No outro dia, cruzei-me com o Vitorino em Lisboa. Eu à espera de que acabasse uma entrevista num estúdio, ele a sair de lá. Ora, tal qual mortal, tendo os ponteiros batido nas três horas, ei-lo sem mais nem menos.

A menina que o acompanhava apresentou-mo, dizendo-lhe o nome. Eu pensei: “Valha-me Santa Engrácia, como se eu não soubesse quem é o Vitorino.” Cumprimentei-o como uma adolescente a olhar para o Justin Bieber. É que os olhos azuis do Lourenço Ortigão são belos, os abdominais do Tiago Aldeia mais belos ainda, e pouca coisa bate os quadríceps do Rúben Dias – mesmo assim, tudo isto é pó se comparado à voz do Vitorino. Vai assim com artigo definido e tudo, que na minha cabeça somos para lá de amigos há muito.

Sei lá quando é que o conheci. Sei que ainda não sabia ler e achava que a menina à janela era eu. Um tio meu dizia-me a canção, ele com os olhos castanhos doces, ele com o tom mais mel que eu já lhe vira, e eu não tinha como não achar que a letra era dele, a melodia era dele, e que a musa tinha o meu nome. Passei anos nesta ilusão. Havia um pedaço de arte inteiro feito só para mim. Um dia, perguntei-me por que raio estariam os UHF a cantar a nossa música. E só depois disso cheguei ao Vitorino. Aquela coisa timbrada, como um sussurro que nos abraça, um abraço que nos entra pelo ouvido, foi-me muito mais ao âmago do que qualquer versão rock. Eu era uma criança e andava de mãos dadas com uma canção antiga.

Como é óbvio, tudo isto se passou em Portugal, e em Portugal toda a gente come azeite Galo. Ouvia-o na televisão durante os anúncios: ó rama, ó que linda rama. Não sabia quem cantava, mas a rama, a que linda rama, também tinha de ser eu. Nesses anos, eu ainda estava a aprender a arte, bebia-a como um hidrópico em frente a uma fonte de água fresca, e tudo era alento e comoção. Se, do quarto, ouvia a televisão, sentava-me no sofá, de perninhas à chinês, embevecida, a ouvi-lo. Queria comer aquele amor de um trago (não é timbre, é amor em som), guardá-lo só para mim e, perdoe-se, não o partilhar nunca com ninguém. Em casa, não tínhamos nenhum CD do Vitorino, e a mais de duas décadas de distância não sei sequer se sabia como se chamava aquela voz. Voz que está comigo até hoje, que, em silêncio, sem peso, ainda levo no bolso.

Poucos anos depois, veja-se o absurdo, começou em Portugal a Operação Triunfo. Comecei a ver porque toda a gente via, e porque o David Ripado era tão lindo a cantar. E porque, meu deus, a Sofia movia a voz como quem manda a casa abaixo, e o Filipe Gonçalves mexia o corpo como quem não tinha ossos lá dentro. Um dia, uma dupla cantou a Queda do Império. Adorei as ondas do mar do mundo inteiro, e só não perguntei nada ao vento porque o vento não me falava. O que me falava era aquela letra, toda fina e inteira, e quando cheguei à voz certa foi uma nova alegria de viver. Há lá coisa mais linda do que ouvir Vitorino a cantar, num mistura pungente, sexy, trágica, apaixonada, “tira e foge à morte”? Nem chega a interessar o teor quando tratamos de sílabas a bailar com a língua, quando a voz nos foge com ele para um “a sorte é de quem a terra amou”. Na voz de Vitorino, qualquer palavra parece feita para casar com a seguinte. Em menina, casava eu com ele ao longe. Glosava-o, cantava-o, amava-o. Fez-me tão escritora quanto outros que metiam palavras em papel e até Hemingway meteu ao bolso.

Estas foram as três primeiras canções que lhe ouvi: tio, azeite, televisão. Nenhuma veio dele, por todas lhe cheguei. Depois veio o resto, e depois veio Lisboa. Bem sei que aquele tom tem um açúcar mais de sul, mas para quem vive no Minho o que há depois de Aveiro é quase o mesmo. Enfim, não interessa. Interessa isto: vieram outras. E com essas lá o imaginei a chamar cana verde a alguém – cana verde dele. E, só a imaginar o que era a vida, imaginei que a música era a pressa com que se mergulha num corpo, se vai ao fundo e se volta, se navega, se navega. No meu quarto, ouvia-o a toda a distância e navegava também. Ia dali para a seguinte, naufragava para a seguinte, conquistada e roubada pelo mesmo som, o mesmo verso. E na seguinte imaginava-o aqui, a ele que tinha saudades do seu amor de Lisboa. Ora, ou o amor era eu ou eu tinha de inventar um para mim. Talvez a segunda, já que nunca tinha sequer vindo a Lisboa. De corpo estanque, também eu dizia adeus às morenas de Goa e dava por mim, sei lá, também com um jeitinho bailarino. E ficava perplexa com a minha má-sorte: será que não se podia fazer um Vitorino que tivesse a minha idade para eu namorar com ele às sextas-feiras, os dois de mãos dadas em frente ao rio? Um escritor é mesmo isto – alguém a quem doem as dores dos outros, e também no meu quarto me parecia haver uma caixa escondida dos afectos no lembrar dos objectos que lá estavam. Olhava e via a cor perdida, a forma, o cheiro, as coisas esquecidas da importância que tiveram. Ora, importante era lembrar, voltar ao Tejo (era o Tejo que eu imaginava), perdida em dias descuidados, noites à toa, e – meu Deus – até me doía o pâncreas ao pensar na beleza de um navio a trazer de volta o sussurro dos teus passos – sei lá quem és tu – numa rua de Lisboa. A partir daí, lixada ficou a vida: amor nenhum seria aceite se não afagasse o corpo todo ou me lembrasse um sonho lindo, quase acabado, um céu aberto, outro fechado. É demasiada expectativa para levar para o futuro.

Enfim, a minha vida foi isto. Anos depois, ainda a amá-lo, lá dei com o Vitorino. Não lhe chamo músico ou cantor – substantivos demasiado comuns para uma coisa tão fora da lei dos homens. Encavacada, não me lembrei de lhe dizer ao ouvido uma carta de amor. Se o fizesse, talvez levasse com uma providência cautelar, mas numa crónica o amor escapa sempre impune. Nem duas frases trocámos, mas lá lhe disse: “Gosto tanto de o ouvir.” O Vitorino ouviu esta frase estúpida em vez do meu coração cheio da voz dele. Frase seca, pateta, sem graça, sem vida, sem paixão, sem nada, em vez da magia da voz dele. E tudo isto – parece a gozar – se passou num corredor seco de um edifício de Lisboa, não numa estrada aberta a receber a luz do sol poente a criar flores do nada só para o ver passar. À noite, em casa, pus-me a ouvi-lo. Isso mesmo, foi à janela. Cantei também, fingindo ter outra voz. E não duvidei mais: claro que a menina à janela fui sempre eu.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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