Às vezes, basta um telefonema. Um estudante precisa de aulas de português, uma família atravessa dificuldades financeiras ou alguém precisa de encontrar um médico. Inês Espada Vieira pega no telefone, contacta alguém que possa ajudar e procura uma solução.

Inês Espada, professora auxiliar na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Foto: DR

Outras vezes, as coisas não são tão simples.

Os alunos desta professora auxiliar na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa trazem um contexto diferente: são refugiados, para quem Lisboa virou forçosamente casa. Como eu, Norina Sohail, a autora deste artigo.

“Às vezes digo: apoiar refugiados e migrantes é tão fácil. Outras vezes digo: Meu Deus, isto é tão difícil.” Desde 2017 que Inês apoia refugiados e migrantes em Portugal. Hoje, coordena também a iniciativa de apoio a estudantes e investigadores refugiados da universidade. Um envolvimento que não termina quando os estudantes saem da sala de aula: fora das suas responsabilidades profissionais, apoia-os, como voluntária, a eles e às suas famílias, nos desafios de viver num novo país.

Um compromisso que começou com uma família síria.

Em fevereiro de 2024, Inês Espada levou alguns dos seus alunos refugiados a Belém, para conhecer o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Foto: DR

A família que mudou tudo

Inês Espada nasceu em Lisboa em 1975, um ano após a Revolução do 25 de Abril. Ela, uma revolucionária por geografia, mas também pelos estudos: dedicou o doutoramento a analisar a Guerra Civil espanhola e o período de ditadura neste país, com Franco à frente.

Como professora universitária, Inês vê na educação uma oportunidade para desafiar estereótipos sobre refugiados e migrantes. Acredita que mudar atitudes negativas em relação à migração exige mais do que apresentar argumentos. Porque, para muitas pessoas, as palavras “refugiado” e “migrante” descrevem categorias abstratas, e não indivíduos com personalidades, experiências e aspirações diferentes.

Em 2017, ela juntou-se a uma outra pequena revolução: apoiar um pequena família síria, juntamente com um grupo de voluntários da sua comunidade paroquial.

As consequências humanitárias da guerra na Síria tinham-na marcado profundamente. Os apelos do Papa Francisco para que se ajudassem os refugiados, em particular depois da sua visita à ilha italiana de Lampedusa, em 2013, inspiraram-na também a ela e ao marido espanhol, Javier, a envolverem-se.

No início, recorda, tudo parecia fácil. Os voluntários estavam motivados e esperançosos, e o encontro com a família foi profundamente significativo. As dificuldades vieram depois.

“Por vezes, não conseguimos ultrapassar certos muros. Não são culturais, são muros burocráticos”, lembra.

Na sua experiência, as diferenças culturais e religiosas raramente foram obstáculos significativos. Pelo contrário: a insegurança financeira e os complexos procedimentos administrativos estão entre as maiores dificuldades com que se deparou.

E esta família síria foi só o começo. Embora não tenha contas exatas, porque na verdade não está a contar, Inês estima que tenha ajudado, direta ou indiretamente, cerca de 50 pessoas e respetivas famílias.

Houve um Natal em que nos juntou, muitos de nós, em casa dela, para não passarmos esta época festiva tão sozinhos.

Em 2025, Inês Espada convidou algumas das famílias que apoia para um almoço de Natal, em casa dela. Foto: DR

Uma bolsa é apenas o início

Na Universidade Católica Portuguesa, Inês coordena uma iniciativa que oferece a estudantes refugiados a oportunidade de iniciar ou prosseguir o ensino superior. Para o ano letivo de 2026-2027, a universidade disponibilizou 15 vagas em licenciaturas e mestrados nos seus campus de Lisboa, Porto, Braga e Viseu, com isenção total de propinas.

Agora no seu quinto ano consecutivo, o programa pretende dar a estudantes afetados por emergências humanitárias a oportunidade de concretizarem as suas ambições académicas. Mas a isenção de propinas não elimina as outras dificuldades que os refugiados podem enfrentar ao reconstruir a vida: alojamento, alimentação, transportes e acesso a cuidados de saúde. Alguns têm ainda familiares que dependem deles. E, claro, para qualquer refugiado a adaptação traz um peso.

Dentro da universidade, Inês é responsável por apoiar os estudantes refugiados na sua vida académica. Fora dessas responsabilidades, ajuda-os, como voluntária, a eles e às suas famílias, a ultrapassar todas estas dificuldades práticas.

Quando os estudantes precisam de apoio financeiro, procura pessoas ou organizações dispostas a ajudar. Quando precisam de cuidados médicos, procura formas de os pôr em contacto com médicos. Ajuda-os também a encontrar aulas de português e a orientar-se em procedimentos administrativos que não conhecem.

Inês descreve o seu papel como o de uma facilitadora, alguém que consegue ligar pessoas em dificuldades a outras que têm os recursos ou os conhecimentos para ajudar. “Adoro quando consigo fazer alguma coisa, quando me dizem que sim a alguma coisa”, afirma.

Mas algumas dificuldades exigem muito mais do que um telefonema para serem resolvidas.

Alguns estudantes refugiados podem precisar de ajuda durante vários anos, enquanto concluem os estudos e trabalham para alcançar a independência financeira. Para Inês, ajudá-los ao longo desses anos é um compromisso de longo prazo.

Inês reconhece que se envolve pessoalmente na vida das pessoas que apoia. Ao contrário dos profissionais treinados para manter alguma distância emocional, sente que tem poucas defesas perante o sofrimento com que se depara.

“Não é por ser uma boa pessoa.” Acredita que as suas circunstâncias a colocaram numa posição em que pode ajudar quem atravessa dificuldades. Acredita que muitos deles estariam igualmente dispostos a ajudar os outros se as suas circunstâncias o permitissem.

“Têm o direito de dizer não”

Para ela, o objetivo de prestar auxílio não é criar dependência permanente, mas ajudar as pessoas a recuperar o controlo sobre a sua própria vida.

Depois de anos a apoiar refugiados e migrantes, Inês hesita em dar-lhes lições sobre como devem viver. Prefere sublinhar quanto aprendeu com as pessoas que conheceu.

Embora possa explicar questões práticas, ajudar a lidar com procedimentos administrativos ou pôr alguém em contacto com pessoas úteis, não acredita estar em posição de ensinar os refugiados a viver a sua vida.

Tem, no entanto, dois conselhos.

E o primeiro é comunicar abertamente. Incentiva os refugiados e migrantes a dizerem às pessoas em quem confiam quando estão com dificuldades, quando não percebem alguma coisa ou quando a ajuda que lhes é oferecida não corresponde ao que realmente querem. Mas aceitar ajuda não deve significar abdicar da liberdade de tomar decisões pessoais. “Têm o direito de dizer não”, insiste.

O segundo conselho é lembrar que o apoio pode existir mesmo quando não é imediatamente visível. Um professor, um vizinho, um amigo ou alguém da comunidade local pode ser capaz de ajudar. Mas os outros nem sempre sabem quando alguém está a sofrer, sobretudo se estão a tentar respeitar a privacidade dessa pessoa.

Por isso, Inês incentiva-os a pedir ajuda. Talvez haja outras pessoas como Inês, a criar a sua pequena revolução.


Norina Sohail

Norina Sohail é uma jovem afegã de 27 anos que vive em Lisboa. Mudou-se para Portugal em março de 2022 e iniciou a sua licenciatura em Jornalismo em 2023. A par dos seus estudos académicos, realizou um estágio na Mensagem de Lisboa.

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