Neste jornalinho local, Mensagem de Lisboa, como diz o seu nome, de Lisboa, sempre dedicado àquela região entre Setúbal e Caldas da Rainha, do choco frito ao Rafael Bordalo Pinheiro, da única capital europeia com praia e a primeira de país europeu com um capitão de seleção não branco – cefalópodes, zé povinhos, barcos pousados na areia e senhor Coluna, tudo tão português e civilizado… – venho hoje falar dessa momentosa e preocupante questão que é a França e as próximas eleições: será que a Marine Le Pen…

Há dias, na rede social X (antes conhecida por Twitter), a deputada Rita Matias, do Chega, publicou este curto texto: “Pois… França aos franceses!” E ilustrou-o com uma foto de Mbappé, no chão, futebolista da seleção francesa, durante um jogo do Euro. Mbappé nasceu em Paris, é mestiço, filho de um camaronês e uma argelina.

A curta frase foi postada com acinte, quer dizer, com conhecimento de causa, em caso pensado e a propósito: Rita Matias considera, com aquele curto texto, que Kylian Mbappé não é francês.

Foi o que ela quis dizer e disse. Tal como eu, quando ainda há bocadinho escrevi “Rita Matias considera, naquele curto texto, que Kylian Mbappé não é francês”, foi o que eu disse.
No texto seguinte, também no X, Rita Matias escreveu: “Tenham calma, estava só a sugerir que o jogador meteu o nariz onde não era chamado…” Texto que foi ilustrado com a repetição do texto anterior (“Pois… França aos franceses!”) e a mesma foto: Mbappé sentado no relvado, durante um jogo, cara suja de sangue e nariz partido.

A frase dela (“Tenham calma, estava só a sugerir que o jogador meteu o nariz onde não era chamado…”) é acobardada, tentando esconder o que dissera antes, que Mbappé não é francês. A frase inicial é sem vergonha, a seguinte quer tomar-nos por parvos.

Acresce que, na segunda frase, Rita Matias, além de cágada, foi burra. Fingir (“tenham calma, estava só a sugerir que o jogador meteu o nariz onde não era chamado…”) e ilustrar com Mbappé de camisola francesa – palavras e foto – confirma involuntariamente o que já na primeira frase explicitara. A deputada do Chega considera que Mbappé meteu o nariz onde não era chamado, isto é, na seleção francesa.

A deputada juntou nos dois tuítes escassa inteligência e vastidão de desfaçatez. Há uma palavra no hino La Marseillaise que os jogadores da seleção francesa convocam, antes de cada jogo: “Citoyens!”, cantada e com ponto de exclamação.

É o que eles são, cidadãos, por direito que a Constituição francesa lhes garante (tal como a portuguesa, aos jogadores portugueses). Negar-lhes, mais do que um crime, é um erro. Um crime pode ser passageiro, umas vezes ser e outras, não. Já houve tempo em que um negro não podia ser cidadão francês. Agora, mais do que um crime, ser erro é uma negação infinita: um erro é uma coisa que não é. É uma não verdade. Dizer que um negro francês, por ser negro, não é francês, é um não facto.

Mesmo se amanhã (longe vá o agoiro) a Constituição francesa retirar aos seus negros, ou aos seus mestiços, ou aos seus judeus, ou aos seus descendentes de portugueses a condição de francês – isso, essa infinitude! – continuará a ser um não facto. Talvez só precise que de novo se desembarque na Normandia para lembrar quão inequívoco erro era. Só os tolos e farsantes, hoje e amanhã, não o reconheceriam.

Um parêntese, mas com tudo a ver. Desde há meses, a nossa cidade, graças à Mensagem, tem um mural sobre um erro. Com o Porto de Lisboa e o Vhils, em outubro, homenageámos um homem que deixou obra em Lisboa. Ele fotografou europeus usurpados da condição de ser cidadãos. Tinham passaportes carimbados com um “J” a vermelho, de judeus destinados aos campos de concentração nazis, mas por aqui passaram e se salvaram. O fotógrafo Roger Kahan, francês e judeu, também por aqui se salvou.

E ao lado da Gare da Rocha Conde de Óbidos, numa empena de dois andares, está uma foto dele, virado ao Tejo. Contra a peçonha contumaz, ela lembra-nos que a memória é precisa.


A França foi campeã mundial futebol em 1998. Com um slogan, Black-Blanc-Beur, as cores nacionais francesas, bleu-blanc-rouge, substituídas por uma paleta de etnias: negro, branco e descendentes de magrebinos… Na equipa havia negros das Antilhas e de África, brancos de origem gaulesa, portuguesa e basca e muçulmanos árabes e berberes…

Uma mistura que não foi precursora na Europa.

Já 60 anos antes, na seleção portuguesa permutavam no lugar de avançado centro, Peyroteo (um branco nascido em Angola, sportinguista) e Espírito Santo, (um negro nascido em Lisboa, benfiquista). Em 1938, da estação do Rossio, a equipa partiu de comboio para a Alemanha. Os dois amigos e rivais escolheram ir juntos na cabina de duas camas. No ano anterior, no Funchal, o hotel que recebia o Benfica recusou o quarto ao Guilherme Espírito Santo, e propôs um anexo. A equipa “aceitou”: foram todos dormir para os anexos.

A seleção nacional ia fazer um amigável contra os alemães, em Frankfurt, nas vésperas do Mundial e poucas semanas depois da Alemanha ter invadido e ocupado a Áustria.
Para a pequena história foi empate; para a ignomínia, pela primeira vez, as camisolas alemãs tinham o símbolo nazi; e, por puro azar do destino, o selecionador português Cândido de Oliveira preferiu Peyroteo no centro do ataque português. Teria sido uma bela ironia aquelas camisolas de raça pura terem defrontado um europeu negro.

A decisão do treinador português ter sido só desportiva garante-o a vida de Cândido de Oliveira. Democrata de sempre, quatro anos depois de Frankfurt foi preso e enviado para o campo de concentração do Tarrafal. E também não há razões para suspeitar de Peyroteo por ter aceitado o lugar que podia ter calhado ao seu amigo Espírito Santo. Quando se despediu da uma carreira gloriosa (ele foi um dos Cinco Violinos, do Sporting) Peyroteo quis na homenagem um jogo entre a seleção de Lisboa e seleção de africanos, a jogar em Portugal – e foi por esta última que alinhou.

Veja o resto desta BD aqui.

Em 1961, já selecionador, num jogo de apuramento para o Mundial, Peyroteo colocou no templo do futebol, o relvado de Wembley, em Londres, a mais misturada das equipas portuguesas. Entre negros, mestiços e brancos, e até um luso-brasileiro, só um jogador tinha nascido em território de Portugal continental. E mesmo esse, só de raspão, pois Cavém era natural de Vila Real Santo António.

Há 63 anos, aconteceu esse Portugal de brilhante lusco-fusco, em Wembley! Perdemos 2-0, demos uma lição de modernidade. Que dramática informação para os puristas campeões do sangue lusitano.

Muito mais tarde, a importância daquela França de 1998 foi muito forte, no contexto europeu. No virar do milénio, o continente descobria os filhos das suas imigrações e os seus problemas de integração. O colorido da equipa nacional francesa teve tal impacto que a vaga atravessou fronteiras: a vizinha Alemanha (a da lei do sangue e não da nacionalidade adquirida pelo nascimento) abriu, então, só então, as suas camisolas nacionais aos filhos dos turcos… O Mundial de 1998, além de famoso como todos, foi um acontecimento social marcante.

Acontece, porém, que em França esse fenómeno integrador de 1998 não resistiu ao estilhaçar da sociedade, espicaçada também, para lá do racismo lepenista, pelo radicalismo islâmico.

Logo em 2001, num jogo França-Argélia, em Paris, as bancadas de jovens assobiaram a Marselhesa. Para esses filhos dos arredores parisienses, a “sua” equipa era a outra, a argelina, mesmo para aqueles cujos pais eram marroquinos ou tunisinos… A identidade muçulmana sobrepunha-se à nacionalidade.

Se o maior representante dos beurs na equipa de 1998, Zidane, patrão em campo e patrão de balneários (como se comprovou no seu sucesso posterior como treinador), era um moderado, outros trouxeram para a seleção as pulsões que levavam os jovens das banlieues à revolta. A vontade e os atos eram de sublinhar mais as diferenças do que a identidade. O declínio da equipa de França, com clímax no Mundial de 2010, com a seleção em rebelião pública, era fruto duma equipa que acabou dividida pelas origens dos futebolistas. Assim, não havia linhas de passe que resistissem…

O futebol que parecia promissor, unificador, acabou derrotado. O afastamento de futebolistas da seleção como Nicolas Anelka e Franck Ribéry (convertido em Bilal Yusuf Mohammed) ajudou-a a atravessar o deserto. E, 20 anos depois, no Mundial da Rússia, a França voltou a ser campeã. Com blacks, blancs e beurs…

Kylian Mbappé, parisiense, filho de camaronês e de argelina, nasceu no ano dessa vitória, 1998. Vinte anos depois, na véspera do Mundial na Rússia, o jogador foi entrevistado pelo Le Monde e fez questão de se manter dentro das quatro linhas: “Quando tu perdes, é um problema desportivo; quando tu ganhas, é um sucesso desportivo”, definiu ele a profissão. Mas quando o jornal lhe perguntou se queria encarnar a geração de 1998, ele fez gala em ser gaulês e reclamou-se cidadão: “Quero encarnar a França, representar a França e dar tudo pela França.”

Nesse dia, o jornal Le Monde fez manchete: “O desafio de uma equipa, a esperança de um país”. E, de facto, 2018 é o sucessor de 1998, não dos assobios de 2001.

Esperança de um país, a França deve-lhe isso, disse um jornal que vale a pena. Ainda no outro dia, Kylian Mbappé, estava ele a trabalhar, e mostrou o que é para ele trabalhar. Tem 25 anos, ganha milhões, no que faz é um dos melhores do mundo (opinião unânime), mas tem interesse, nestas semanas, em fazer mais meia dúzia de jogos. Assim, quando a bola subiu no meio duma multidão, ele tinha razões para se encolher.

Mas não. Mbappé atirou-se com as ganas que todos pudemos ver. Na violência do sucedido, na atenção e repetição da câmara lenta: o choque do nariz, mesmo de meio-preto, partido contra o ombro de um adversário. Quer dizer, ele arriscou não ganhar um Europeu, que nunca ganhou, arriscou pôr em causa o contrato mega, extra milionário que o espera no Real Madrid, arriscou a carreira (fui ver outra vez em câmara lenta).

Menos de uma semana depois, lá estava ele, de máscara, a fazer a França, mais um golo, continuar a ambição. Com que lata, mesmo admitindo que podia haver outros interesses, vou eu pôr em causa Mbappé quando ele se dá, em palavras e factos estes desígnios: “Quero encarnar a França, representar a França e dar tudo pela França.”

Pelo menos ossos, cartilagens e septo nasal, sou testemunha, arriscou.

Por outro lado, Rita Matias, de 25 anos, mais dois meses até, tem também uma profissão que pode ser nobre, pois ela é política, deputada. Não chuta, finta ou cabeceia, exerce falando. Mas, como diria Sophia, a jovem abutre não é sábia e exerce com o dom de tornar as almas mais pequenas. Onde outros arriscam, ela, como eu disse atrás, ela faz discursos errados.

Escrevendo esta crónica sobre futebol, política e cidadania, naturalmente continuo-a com o sino da minha aldeia. A 8 de outubro de 1965 chovia que Deus a dava e o sino do meu bairro – mais exatamente, o da igreja da Nossa Senhora do Amparo – tangia de alegria. Porém, o noivo, Eusébio da Silva Ferreira, já de braço agarrado pela mão da noiva, Dona Flora, ia sério e compenetrado, pelo empedrado que bordeja a Estrada de Benfica.

Dona Flora feliz, o mais famoso português de então, um português agradecido e o maior repórter fotográfico, Eduardo Gageiro – o futebol foi feito para juntar. Foto: Eduardo Gageiro


Ia Eusébio assim sombrio, apesar do júbilo do badalo, talvez porque ele conhecia o poema de Pessoa: “E é tão lento o teu soar/ Tão como triste da vida/ Que já a primeira pancada/ Tem o som de repetida.” Quer dizer, estava ali um português pleno, muito propenso ao sentimento lamecha, sobretudo nos dias de festa. Pouco antes, Coluna, igualmente macambúzio, capitão maior e padrinho a partir desse dia, conduzira Dona Flora ao altar.

Justificando o ar circunspecto dos dois futebolistas, diga-se que a cem metros do átrio da igreja situava-se um campo sagrado. Exatamente sobre o que é hoje o asfalto da Estrada de Benfica inaugurara-se antes, em 1907, o primeiro campo de futebol em que o Sport Lisboa e Benfica (SLB e não só Sport Lisboa) jogou.

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Recentemente duas belas vivendas foram restauradas e ficam a olhar para o lugar mais do que centenário, à saída de Lisboa. Há uma foto dos futebolistas jogando, as balizas com redes dadas pelos pescadores da Caparica e as lavadeiras a pôr a corar a roupa acabadinha de lavar na ribeira de Alcântara. A minha aldeia. A Mensagem está farta (está nada farta…) de contar pedaços dessa história pátria.

Esse Benfica antigo foi o de Marcolino Bragança, o jovem que recusou o fim do Sport Lisboa – clube que tinha ficado quase sem jogadores, depois do raide guloso feito pelo Sporting, entretanto criado em 1904. Foi o miúdo Marcolino, de 16 anos, que foi ter com os mais velhos Cosme Damião e Félix Bermudes e os convenceu a juntar os juniores à equipa depauperada. Encontraram aquele campo pelado em Benfica, (re)fundaram o Sport Lisboa e Benfica, e o clube (re)nasceu em 1907.

Os que venceram a crise do Sport Lisboa: Félix Bermudes (com a bola), impôs o novo nome, Sport Lisboa e Benfica; Cosme Damião (ao centro, primeira fila), a alma do clube; o santomense Marcolino Bragança (primeira fila, à direita) que mobilizou os jovens para substituir os que partiram para o Sporting . Ilustração: Nuno Saraiva

O miúdo Marcolino Bragança, destino sagrado cumprido em Portugal – o Benfica não morreu – regressou à sua terra, São Tomé. Depois foi para Angola e criou uma roça. Quase meio século depois, em 1965, o Benfica fez uma digressão em Angola. O clube já era bi-campeão europeu. O presidente do clube e a equipa visitaram-no em sua casa.

Eusébio e Coluna (de pé, de bigode), na visita a casa de Marcolino Bragança (de carapinha branca, sentado). Foto: Blogue Em Defesa do Benfica

Agora, no meu bairro, a propósito deste Europeu de futebol, a Junta de Freguesia de Benfica decidiu fazer política e bem. A duzentos metros do campo inicial, e tendo de permeio a igreja – só monumentos – o Palácio Baldaya abriu uma exposição sobre os futebolistas que passaram pelo bairro. Os nossos, os nascidos e os chegados, os que passaram e aqui morreram, os que brilharam e os esquecidos, os desta e daquela, todas as camisolas.

A política a honrar o futebol. Não dos cartilheiros que fazem do clube degrau para atingir as televisões e das pantalhas salto para arregimentar o ódio. Sim da política que aproveita a força agregadora do futebol e nos junta, arma com memórias, abraços, gritos e sermos povo, gente diferente, como sempre são duas pessoas, em construção de identidade cada vez maior e mais rica.

A exposição no Palácio Badaya, visitada por Shéu. Foto: Junta de Freguesia de Benfica

Voltemos ao Marcolino Bragança, que, claro, tão mais velho, nunca vi jogar. Evoca-me laranjas. As do meu outro bairro, da minha infância. Quando foi para a minha Angola, fez uma roça no norte, perto do Ambriz, no vale do Loge e produziu laranjas. No meu bairro de infância, em Luanda, a quitandeira apregoava: “Nalaaaanja doce!”

Eram dulcíssimas, casca fina, douradas, eram do Loge e não há mais. Ainda hoje, antes de comer uma do Algarve, de Valência, da Florida, do supermercado, recolho-me para buscar o cheiro e confirmar o que já sei, não há mais. Já não há a roça do Loge, do Marcolino Bragança, o miúdo mestiço que salvou o Benfica e prolongou a minha infância até hoje. Na exposição do Palácio Baldaya, um ato político, falando de futebol, que dizer cultura, entre outras histórias, encontrei esta, do nosso Marcolino.

Os portugueses conhecem, pela voz de Sérgio Godinho, cantor do Porto, uma das mais belas canções de amor da nossa língua: “…) seus seios laranja/ laranja do Loge/ eu mandei-lhe essa carta/ e ela disse que não…”

É sobre o namoro de um poeta da minha terra, Viriato da Cruz, que foi morrer à China. As melhores aguarelas de quitandeiras são de outro conterrâneo, Albano Neves e Sousa, que foi morrer a Salvador da Bahia. O poema foi musicado por Fausto, luso-angolano que anda por aí, Lisboa.

Nada que as minhas laranjas desconheçam, o viajar. Como o futebol, lição do mundo.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo. More by Ferreira Fernandes


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