Pode o resultado de uma eleição de um país impactar a realidade em outro país, a mais de 7 mil quilómetros de distância e com um oceano pelo meio? A experiência tem sugerido que sim. O Brasil volta novamente às urnas neste domingo (25 de outubro) e a vitória de qualquer um dos lados em algum grau influenciará no tabuleiro da imigração brasileira em Portugal.

O vai e vem entre os dois países não é bem uma novidade na centenária relação entre as antigas metrópole e colónia, mas esse fluxo começou a ser investigado com mais atenção nos últimos 50 anos.

E o resultado desse escrutínio científico mostra que a imigração obedece ao cenário económico e político (e ideológico) nos dois polos.

Foto: Consulado do Brasil em Lisboa/Divulgação.

Ou seja, pense numa balança em equilíbrio: cada vez que a realidade na perspetiva da população melhora ou piora, o peso de um lado se transfere para o outro. E esse peso pode ser uma crise económica, uma mudança de sistema político, guerras, desastres climáticos, mas também o vislumbre de uma oportunidade profissional e académica ou, no caso bem específico do Brasil, o sentimento de insegurança pública. 

Assim sendo, nestes 50 anos foram registados pelo menos três grandes vagas migratórias – há quem considere quatro – todas elas motivadas pelo cenário político e económico, seja no Brasil, seja em Portugal.

As eleições não são o único parâmetro, mas por serem realizadas regularmente – as presidenciais no Brasil de quatro em quatro anos – e por representarem a manutenção ou clivagem de um projeto político e ideológico, costumam regular o fluxo migratório entre os países.

“Os resultados das eleições num país, e não é diferente no Brasil, sempre influenciam nos projetos migratórios da população. A depender do resultado, a pessoa reavalia as expectativas para o país e considera ou não a hipótese de migrar”, resume a geógrafa e migrantóloga Adélia Verônica da Silva, investigadora do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

Adélia Verônica da Silva, investigadora do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa

Ressalva que a decisão de migrar depende, claro, de outros fatores, principalmente o económico e acesso às redes migratórias, formada por amigos ou parentes no país destino, que auxiliam na adaptação à chegada. Mas reforça que a insatisfação com a realidade política, económica e social no país é um motor importante.

Os cenários possíveis

Para ilustrar como a alteração de um cenário político e o resultado de uma eleição podem influenciar nas ondas migratórias, a vitória do citado Jair Bolsonaro em 2018 – hoje preso por tentativa de Golpe de Estado – consolidou a terceira vaga da imigração brasileira para Portugal, iniciada em 2016, com o golpe político que derrubou do poder a presidente Dilma Rousseff. 

A segunda vaga terminaria em 2010 com a crise económica mundial e a consequente implementação da Troika em Portugal, somado ao desempenho económico do segundo mandato do governo Lula – quando o PIB chegou a registar o aumento de 7.5% – iniciando o esfriamento da chegada de brasileiros ao país. 

Entre 2010 e 2016, o número de imigrantes que subia regularmente desde 1990, caiu pela primeira vez e de forma abrupta, reduzindo de 120 mil para 80 mil brasileiros, segundo dados do antigo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Há especialistas que defendem que a terceira vaga terminou em 2021, na pandemia, quando as fronteiras foram encerradas e a imigração brasileira para Portugal foi temporariamente interrompida.

Para outros, ela é retomada em 2022, estimulada pela desastrosa gestão económica do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia – com cerca de 700 mil brasileiros vítimas do vírus – pela inflação alta (que chegou a 10.6% em 2020) e o desemprego, que dobrou segundo segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegando aos 14,2% da população ativa em 2021.

Terceira ou uma possível quarta vaga, o certo é que entre 2016 e 2026, o número de imigrantes brasileiros saltou dos 80 mil para os atuais 574 mil, de acordo com a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), e isso com os aeroportos fechados por cerca de um ano.

O distrito de Lisboa, também segundo a AIMA, regista 430 mil a 600 mil residentes de outras nacionalidades, entre os quais os brasileiros são a comunidade estrangeira com maior expressão numérica.

Imagem de 2022, em Minas Gerais, Brasil. Foto: Nathalia Segato/Unsplash

Na atual eleição presidencial, as diferenças entre as propostas e o perfil dos candidatos podem voltar a mexer nos pesos na balança migratória.

Mas como exatamente?

Cenário 1:
A reeleição de Lula deve representar a continuidade de um projeto político pautado na inclusão social e diminuição da pobreza através de programas de incentivos e redistribuição de renda, além do maior controlo do Estado em diversas esferas da sociedade, como no sistema laboral.

Cenário 2:
A vitória de Flávio Bolsonaro por sua vez marcaria a clivagem para um plano liberal, estimulando a participação da iniciativa privada, reduzindo o incentivo do Estado em áreas como a educação e a saúde, promovendo ainda a desregulamentação da legislação trabalhista.

No contexto ideológico, a diferença ainda é mais radical. Enquanto Lula aposta na integração racial, étnica, religiosa e de género, o seu adversário promete seguir a linha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de que o governo deve governar para a maioria e não para as minorias. 

Adélia lembra ainda que o pai do atual candidato nunca visitou oficialmente Portugal como presidente e não estabeleceu nenhum esforço de aproximação diplomática entres os países, ao contrário de Lula que, durante os três mandatos, reforçou as relações institucionais entre Brasil e Portugal, como a assinatura do chamado “Acordo Lula” em 2005, que permitiu a regularização de 14 mil brasileiros ao receberem vistos de trabalho.

No seu terceiro mandato, Lula já assinou 13 acordos bilaterais com Portugal.

E como Flávio Bolsonaro já deixou claro que irá retomar as rédeas do pai, na prática o resultado das urnas pode marcar a manutenção de um cenário na relação entre os países ou o início de uma nova realidade, influenciando os fluxos migratórios entre Brasil e Portugal. 

Entretanto, o desempenho social e económico do terceiro mandato de Lula, quando o desemprego atingiu mínimos históricos e ronda os 5,3% e a inflação em 2026 deve rondar os 5% – aliado às novas regras de imigração portuguesa de restrição às emissões de visto de trabalho e de estudante, têm indicado um possível novo travão no fluxo migratório.

Desde o início do terceiro mandato de Lula, o retorno de brasileiros tem vindo a bater recordes ano a ano. Apesar de representarem 30% dos imigrantes em Portugal, os brasileiros já são responsáveis por 80% dos pedidos de ajuda para retorno voluntário, segundo a mesma AIMA. Em 2026, o número de pedidos já é 56% maior do que em 2025.

Um quarto mandato de Lula e a continuidade do crescimento económico no Brasil – já previsto pelo Fundo Monetário Internacional para 2027, com o país ultrapassando a Rússia e a Itália, tornando-se a oitava economia do mundo – somada às políticas migratórias mais rígidas e à deteriorização dos indicadores sociais e económicos em Portugal, podem intensificar o retorno dos brasileiros. 

E marcar assim, o fim definitivo da terceira (ou quarta) vaga de imigração.

Urna eletrónica. Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

A política alterou o perfil dos imigrantes

Adélia chegou a Portugal em 2007, em plena segunda vaga migratória, marcada novamente por decisões políticas com a assinatura do Tratado de Porto Seguro pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio, em 2000, durante as celebrações dos 500 anos das relações entre os dois países. 

O tratado permitiu que brasileiros legalmente em Portugal (e vice-versa) tivessem alguns direitos, entre eles o cartão de cidadão, viabilizando o acesso aos serviços públicos e ao mercado de trabalho.

Como especialista, Adélia deixa ressalvas ao “sistema métrico” que avalia os fluxos migratórios em vagas, por na maioria das vezes generalizar o perfil de quem imigra pela oferta de trabalho disponível ao imigrante e não pela sua formação profissional e académica. 

“Cheguei em 2007, em plena segunda vaga migratória, que costuma ser atribuída à mão de obra menos qualificada. De facto, trabalhei numa loja, mas à época já tinha um mestrado. E então, qual era realmente a minha vaga?”, provoca a investigadora. 

Apesar disso, o mesmo ano 2007 marcaria a lenta mudança do tal perfil do imigrante. Através da Lei 23/2007,  Portugal começou a emitir vistos de entrada para estudantes estrangeiros. Novamente, uma decisão política influenciaria no contexto das vagas migratórias dos brasileiros. 

Até então, desde a primeira vaga, iniciada em meados dos anos 1970 quando o Brasil vivia em ditadura e Portugal abria-se democraticamente após o 25 de Abril, o perfil do imigrante brasileiro era composto na maioria por profissionais, sejam os dentistas, publicitários ou trabalhadores do comércio, restauração e construção civil. 

Um perfil que se manteve na já citada segunda vaga impulsionada pelo Tratado de Porto Seguro.

A chamada Lei dos Estrangeiros que possibilitou a entrada em Portugal como estudante com permissão de trabalho contou ainda com uma ajuda da política brasileira. Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff criou o Ciência Sem Fronteiras, que concedia bolsas de graduação e pós-graduação para os brasileiros estudarem no exterior, equilibrou a presença de brasileiros entre trabalhadores e estudantes.

Extinto durante o governo de Jair Bolsonaro, o Ciências Sem Fronteiras não foi retomado na atual gestão de Lula – apenas a promessa de fazê-lo num eventual quarto mandato.

Em 2026, o governo português ainda alterou as normas de emissão dos vistos de estudantes, tornando o acesso mais difícil. O que pode representar um novo desequilíbrio no perfil dos imigrantes brasileiros em Portugal, entre trabalhadores e estudantes.

É a política a mover, mais uma vez, os pesos para um lado ou outro da balança migratória.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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