a serem melhores alunos, mas sobretudo, ainda melhores pessoas! Há uns anos atrás, no parque urbano de Mem Martins, junto ao túnel de Ouressa e perto da sua escola, encontrei o colega Paulo Barrigana numa sessão de treino com os seus alunos/atletas e pude cumprimentá-lo, hoje deixo-lhe aqui um forte abraço de reconhecimento, apoio e gratidão, pelo exemplo que é para todos nós! Tudo de bom, Paulo! Em frente e em força 🙂
    Ricardo Silva (D. Carlos I – Sintra).

  3. O miúdo Pedro, que orgulho vê -lo a praticar esporte. Força Pedro e parabéns professor Paulo!

  4. Sao professores e treinadores como eu fui que fazem falta ao pais.

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