Sílvia Sousa nasceu com marcas do mercado. É o que lhe diz a mãe Fátima, de 67 anos, quando conta que a filha veio ao mundo sem cabelinhos na testa pois a sua barriga roçava o dia inteiro na banca do Mercado 31 de Janeiro, em Arroios, hoje também conhecido por Mercado Açucena Veloso. Não admira pois que, 32 anos depois, Sílvia continue onde tudo começou. E que, este ano, tenha amadrinhado a Marcha dos Mercados (uma das muitas que desceram a Avenida da Liberdade no desfile de 12 de junho), celebrando a vida do lugar onde cresceu.
Desceu uma vez mais a Avenida da Liberdade, ao lado do ator João de Carvalho, desta vez assumindo esse outro papel: o de representante dos mercados de Lisboa. “Foi com grande felicidade que voltei a descer a Avenida e a reviver a magia daquela noite.”
Por não ser figura pública, como tantos padrinhos de marchas, levantou a curiosidade: quem é ela? Uma jovem criada entre as bancas do Mercado 31 de Janeiro e que conta uma profunda relação com este espaço, que já acontece há três gerações.
Embora esta não tivesse sido a primeira vez que a Marcha do Mercado foi apadrinhada por um representante de um mercado: em 2023, Susana Veloso, filha de Açucena Veloso, peixeira que faleceu em 2018 num acidente de viação e que rebatizou o Mercado 31 de Janeiro, foi madrinha da Marcha dos Mercados, ao lado do chef Rúben Pacheco Correia.
“Não há melhor pessoa para representar o mercado do que alguém que vive intensamente e sabe o que significa pertencer ao mercado, trabalhar no mercado”, diz Sílvia.
O convite foi lançado pela Associação dos Comerciantes, da qual Sílvia faz parte. “Já tinha sido marchante em 2005 mas ser madrinha foi diferente”, diz ela.
A infância nos mercados
Foi a sua bisavó quem inaugurou a vida no mercado. Nesse tempo, num outro Mercado 31 de Janeiro, também conhecido como o “Mercado do Matadouro”, por servir o Matadouro Municipal.
O mercado abrira portas em 1924, entre a Rua Engenheiro Vieira da Silva, a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Praça José Fontana.


Fátima Sousa, a mãe, que viveu sempre nos arredores de Lisboa, ainda se lembra desse mercado, e de ali ajudar os avós aos fins-de-semana. Quando o avô faleceu, ela, que trabalhava como cabeleireira, decidiu largar o ofício e dedicar-se à vida no mercado com a avó.
“E não me arrependo!”, diz Fátima. “Todos os dias se pode fazer uma inovação no trabalho e falar com as pessoas, e isso são duas coisas que eu aprecio imenso.“
O mercado passou a correr no sangue da família Sousa.
Sílvia chegou a conhecer esse antigo mercado, onde terá dado os primeiros passos. Sabe-o porque as velhas fotografias o mostram, embora não guarde memórias vivas desses tempos.

O atual Mercado 31 de Janeiro, na Praça Duque de Saldanha, abriu portas em 1996. E foi nesse que Sílvia se lembra realmente de crescer, no meio da fruta e das hortaliças. “Sempre foi uma coisa de que gostei: o mercado”, diz ela.
Mas não planeava ficar.
Sílvia terminou o mestrado em Engenharia do Ambiente quando o pai e a mãe adoeceram ao mesmo tempo. “Eu tive de segurar as portas.” E, um pouco como acontecera com a mãe, o mercado passou a ser a vida dela.
Hoje, é na banca de frutas e legumes da mãe Fátima que trabalha, não só com ela, mas também com o pai e o marido, Abílio, que já conhece bem esta vida: afinal, chegou a trabalhar na Peixaria Veloso, de Açucena Veloso.
Uma verdadeira família do mercado.

O velho Mercado 31 de Janeiro não está a morrer
A família assistiu às várias mudanças que o Mercado 31 de Janeiro foi sofrendo ao longo dos anos. “Antes éramos muito mais, eram dois pisos de mercado”, recorda Sílvia. Um cenário que se foi alterando com o envelhecimento dos mercantes e o abandono das suas bancas.
Nos últimos anos, a autarquia tem anunciado esforços para dinamizar os mercados da cidade, apesar de alguns se mostrarem moribundos. Em 2019, o Mercado 31 de Janeiro abriu uma Loja do Cidadão no 1º piso – uma forma de colocar o mercado no “centro da vida económica, social e cultural da cidade”, como dizia o Jornal Público em 2016.
Hoje, este espaço está bem vivo, dizem Sílvia e Fátima. “É um mercado com muita qualidade, com muita diversidade: carne, peixe, legumes, especiarias, o leitão, os queijos, a charcutaria…”, descreve Sílvia.
E um mercado que não ficou parado no tempo. Aqui, têm sido dinamizados eventos aos fins-de-semana, como a preparação de cocktails de fruta com a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, ou uma pequena feira do livro, o “Há livros no mercado”.



Mãe e filha acreditam que os mercados são uma tradição para perdurar. Até porque são muitos os jovens que hoje lá trabalham, dizem, muitas vezes continuando o legado dos pais e dos avós, como é o caso de Sílvia. “Mas é preciso gostar muito!”, alerta Fátima. “São 12h de trabalho”, completa a filha. “Começamos o dia às 4h, 5h da manhã.”
Depois, é uma azáfama o dia todo: servindo os clientes fidelizados, e muitas vezes também os turistas que por aqui vão aparecendo.
A celebração de Lisboa e dos mercados
Todos os anos, os mercados são relembrados e celebrados nas marchas. A família de Sílvia chegou a participar na marcha de 2005, e tem pena de não ter repetido a experiência. “Requer muitas horas…”, lamenta Fátima. “Mas admiro muito os marchantes, são pessoas com espírito de sacrifício!”
As marchas são também uma celebração de Lisboa, claro. E, embora a família nunca tenha vivido na cidade (Sílvia mora em Vialonga e a mãe perto de Malveira), Sílvia e Fátima reconhecem-se como lisboetas. “Eu gosto de Lisboa. Lisboa é uma cidade bonita, o nosso país é bonito. Lisboa tem monumentos bonitos, jardins bonitos, restaurantes bonitos!”, diz Fátima.
E mercados bonitos. Como os mercados que a filha Sílvia representou na noite de Santo António. E é a posar para uma fotografia em família que Fátima, muito sorridente, exclama: “Viva os mercados!”.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
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