No outro dia, conhecemos uma senhora que tinha um pequeno jardim à porta de casa. Vasos, plantas e flores cuidadosamente dispostos junto à entrada, numa rua estreita da Quinta do Ferro, na freguesia de São Vicente, vizinha da nossa Penha de França. Regava-os com atenção e afeto. Conhecia cada planta pelo nome, os detalhes de cada espécie e as necessidades de cada exemplar. Falava daquele pedaço de espaço público, que o seu tempo e cuidado tinham transformado num pequeno jardim, como quem fala de uma extensão da própria casa.

Onde acaba, afinal, a nossa casa? Na porta de entrada? Na porta do prédio? Ou será que se estende pelo espaço que é público — pelas ruas que percorremos todos os dias, pelos sítios onde nos encontramos, pelos lugares que nos são familiares e onde sentimos que pertencemos?

Acreditamos que sim. Casa vai para lá das paredes e do teto que nos acolhem à hora de dormir. É também a rua, a praça, a árvore, o café, o banco onde nos sentamos, as pessoas com quem nos cruzamos. É o lugar que reconhecemos como nosso não porque nos pertença, mas porque dele fazemos parte.

Casa é comunidade.

Os encontros O Meu Vizinho da Penha e uma rede verde na Freguesia

Foi também a partir desta ideia que, meses antes, nascia O Meu Vizinho da Penha. Organizado pela Rede RUA (responsável pelo RUA Map), o que começou por ser um encontro comunitário sem guião — que pretendia somente pôr a freguesia da Penha de França a conversar — acabou por se tornar algo maior.

Na Associação Maloca, começámos por perguntar aos moradores o que gostariam de ver acontecer na sua freguesia. Aquele primeiro encontro, que reuniu cerca de uma dúzia de pessoas, foi roda de conversa para debater preocupações e juntar ideias — e mostrar-nos como estamos todos tão ligados. Falou-se de muitas coisas, mas houve uma vontade transversal a todos os tópicos: mais verde e sombra na freguesia.

Encontro terminado. E agora? Logo aí, ficou decidido: seria a comunidade a ditar o rumo destas sessões. Por isso, no segundo encontro nasceu O Meu Vizinho da Penha || Rede Verde na Penha. Em que consistiu? Um workshop para trabalhar ideias previamente submetidas pelos fregueses. Com os participantes, formaram-se diferentes grupos de trabalho, que se aconselharam junto do conhecimento e experiência — sem esquecer, generosidade! — de diferentes organizações presentes: a Associação Regador, a Zero Waste Lab, a The Future Design of Streets, a Associação Criar Florestas na Cidade, a Upfarming, a Mensagem e a Junta de Freguesia da Penha de França.

A sala da Tasca das Artes estava cheia. De pessoas, de ideias, de vontade em agir em conjunto. Com um catering divinal do projeto local Avó Cooking Lab servido na rua (lá está, a rua como casa), saímos deste evento satisfeitos, saciados, com o coração a transbordar. Connosco levámos muitas ideias e uma certeza: há uma comunidade inteira pronta para participar.

Mas como?

Capacitar a Penha de França

Ter uma ideia é uma coisa. Saber como levá-la para a frente é outra. É preciso saber a quem dirigir um pedido, que canais existem, como se apresenta uma proposta, que processos participativos estão disponíveis e onde encontrar essa informação. É preciso conhecer os caminhos, identificar interlocutores e saber onde procurar ajuda. É preciso saber como contornar obstáculos.

É por isso que entramos agora numa nova fase: a capacitação. Nos próximos dias, a comunidade da Penha de França vai poder colocar as perguntas que ficaram do processo e ouvir, de quem conhece estes caminhos por dentro, como avançar.

A primeira sessão acontece já esta quinta-feira, 24 de setembro, e é dedicada ao poder local. A responder às questões da comunidade estarão Maycon Santos e João Monteiro, vogais responsáveis pelas áreas do Associativismo, Diversidade, Inclusão e Cidadania e Participação, e pelos Espaços Verdes, Ciência e Inovação, respetivamente.

A segunda sessão, no dia 8 de outubro, será dedicada a quem já está a fazer acontecer. Contará com Rui Martins, presidente da Associação Vizinhos em Lisboa; Carlos Sacramento, fundador do Grupo de Moradores da Rua Cidade de Manchester; Miguel Valenta, do coletivo Mapear; e Hugo Warner, da Urbem Forests.

São pessoas, associações e coletivos que começaram por identificar uma necessidade, uma preocupação ou uma vontade e que, de diferentes formas, foram encontrando caminhos para agir. Nesta sessão, partilham o que aprenderam, os obstáculos que encontraram e as estratégias que lhes permitiram avançar.

Por fim, estamos a organizar uma terceira sessão, que contará com elementos da Câmara Municipal de Lisboa, que virá esclarecer o que ficou por responder. Em princípio, ainda em outubro.

A comunidade quer agir (só precisa de saber como)

Os encontros O Meu Vizinho da Penha têm encontrado eco no trabalho de José Carlos Mota sobre participação cívica em Portugal: o envolvimento das pessoas não depende apenas da vontade de participar. Depende também das condições que encontram para ser ouvidas, da forma como o seu contributo é reconhecido e da possibilidade de perceberem que a sua participação pode produzir resultados.

Por isso mesmo, estas sessões de capacitação foram pensadas para que as pessoas possam perceber como avançar e com quem avançar. Só assim criamos uma cidade mais participada, coesa e inclusiva.

Porque, na Penha de França, não há dúvidas: essa vontade está lá. Há pessoas que conhecem o território, que se preocupam com o lugar onde vivem e que querem trabalhar em conjunto para o transformar. Falta espaço e ferramentas. Espaços onde as pessoas possam ser ouvidas e perceber que a sua participação pode ter consequências reais. Ferramentas que as ajudem a navegar um sistema burocrático complexo, tanto ao nível da freguesia como do município. Porque, depois das ideias, vêm as perguntas. Agora, precisamos das respostas.

O nosso trabalho é colmatar estas falhas. Queremos ajudar a criar as condições para que a vontade em participar possa transformar-se em ação.

E para que, cada vez mais, esta comunidade se torne casa.


Ana Luísa Bernardino

Depois de uma década no jornalismo, trocou a redação por um mapa. Hoje, é responsável pela comunicação da Rede RUA, concretizando uma vontade muito antiga: criar impacto social e territorial. Continua a contar as histórias, focando-se agora nas de quem trabalha por uma cidade melhor e mais unida.

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